sexta-feira, 31 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 325 - Emanuel Lomelino

No horizonte, duas áleas de fogo-fátuo iluminam, com as suas línguas afiadas de fome, as gordas passadeiras da presunção.

Pernas torneadas, por óleos, lâminas depiladoras e solário, avançam na vaidade dos passos altivos rumo ao salão pedante, como se a vida fosse movida a esturjão e champanhe francês.

Os espelhos refletem a modesta jocosidade dos engraxadores de crinas escovadas e gravatas espampanantes, que bajulam girafas anoréticas, e outras aves-raras, de pescoços nus e manchas retocadas a botox.

Até os lustres e candelabros receberam suas doses de unguentos de brilho cristalino para irradiarem pompa e circunstância sob as ocas cabeças de gel, laca e outros gases aspergidos.

E este cenário de saltos-altos e narizes polvilhados só fica completo havendo trovoadas de flashes e adulações vocais porque, quando o sol retornar aos céus, o mundo plebeu vai querer vibrar com a ostentação dos bonecos movidos a exuberância fútil, lisonjas supérfluas e capas maquilhadas.

quinta-feira, 30 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 324 - Emanuel Lomelino

Interrogo-me sobre o paradeiro das palavras que, por falta de caneta e papel, ficaram por escrever. Aquelas que, abandonadas a sorte nenhuma, ficaram recolhidas no orfanato do léxico à espera de serem adoptadas por outros progenitores mais merecedores e sedentos da sua significação e importância.

Quantos serão os adjectivos, vagabundos silenciados com uma folha curricular debaixo do braço, que deambulam de estômago vazio e a esperança cosida na lapela?

Por onde andarão os advérbios sem modos e de nariz empinado que emergiram num momento de lucidez jamais registada?

Para onde navegarão agora aqueles verbos imponentes, contudo esquivos, que miraram o porto da criação com olho gordo, mas não saíram da embarcação da mente?

Como estarão os substantivos que um dia afloraram e foram barrados nos portões do estro, por não haver trajes de tinta nem hábitos de papel para os embrulhar numa qualquer história sem moral?

Como pode ser esdrúxula uma tarde sem pena nem caderno e palavras reprimidas!

quarta-feira, 29 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 323 - Emanuel Lomelino

Imagem freepik

O ginásio do polidesportivo estava apinhado de gente. Gerações de descendentes reunidos para celebrar o centenário Anselmo. Filhos (dois), filhas (quatro), netos (cinco), netas (seis), bisnetos (quinze) bisnetas (treze), trinetos (vinte e três), trinetas (vinte e seis), quatro tetranetos e duas tetranetas.

Foi numa cacofonia de conversas de ocasião, sobre futilidades, risos e gargalhadas estridentes, correria e choro de crianças, e olhares distraídos nos ecrãs da moda, que Anselmo apareceu sem ser notado.

Lentamente, aproximou-se da mesa onde estava um enorme bolo de aniversário, olhou em redor, contou os rostos presentes, um a um, sorriu pela ironia do número coincidir com o seu século de vida, soprou o mar de velas apagando todas as chamas bailarinas e formulou o mesmo desejo dos últimos vinte anos: queria ouvir a voz da sua sombra, a única entidade que jamais o ignorou.

Saiu tão invisível como havia entrado e só foi descoberto duas horas depois, abraçado a si mesmo e com um sorriso triste, no seu leito de morte.

terça-feira, 28 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 322 - Emanuel Lomelino

Embora o tempo esteja a esgotar-se, ainda tenho esperanças de encontrar, em vida, o contrato de adjudicação e a licença empresarial da fábrica que fornece os problemas e contratempos que cruzam o meu caminho.

Depois, caso consiga o contacto directo, pedirei uma reunião de trabalho com os máximos responsáveis da empresa (CEO, diretor criativo, chefe de produção, chefe da logística e de distribuição) para procurar entender os fundamentos-base na definição da complexidade e género de obstáculos que me destinam, conhecer os critérios usados para estabelecerem o momento exacto de confrontar-me com cada item, saber as razões para a frequência, quase diária, das entregas feitas e, mais importante de tudo, por que carga de água devo pagar as faturas de artigos que nunca encomendei.

segunda-feira, 27 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 321 - Emanuel Lomelino

Por vezes as memórias estendem-se, lado a lado, como toalhas de praia, alinhadas na areia fina, a olhar cenografias esgotadas, numa tentativa de fazer aflorar nostalgias.

Noutras alturas, as expectativas desenham cenários e enredos, como fossem oráculos druidas à procura de enraizar em nós teias de hipotéticos felizes augúrios.

Não lhes dou, a ambas, a atenção que pedem porque, talvez fruto de irreverência ou rebeldia, eduquei-me a valorizar o palpável e a não desperdiçar energia com as miragens do tempo, que nada mais são do que engodos da mente, cujo objectivo principal é desviar-nos o foco daquilo que realmente importa e pode impactar na vida.

Não há nada mais decisivo do que o agora; o momento; aquele ínfimo fiapo temporal que determina o nosso futuro e grava o passado que nos explica. Esse ténue instante que surge e nunca se repete, para o bem e para o mal, mas que tem o condão de ser a nossa versão mais verdadeira, mais genuína, mais espontânea.

domingo, 26 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 320 - Emanuel Lomelino

Por mais que tentem escamotear, no universo da escrita existe uma enorme diferença entre expectativas e realidade. Para além dessa máxima incontornável, quase nunca os cenários são exactamente como se pintam. O mesmo é dizer: raramente aquilo que se espera corresponde ao que se obtém.

Por outro lado, e porque aquilo que move os autores contemporâneos é muita coisa menos devoção à escrita, os leitores menos avisados – ou desatentos – acabam por comer gato por lebre pela forma hipnótica como os “produtos” lhes são escarrapachados nos focinhos e pela ofuscação propositada que os holofotes virtuais provocam.

De alguns anos a esta parte, a literatura tem vindo a ser preterida em detrimento de carnavais e circos de escrita, com os autores a submeterem-se ao papel de malabaristas - alguns com inusitada prepotência e falsa modéstia (porque acreditam ficar-lhes bem).

Já não se discute literatura. Ninguém fala de criação. Só existe apetência para a autopromoção, para o elitismo folclórico alicerçado na troca de favores e louvores, para o fogo-de-artifício fátuo que maravilha mais do que as letras.

Por tudo isto acredito que, hoje em dia, as tendas circenses são, maioritariamente, preenchidas por iletrados.

sábado, 25 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 319 - Emanuel Lomelino

Há uma tendência mística para qualificar todos os seres. Existem ligações aos elementos da natureza: água, terra, fogo, ar e o éter (clássicos); e aos atómicos: sólido, líquido, gasoso e plasma.

Se fizermos a ligação entre os elementos da natureza e os atómicos vamos encontrar correspondências lógicas: água/líquido, ar/gasoso, terra/sólido, fogo/plasma. E o éter?

Se pensarmos nas características do quinto elemento, os seres de éter são vazios, logo completos pela natureza do nada, do vácuo, de não-matéria.

Deste modo, e enquanto os cientistas continuam à procura de provas irrefutáveis que confirmem a existência do éter, talvez distinto dos conceitos divinos consagrados pelos filósofos, podemos concluir que os seres etéreos não existem ou, quanto muito, são confundidos na essência e, identificar alguém como ser de éter, é uma presunção descabida que roça a imbecilidade. E imbecis existem, tal como os buracos negros.

sexta-feira, 24 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 318 - Emanuel Lomelino

As gaivotas estão alinhadas no pontão, à espera do momento certo para agitarem as asas, enquanto os cágados sobem aos solários para aquecerem as carapaças e os patolas dividem pasto com os pombos – oportunistas-mor do parque.

Na outra margem do lago, a avó delicia-se com o espanto infantil que a netinha demonstra ao ver o aspersor regar a relva luxuriosamente verde.

Os bancos de jardim começam a ficar ocupados por gente sem horário, viciados em ecrãs táteis, novos românticos e apreciadores de solidão ao ar livre.

Num canto resguardado, o pt da moda dá instruções gímnicas ao escanzelado que, banhado pelo esforço, tenta transparecer atleticismo para impressionar as loiras saradas que usam o trilho próximo.

Joggers, runners, ciclistas e trotineteiros cruzam-se invisíveis, na pista de alcatrão laranja, com a voluptuosa patinadora quase desnuda, cuja movimentação acelerada provoca alvoroço no pontão. Uma a uma, as gaivotas abrem as asas, levantam voo e grasnam à sua passagem. Os cágados mergulham para arrefecer as carapaças, os patolas refugiam-se sob a água aspergida e só os oportunistas-mor continuam, impávidos e serenos, entregues à rapinagem, numa indiferença pombalina.

quinta-feira, 23 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 317 - Emanuel Lomelino

Sonhei que as páginas de um caderno abriam as linhas, como bocas famintas, para se alimentarem das palavras que, devoradas, ficavam caducas na sua essência.

Os verbos perderam força, os adjectivos secaram e os substantivos cortaram os pulsos com as vírgulas afiadas, com medo de ficarem, eles próprios, enfermos de amnésia.

De repente as metáforas deixaram de ser funcionais e os pontos de interrogação tentaram agarrar-se aos rodapés íngremes como penhascos, numa tentativa de protelar a sua extinção.

O apocalipse parecia estar a ganhar vida quando, no momento em que o frémito de todos os vocábulos pegou fogo, as labaredas envolveram o caderno que começou a contorcer-se até transformar-se num monte de cinzas-negras e um sol apareceu no horizonte anunciando renovação.

As palavras sacudiram o pânico dos ombros, deram os braços chamuscados, umas às outras, e prometeram continuar a sua função de retratar por extenso toda a amplitude das línguas de Babel.

quarta-feira, 22 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 316 - Emanuel Lomelino

Dizem que a morte é eterna, mas creio que este adjectivo não é o mais adequado. Para mim é mais correcto dizer que a morte é definitiva.

Para algo ser eterno é necessário apresentarem-se as provas substantivas dessa eternidade. E, até agora, ninguém foi capaz de nos garantir que a morte é estendida no tempo, para todo o sempre.

Já a condição definitiva prova-se por si mesma porque a prova reside no facto de, da própria morte, ninguém ter vindo refutar a sua irrevogabilidade.

O problema não está na morte, mas sim da adjectivação que se lhe dá. É uma característica humana qualificar e quantificar tudo, e mais alguma coisa, sem levar em consideração a etimologia das palavras.

Posto isto, e porque nada mais tenho a acrescentar sobre gramática fúnebre, resta-me mencionar outra certeza definitiva: tal como na vida, também na morte ninguém conseguiu inventar uma máquina do tempo. Se isso algum dia acontecer, pode ser que alguém nos venha esclarecer sobre o tema central deste texto.

terça-feira, 21 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 315 - Emanuel Lomelino

Há um fio condutor na disposição de cada palavra nas frases contundentes. O discurso, mesmo irreverente e atribulado, é explícito e não sobram dúvidas por esclarecer. Sente-se a força vital de cada verbo à medida que avançamos na leitura, sem problemas interpretativos. Tudo é cristalino na pureza dos sentidos, sem segundas intenções nem desejos ocultos.

Depois temos a descrição palpável dos cenários e personagens verosímeis até ao tutano, que nos entram corpo adentro, sem pedir licença, provocando-nos espasmos internos a cada reflexo espelhado de nós mesmos.

A trama injeta-se-nos na pele com toda a impetuosidade da sua essência aditiva e ficamos dependentes da curiosidade que nos assola e só conseguimos saciar juntando as peças do puzzle, eliminando as pontas soltas e desvendando todos os ângulos do enredo.

Depois de decifrada a última página, ficamos com a boca seca enquanto os níveis de adrenalina baixam à normalidade e desejamos ardentemente uma sequela ou que a próxima leitura nos faça sentir as mesmas arritmias. Assim são os bons livros. Aqueles que realmente valem a pena.

segunda-feira, 20 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 314 - Emanuel Lomelino

No resumo de mais um dia, sem brilho e vazio de sonhos, sobressaem as novas fissuras nas palmas das mãos e a rugosidade da pele indiferente a hidratações.

O crepúsculo é somente mais um virar de página e a lua apenas ilustra a negritude que paira, como ave de rapina, nesta rotina repetidamente sensaborona.

Entre tomos de coisa alguma, e outros nadas, sobrevivem rasuras de lucidez revoltosa, mas sobretudo apática.

Este cenário de apocalipse existencial é filho de um conformismo oxigenado pelas batalhas travadas em nome de crenças desfasadas, no tempo e espaço, como um ritual masoquista de louvor a um desenquadramento consciente e impregnado no âmago.

E com a nova alvorada reiniciam-se os passos flagelados e os voos espirais que justificam as ampulhetas.

domingo, 19 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 313 - Emanuel Lomelino

Já fui crédulo nas marés lunares, mas o voo dos pelicanos, em contraluz, revelou-se tão frouxo quanto as ondas que desmaiam nas areias costeiras.

Já acreditei na frescura primaveril, mas todas as migrações deixam um rastro de negritude e as savanas escondem melodias necrófagas.

Já confiei nas brisas refrescantes de verão, mas de todas as luzes nascem sombras que ocultam a natureza dos horizontes mais ambicionados.

Algures, nas inúmeras encruzilhadas percorridas, perdi a chave da candura e, pela primeira vez, enxerguei as verdadeiras cores da cobiça e do embuste.

Por mais que os abutres de ocasião abram as asas com sorrisos luminosos, há sempre notas de rodapé no final de cada página de gentileza.

sábado, 18 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 312 - Emanuel Lomelino

Dou por mim a pensar no quão estranho é a ideia de sermos ímpares no universo. De não haver outro lugar com o mesmo género de beleza natural que desfrutamos aqui, neste nosso planeta solar.

Quão bizarro é o conceito de habitarmos o único espaço com as características da Terra, sabendo que o cosmos é composto por uma infinitude de geologias.

As dúvidas e questionamentos atropelam-se na mente e, de hipótese em hipótese, o grau de aleatoriedade chega a parâmetros inenarráveis.

No meio das incertezas brota a esperança de que todo o conceito que envolve a nossa singularidade seja falho e, noutro qualquer ponto de qualquer galáxia, existam mais Terras habitadas, mas com melhor exploração das capacidades intelectuais.

Se for para ser igual nos defeitos, é mil vezes preferível sermos o único aborto cósmico.

sexta-feira, 17 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 311 - Emanuel Lomelino

Embrulhado no desconforto agudo de mais uma manhã, observo o envelhecimento acelerado das mãos e sinto as correntes enfurecidas dos rios que pulsam em cada uma das veias, como houvesse uma urgência líquida a irrigar os novos desfiladeiros da pele.

Por momentos vejo a geografia dos poros e as contrações dermatológicas são proporcionais à assustadora dilatação obtusa dos dedos – gigantes cansados e doloridos – que gritam sensibilidade e incómodo.

Esfrego os mapas nascidos nas palmas, numa tentativa vã de acender novos focos de resistência, mas o calor emanado simplesmente serve para confirmar a perda de capacidade hermética causada pelas calosidades dos dias e pela erupção vulcânica das escaras que enfurecem à primeira fricção.

Neste processo descubro que as mãos já não servem para guardar segredos nem para fazer truques de magia.

quinta-feira, 16 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 310 - Emanuel Lomelino


Dá-me graça assistir, desta poltrona sem foco, à modéstia exibicionista de alguns pseudoautores que, com penas sem tinta e lavras emprestadas, passam por ícones imaculados e assertivos.

A história repete-se, em círculos herméticos, com discursos de ocasião, cheios de frases batidas em castelo e clichês feitos por encomenda.

Por muito penoso que seja, não sobra alternativa que não passe por parabenizar, estes arautos da comunicação, pela ousadia e confiança com que fabricam os seus currículos, repletos de valências nuas de significado e importância, mas que, aos olhos dos beijadores de rabos, chegam como bacharelatos.

Há que dar mérito a quem, apesar dos engodos e falinhas mansas, enchem salas de iludidos e os bolsos de celebridade.

Tudo o resto é rodapé de outras prosas sem holofotes.

quarta-feira, 15 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 309 - Emanuel Lomelino

Imagem pinterest

As palavras soam a pombas brancas quando flutuam no encanto do olhar lacrimejante. Um arco-íris espalha a magia colorida do sentimento fervente. Soltam-se odes melodiosas, qual sinfonia celestial. O tempo desacelera. O entorno deixa de existir. Os raios de sol ocultam-se. O mundo para.

As preces vagueiam entre o pedido de absolvição e a necessidade de bênção, como se o clamor das frases feitas tivesse o poder de apagar memórias, escaras e elos quebrados. Nas sombras, há um desfilar de dedos e teias de aranha. A presença obscura de arrelias, vacuidade e déjà vu são parcelas de uma equação com resultado previsível. Há o afloramento de histórias caducas que ressuscitam futilidades e destapam embalagens vazias. Depois temos as fábulas de um só sentido – sem sentido – com moral desenquadrada da realidade.

O céu fica cinzento e verte, gota a gota, cada nota de um fado enviesado e sem remorso, como fosse conduzido na plenitude de uma embriaguez vadia. Calam-se as guitarras. Mutam-se as vozes. Silencia-se a vontade.

terça-feira, 14 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 308 - Emanuel Lomelino

Somos seres de humores e, por isso, cada momento é irrepetível, porque específico. Por mais que se recriem ambientes e condições, dificilmente conseguimos repetir sensações.

À partida, esta constatação parece inabalável pelas verdades que encerra. No entanto, prestando atenção, verificamos que no seu conteúdo esconde-se um paradoxo.

Se, por um lado, é muito difícil que as nossas acções resultem sempre da mesma forma, levando-nos a vivenciar o mesmo grau de euforia, por outro, como se explica que a insistência numa determinada atitude resulte sempre na mesma insatisfação?

Tendo refletido neste paradoxo, cheguei a uma única conclusão: a tese da irrepetibilidade só é aplicável às boas sensações. Nas nefastas, a repetição resultará sempre em algo negativo. O mesmo é dizer que as boas sensações são uma paleta muita vasta e variável, enquanto um mau momento será sempre um mau momento.

segunda-feira, 13 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 307 - Emanuel Lomelino

Apesar dos queixumes – porque os gritos, mesmo em silêncio, têm o condão de aliviar a carga negativa que transportamos nos ombros – descubro-me imune aos contratempos da vida.

A apatia, a inércia, o modo impassível, que me outorgam, como etiquetas tatuadas, revelam o quão falsos são os diagnósticos quando sou analisado com critérios que nunca forma meus e pelos quais nunca me regi.

A vida ensinou-me a não criar expectativas sobre ela própria e a seguir sempre em frente, independentemente das circunstâncias e das consequências, com a cabeça erguida e sem olhar para o que foi, o que teria sido, o que podia ser, ou, para aquilo que será.

A lição maior é simples de entender. A vida jamais será uma conjugação verbal e deve ser vivida, apenas e só, pelo que é.

domingo, 12 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 306 - Emanuel Lomelino

É triste viver num mundo que nos pinta com a tinta de deturpação, dando à essência de cada um tonalidades disformes fora de contexto.

Quem for organizado é taxado de obsessivo, quem não for é desleixado. Aqueles que meditam e refletem antes de agirem são perversos ou desconfiados, já quem age por impulso é irresponsável. Os que dão uso à disciplina vivem presos na rotina, os que prescindem dela são rebeldes. Os assíduos e pontuais são chamados de rígidos ou severos, quem falta ou chega atrasado é libertino negligente. Os introvertidos são vistos como antissociais, os extrovertidos são chamados de loucos.

Mas o mais inquietante é ver que a maioria não consegue viver a sua essência e tem os armários repletos de máscaras para usar de acordo com as circunstâncias.

Depois estranham aqueles que se afastam e viram eremitas!

sábado, 11 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 305 - Emanuel Lomelino

A praia esvazia-se de olhos postos nas pranchas que deslizam na ondulação costeira, enquanto, na barra, as traineiras são preparadas para a faina, assim que terminar o pôr-do-sol.

As mulheres de negro aglomeram-se no pontão para sacudir os lenços brancos, na angústia dos céus carregados, na incerteza eterna dos ventos e na esperança do retorno breve.

O farol ilumina a liquidez da noite, mas o horizonte fica escondido entre a penumbra e a maresia. O ambiente sepulcral só não é total porque as águas martelam a vulnerabilidade das embarcações ao ritmo das preces afãs.

Às ondas do mar pouco importa se os grãos de areia fina já foram, um dia, seixos lisos ou se as gaivotas poisam para palitar os bicos nas conchas abandonadas. Tampouco querem saber se as estrelas-do-mar são incendiárias jurássicas a preparar terreno para outras espécies ou se, nessa noite, as redes serão capazes de expulsar a fome.

sexta-feira, 10 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 304 - Emanuel Lomelino

Passa mais um dia de vento no estendal e os pombos, quais pintores alucinados, pincelam a roupa lavada de fresco com as suas incontinências tão pérfidas quanto certeiras.

Olho o resultado Van Goghiano e penso estar diante de uma metáfora pulsante e tridimensional da existência – talvez a minha, talvez a de muita outra gente.

Recolho aquelas artes abstratas sem saber se devo reciclar o asseio pós-lavagem ou emoldurar tudo para fazer uma exposição, como aquela que vi, na minha adolescência, num jardim de Óbidos, e reclamar para mim a autoria. Não são muito diferentes.

Mas a dúvida é um fragmento temporal que se extingue quando penso no que iria gastar nos caixilhos. Prefiro a exorbitância do detergente – como está caro! – e desafiar a sorte reiniciando o programa de limpeza.

quinta-feira, 9 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 303 - Emanuel Lomelino

Tudo começou com o trovejar dos bombos seguido de um choro colectivo dos violinos, primeiro sussurrado, depois bradado. Só depois o clarinete buzinou uma passagem de nível e as colinas deixaram-se florir numa sinfonia de cores exóticas.

Houve uma vertigem zumbida que polinizou um dente-de-leão e as glicínias olharam o céu em prece pedindo, aos deuses florais, permissão para o regresso dos colibris.

A mariposa sacudiu a transparência das asas para receber a simpatia da brisa e serpentear entre as peónias bailarinas.

As campainhas tocaram triângulos a compasso e o salgueiro-chorão aproximou-se do rio para ver, mais próximo, a família de carpas-dragão que manchava a serenidade cristalina das águas.

O pica-pau trauteou morse no tronco rijo de uma laranjeira e a orquestra edílica deu lugar ao silêncio absoluto porque apareceu uma mochila a empurrar um ser bípede que estava noutra sintonia e decapitava margaridas.

quarta-feira, 8 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 302 - Emanuel Lomelino

Sim, aos poucos têm-se evaporado os nenúfares e pintarroxos da criação para darem espaço aos gumes afiados das pedras enegrecidas pelas vaidosas fogueiras, alimentadas de toros vulgares, que pululam neste novo desenho de intenções.

Mergulha-se a autonomia expressiva dos voos livres nas masmorras do convencional e os arco-íris são engavetados nas sombras dos profetas eleitos pela unanimidade da preguiça, que graça nos bustos esculpidos pela ignorância.

Assim perecem os fios do irrepetível e nasce a pura absolvição dos espelhos, para contentamento dos usurpadores de ideias que usam sapatos largos e luzes ofuscantes.

Este é um tempo raso que flui, na precipitação do seu descaso enraizado, como um rio daninho que oferece lodo às margens e ceifa, dos salgueiros, a seiva que não precisa nem merece.

terça-feira, 7 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 301 - Emanuel Lomelino

Leónidas respirou fundo para aplacar o seu estado de fúria, por ter sido obrigado a faltar ao trabalho, para uma reunião com o diretor de turma do seu filho.

Apesar de ser um aluno exemplar e ter excelentes notas, o professor informou que, há algumas semanas, após as aulas, Lúcio não tomava o caminho de casa e dirigia-se para o acampamento de sem-abrigos, que ficava no outro extremo da cidade. Perante o facto, sentiu-se na obrigação de alertar o progenitor.

Com o intuito de não ser precipitado no julgamento e saciar a curiosidade que aquela revelação havia suscitado, Leónidas decidiu investigar mais a fundo as actividades do filho. Esperou o fim das aulas e seguiu-o. Tal como o professor tinha dito, Lúcio não foi direto para casa e encaminhou-se para o lado oposto.

Chegado ao acampamento, Leónidas viu como algumas crianças maltrapilhas rodearam o seu filho e o acompanharam para o interior de uma tenda, tão miserável quanto eles.

Quando tentou aproximar-se para descobrir o que estava a acontecer, foi interpelado por um sujeito. O vozeirão do homem suou como um alarme e, rapidamente, Leónidas viu-se rodeado por alguns sem-abrigo.

Apesar da fúria, mas em inferioridade, explicou a sua presença naquele local e foi surpreendido por uma clamorosa manifestação de reconhecimento por ser pai de quem era.

Leónidas perdeu o soldo de um dia de trabalho, mas ganhou a consciência de ter um filho que, de forma altruísta, sigilosa e desinteressada, passava uma hora do seu dia a ensinar crianças desfavorecidas que não tinham possibilidades de frequentar a escola.

segunda-feira, 6 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 300 - Emanuel Lomelino

Juro que tento ressuscitar em algumas mortes, mas é difícil devolver a vida a raízes que passaram por impiedosa trituração.

Deixou de haver remédio para colmatar o desconforto provocado pelos engodos permanentes e intencionais. Já não existe antídoto para os embustes perversos. Tampouco há milagre que inverta a falsidade hipocondríaca.

As compressões no peito já não desobstruem os incómodos pérfidos originados pelas frases feitas, lugares-comuns e puxões de tapete.

Nem a manobra de Heimlich consegue desengasgar-me as goelas dos sapos, viscosos e intragáveis, que tentei engolir na crença esperançosa de novos horizontes.

Assim, por razão de sanidade mental e para evitar a putrefação de todos os sentidos, deixei de perder tempo em reanimações e sou mais célere na confirmação dos óbitos em mim.

domingo, 5 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 299 - Emanuel Lomelino

Imagem uol

As dores deixaram de ser passageiras e as sílabas tónicas jamais serão analgésicos para a contemporaneidade.

Por mais pensadas que sejam as frases, a criatividade é um ente falecido por excesso de penas ocas.

Há um movimento de passadeira boémia tão ébrio quanto uma reunião de enólogos descredibilizados e os rótulos estão fora de validade para safras novas.

A mesmice é uma obstinação desta época, sem contrastes, como fosse sinónimo de capricho bafiento.

Há uma tendência autofágica que amputa o simples porque as manchetes da moda requerem odes à vulgaridade.

Valha-nos o santo papel reciclado.

sábado, 4 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 298 - Emanuel Lomelino

Na penumbra dos becos, os tijolos quebrados são testemunhas assíduas das vidas que se cruzam, entre pestilências, azares e necessidades, regadas a vícios e adições.

Abrem-se pernas e goelas ébrias, em rituais de praxe mundana, enquanto roedores e varejeiras, alheios aos marujos caídos e carochos ressacados, procuram as águas-furtadas de um contentor chamariz.

As sombras são armários onde os cobardes aconchegam as vertigens, os corcundas ganham linearidade, as pegas aliciam sob pressão de lâminas e chumbo, e os vasilhames dividem espaço com latex e filtros alcatroados.

No aconchego da escuridão noturna, os corretores de fumo e caldo especulam piercings, ao ritmo dos batuques abafados que saem das caves guardadas por adoradores de halteres.

Há um gato que mia, um caixote remexido, um pneu que derrapa, um copo que se estilhaça, um isqueiro que é acendido, um rosto que se ilumina, uma baforada que se cheira, um tumulto que se gera, um grito que se escuta, um vulto que tomba, uma poça que se forma, passos que fogem e o silêncio cúmplice que nada viu ou ouviu.

sexta-feira, 3 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 297 - Emanuel Lomelino

Inflamam-se-me os genes da revolta quando os meus sentidos são atingidos pela imodéstia dos autodenominados vates da modernidade, que nem sequer sabem a diferença entre estrofe e estância, confundem haiku, tanka, limerick e poetrix, desconhecem o tautograma, fazem glosas sem mote, não sabem distinguir estruturalmente um soneto inglês de um italiano, de um monostrófico nem de um estrambótico e, valha-me Nossa Senhora da Língua Portuguesa, chamam acrónimos aos acrósticos.

Não se pede que todos saibam escrever odes, éclogas, elegias ou vilancetes. Tampouco se exige lirismo ou erudição específica, no entanto, saber identificar redondilhas, diferenciar trovas, canções ou baladas, não seria despiciente.

O que mais dói é conhecer alguns que até sabem muito do ofício, mas deambulam no universo da escrita com complacência pela ignorância colectiva, limitando-se ao silêncio por medo de perderem aplausos se mostrarem conhecimento acima da média.

Embora a voz deste burro não chegue ao céu, continuarei a afirmar que a maioria não sabe a diferença entre verso livre e prosa poética e que poesia e poema são duas coisas distintas.

quinta-feira, 2 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 296 - Emanuel Lomelino

Quando a Tília oferece os seus botões ao mundo, o ar fica impregnado pelo cheiro de renovação, que nem as águas choradas tardiamente conseguem disfarçar.

O vento assobia uma valsa, apenas bailada pelas alvas gaivotas desnorteadas e alguns pardais zombeteiros, que ainda não esqueceram a fábula de João Capelo e insuflam as plumas negras.

Há um grilo cantor a imitar cigarras roucas enquanto as formigas regressam, impávidas e indiferentes à cantoria, à sua vidinha de sempre sob o olhar guloso dos piscos e lagartixas que tomam banhos de sol.

O jardim verdejante é patrulhado por dois gatos vadios que desejam encontrar um pombo distraído ou um roedor imprudente, sem deixarem de ter um olho na refeição e outro em alerta canídeo.

Tudo isto acontece, entre calçadas, nas margens do movimentado asfalto, onde a vertigem é prioridade e os insectos atropelam para-brisas e olhos nus.

quarta-feira, 1 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 295 - Emanuel Lomelino

Ercília, sentada no seu banco de jardim favorito, interrompeu a leitura, do livro acabado de comprar na feirinha de antiguidades, para observar o jardineiro que parecia estar a conversar com as flores-de-alfazema.

Tal como ela, todos os que ali se encontravam cessaram os seus afazeres para presenciar a cena, que nada teria de inusitado se não fosse de conhecimento público, pelo menos de quem frequentava com regularidade aquele espaço de lazer e descontração, que o jardineiro era surdo-mudo.

Para Ercília, o mais inquietante daquela situação era o facto de, apesar do mutismo claro e evidente, ser invadida pela sensação de estar a presenciar um diálogo definitivo, tamanha a solenidade transmitida pelo olhar irrequieto do jardineiro e pelos movimentos lentos, mas incisivos, que ele fazia com as mãos, como quem revela uma confidência e espera compreensão.

Por breves instantes, os olhos lacrimosos do jardineiro cruzaram os seus e Ercília sentiu um ligeiro desconforto, como tivesse sido apanhada a escutar atrás de uma porta.

Nunca ninguém se deu ao trabalho de associar uma coisa à outra, mas a verdade é que aquele era o último dia de trabalho do jardineiro, antes de aposentar-se.