sábado, 30 de novembro de 2024

Lomelinices 52 - Emanuel Lomelino

Lomelinices 


52


Não preciso molhar-me na fúria desta chuva madrugadora para conseguir dissertar sobre a impermeabilidade que me escasseia.

Cada gota que desliza da nebulosidade do céu negro para abater-se sobre mim, com a ferocidade tropical de todas as tempestades, apenas cumpre o seu destino - e o meu.

Gotícula a gotícula, de mãos dadas com a liquidez desconfortável, transformo-me num leito de rio cujas correntezas percorrem de nascente à foz, sem resistência de dique ou barragem.

Inundo-me desde as margens até ao âmago em cascatas incessantes de rebeldia, qual desfiladeiro íngreme com protuberâncias escorregadias.

No centro do dilúvio, sou como um navio sem leme nem rumo, e o vento – irregular como só ele – não me permite mais do que andar, trémulo, à deriva.

Depois, como uma criança inocente, mas travessa, o céu afasta as nuvens e sorri um arco-íris, sem remorso por ter lançado toneladas de água sobre este pobre coitado que apenas saiu à rua para ir trabalhar, num sábado, e agora vai gastar os ganhos de um dia em paracetamol.

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Papaguear cultura 4 - Emanuel Lomelino

Papaguear cultura 


4


Mais do que direito adquirido, escrever é um dever que poucos assumem. Uns por preguiça, outros por ignorância. A maioria recusa a responsabilidade, a minoria acredita que a escrita deve cingir-se aos pensadores, filósofos, doutrinados e eruditos. Boa parte escreve apenas porque sim, a outra parte, espartilhada entre crenças e rivalidades, contesta tudo o que se escreve, qual oposição sem programa alternativo.

Escrever é a liberdade do pensamento, mas alguns “seres iluminados” advogam que a escrita só o é se for feita de acordo com os novos cânones e, por consequência, com a negação dos anteriores. Exigem que se eliminem todos os conceitos, regras e definições do passado, que acreditam ser agrilhoadores da criatividade, e impõem a permissividade restrita dos seus valores literários. Estes sábios da contemporaneidade, quais profetas da verdade absoluta, pensam a escrita de acordo com as fraquezas das suas próprias limitações. Estes censores da modernice, quais escravos das tendências anti autoridade, querem que a escrita se resuma à incoerência das suas crendices anti regras.

Aos arautos dos paradigmas elitistas, eu digo: Mentis! A arte é democrática! Não tem cor, sexo, idade, cultura, religião, política padrão, nem corrente estética ou estilística.

Aos negacionistas do legado que todos carregamos, eu digo: Mentis! A arte de hoje só existe, como é e se molda, porque o passado é o somatório de todas as correntes que nos conduziram até aqui.

Aos génios do desgoverno, eu digo: Mentis! A arte sempre terá regras, mesmo que não sigamos as normas clássicas ou doutrinas pré-existentes, porque até o vosso anarquismo é, por si só, uma regra que vos exige serem contra todas as outras regras.

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Devaneios sarcásticos 2 - Emanuel Lomelino

Devaneios sarcásticos 


2


No outro dia ouvi alguém dizer que a matemática não é uma ciência, mas sim uma ferramenta ao serviço de várias ciências. Pensei no assunto e consegui ver a lógica desse raciocínio.

O problema é que não fiquei por essa simples reflexão e continuei a pensar nos conceitos dogmáticos que esta disciplina encerra e cheguei a outra conclusão. Ao contrário do que me ensinaram, a matemática é tudo menos exacta.

Vejamos.

Eu sou um (número inteiro), no entanto, na maioria das vezes sou apenas fracções de mim, raramente completo. Assim sendo, como posso ser, em simultâneo, um e decimal de mim?

Atentando mais fundo na questão, tendo sempre presente que sou um, como se explica, matematicamente, aquilo que sou quando me divido (ou multiplico) ao longo de um dia de trabalho? O mesmo poderia perguntar pelas vezes que me somo ou subtraio.

Ao detectar estas incongruências, a confusão adensou-se porque fiquei a saber que sou um zero nesta matéria. Mas como? Se zero não é número inteiro e, à partida, sou um? Será que um pode ser todas essas coisas, inclusive algarismo aditivo ou fracção? Pode o um ser um número nulo?

Se houver por aí um matemático de serviço, agradeço desde já que não me esclareça estas dúvidas porque a febre já passou.

quarta-feira, 27 de novembro de 2024

Lomelinices 51 - Emanuel Lomelino

Lomelinices 


51


Há um aqueduto de frases por escrever entre as areias do Hudson e as praias vicentinas.

Os verbos correm ferventes desde as encostas do Corno dos Romanos até à mais recôndita ilhota do Pacífico.

Os adjectivos viajam desde as grutas que nunca foram de Salomão até às cidades perdidas na tropical Amazónia.

Cada substantivo percorre as planícies subsarianas rumo aos planaltos Tártaros.

Existem estepes de versos inovadores, entre as tundras escandinavas e os pomares nipónicos, com ânsia de nascerem virados para as águas santas do Ganges, mas idolatrando as correntes de Yangtzé. 

Há complementos empalados nas calotas polares, em ambos os hemisférios, só a aguardar o degelo para irem em busca de Everestes sujeitos e predicados.

Existem virgulas a bolinar ventos alísios (algumas de pontos às costas), com o mesmo ímpeto que as reticências cavalgam as dunas do Saara, em busca de dois pontos, parágrafos e travessões.

As ondas do Índico são tiles disfarçados, por não quererem ser vistos na companhia dos apreensivos circunflexos. Assim como os graves só querem ver os agudos pelas costas.

As interrogações não são mais do que exclamações vergadas ao peso de múltiplas dúvidas sugeridas pelas irrequietas marés lunares.

E assim se juntam dois mundos numa chuva descritiva cheia de figuras de estilo e com o epílogo esperado (ponto final).

terça-feira, 26 de novembro de 2024

Devaneios sarcásticos 1 - Emanuel Lomelino

Devaneios sarcásticos 


1


A augusta Casa dos Altivos Artífices do Sétimo Saber Consagrado convoca todos os órgãos de informação competentes para a Gala Anual dos Credenciados Anónimos Voluntários que irá realizar-se em espaço, dia e hora e designar, na esperança de conseguir, em tempo útil, recolher a verba necessária para liquidar os valores propostos, em caderno de encargos, para aquisição de dois contentores de fogo de artifício, duzentos metros de passadeira vermelha, quinhentos cadeirões manuelinos, três mil velas de sebo envelhecido em casta milenar e um vaso de flores sazonais, com dimensão ainda por determinar.

Com o referido certame, pretende-se celebrar as alcoviteiras do Jardim Constantino, os cangalheiros da praia de Carcavelos, as divas de São Sebastião, os ciciosos de Mata-Cães e as jovens promessas do núcleo de perfumistas azeiteiros da Abóbada Celeste.

A todos os participantes serão entregues certificados de presença e mérito, além de coroas de louro, personalizadas, e um porta-chaves alusivo à efeméride.

Se sobrar dinheiro, contamos requisitar os serviços dos gaiteiros de Milfontes que, caso aceitem, brindarão todos os presentes com uma sinfonia de acordes à moda de Viena ou, em alternativa, um fandango albicastrense.

A todos os convidados será solicitado traje de gala, que pode ser adquirido nas nossas instalações até dois dias antes do evento. O uso de chapéu é facultativo e os sapatos não podem ser rasos.

Este será o primeiro de muitos encontros previstos. A seu tempo honraremos os percursos dos gagos assobiadores de andaime, as costureiras de corta casaca à tesourada e os arquivistas de manuscritos da Biblioteca que vai ser construída nos antigos terrenos da Feira Popular.

Informamos que o acesso pode ser feito através de qualquer meio de transporte, com excepção dos aéreos porque é muito difícil encontrar um espaço com heliporto.

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Crónicas de escárnio e Manu-dizer 19 - Emanuel Lomelino

05-09-2023


Há quem acredite no altruísmo das palavras, mas só um incauto pode perspectivar bondade numa conjugação verbal que impõe em vez de sugerir ou, quanto muito, ordena no lugar de colocar à consideração.

Até as pedras, sejam de calcário ou basalto, conseguem transmitir mais leveza do que os discursos militarizados, mesmo ao som de polcas e corridinhos, feitos à medida dos substitutos dos tubos catódicos.

Deixou de existir temperança e vergonha nas faces artificialmente bronzeadas porque o Zé do Manguito continua a preferir sopas e descanso em vez que tirar os suspensórios e mostrar o Judas arranhado.

Havendo música, couratos assados e uma reles esferográfica timbrada, aparecem logo magotes de desocupados intelectuais predispostos a agitarem bandeiras e bandeirolas ao vento carvoeiro, enquanto os copos não secam a cevada quente.

O despertar vem depois, quando os mesmos fidalgos movidos a rancho folclórico, descobrem que, afinal, a caridade é um caça-níqueis faminto e sem escrúpulos, e resolvem lançar outras bandeiras ao vento, soltar verbos pedintes e arrastar as carcaças pálidas no meio da urbe de cintos apertados, como fossem todos sócios-fundadores da liga dos revoltados surpreendidos, mas sem cotas pagas e com o tempo caducado.

domingo, 24 de novembro de 2024

Pensamentos literários 5 - Emanuel Lomelino

Pensamentos literários 


5


Não existe melhor forma de exercer a individualidade plena, sem cair no descrédito de confundir o seu significado, do que a arte de pensar, e desta premissa nasceram todas as preciosas definições de liberdade, mas também alguns enganos – porque nem todos os filhos do pensamento são sensatos.

Há aqueles que renegam, mais de três vezes, a equidade e preferem as pirâmides (mesmo invertidas) em detrimento de linhas rectas (mesmo paralelas).

Esses podem ser identificados pelo som elevado das suas vozes argumentativas, pois, acreditam na imposição e nos dogmas, e desconhecem o que significa pluralidade e livre-arbítrio.

Depois temos os que desconhecem que os pensamentos podem ser como o ferro forjado e que, quando nas mãos de um bom artesão, podem transformar-se em autênticas preciosidades, mas, quando molhados pela ignorância ou preguiça, também enferrujam. E um pensamento enferrujado, por mais forte que pareça, facilmente é quebrado.

sábado, 23 de novembro de 2024

Crónicas de escárnio e Manu-dizer 18 - Emanuel Lomelino

03-09-2023


Não se pode ter horror da morte sem a experimentar. Não se deve ter pânico da morte por desconhecimento. Sabendo da sua existência, e tendo a consciência tranquila, não é lógico temê-la.

Não se podem recear as mordidas dos necrófagos nem o triturar dos ossos pelas suas potentes dentadas. Não se deve ter pavor do desmembramento que fazem, na hora de devorar os corpos inertes e sem vida.

Não sei nada sobre a morte, para além do seu carácter definitivo. Por isso não lhe tenho medo.

Sei que Lavoisier tinha razão quando disse: …Na natureza nada se perde, tudo se transforma, por isso tampouco temo os necrófagos.

Aquilo que me faz transpirar a espinha, arrepiar os ossos e descrer da justiça divina, são os abutres. Esses têm o dom de cheirar, à distância, o sangue dos golpes recentes e, sem esperarem a morte, estão sempre prontos para aproveitarem as fragilidades e alimentarem-se das feridas ainda por cicatrizar.

sexta-feira, 22 de novembro de 2024

Papaguear cultura 3 - Emanuel Lomelino

Papaguear cultura 


3


Por vezes, nos momentos de ócio, dou por mim a questionar a importância das palavras que gravo, com força desmesurada, nas pobres folhas brancas que coloco diante dos olhos.

Nesses instantes de lassidão e desinteresse, revejo tudo o que escrevi e deixo que a dúvida se instale no mais recôndito espaço da mente, como quem recheia um qualquer doce conventual.

As perguntas sucedem-se, frenéticas, sem encadeamento lógico ou propósito definido. Simplesmente materializam-se como quem nos visita de forma aleatória e sem motivo.

Mesmo podendo esclarecer a origem de cada texto, não consigo explicar a impetuosidade, quase violenta, com que firmo cada letra no corpo de papel, como irradiasse uma fúria incontrolável e desmedida.

Não tenho sido capaz, talvez por falta de habilidade, de encontrar uma justificação coerente para essa atitude desproporcional, nem sei se algum dia conseguirei.

Quanto à questão inicial, se houvesse um mínimo de valor naquilo que escrevo, jamais teria discorrido sobre a forma exaltada como o faço.

Resta-me continuar a fazer como até aqui e seguir o conselho do poeta W. D. Roscommon: escreve com fúria, mas corrige com fleuma.

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Lomelinices 50 - Emanuel Lomelino

Lomelinices 


50


Na ânsia de cumprir-se, o tempo urge e o destino esclarece-se, como inevitável é a sequência dos dias.

Mas os propósitos não são acasos porque a intuição existe e, mesmo na obscuridade da sua essência, a vida é decisão particular.

Há um oposto que se contrapõe a tudo e nada está imune às garras afiadas da dúvida. E o todo é sempre parte ínfima de algo maior, indecifrável e apoteótico.

Cada sonho ou quimera tem um estágio de maturação e todas as raivas e desilusões são encruzilhadas atentas aos passos hesitantes e empenhos descrentes.

Para cada glória correspondem mil enganos e outros tantos martírios. Para cada triunfo coincidem incontáveis cinismos e traições, porque a vida é uma sucessão de anéis de fogo intercalados por pequenos rios de esperança e conforto.

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Lomelinices 49 - Emanuel Lomelino

Lomelinices 


49


A verdade dói quando escutada. Causa-nos dano pelo impacto do momento, talvez despreparo nosso, mas é uma dor fugaz e momentânea, que dificilmente deixa marcas permanentes porque, com o tempo e pelo seu carácter irreversível, ela consegue ser o elemento-chave para alcançarmos a paz de espírito necessária para prosseguirmos.

Já a mentira mata pela sua perversidade intemporal, contínua e nefasta. Atinge-nos na plenitude da sua fogosidade, qual sol abrasador, e queima todo o sentimento como palha ressequida. Desse incêndio destruidor sobra apenas negritude e terra árida sem possibilidade de renovação. E tudo passa porque a vida assim o permite.

Mas há algo mais obsceno e devasso. A dúvida. Essa é cruel, vil, maléfica e sádica. Mantém-nos num limbo de incertezas e esperanças, porque fere, arranha, machuca, tritura, rasga, perfura, esfola, aflige, ao mesmo tempo que se nega e pinta de cores suaves, hipnóticas e anestésicas, qual atriz no auge das suas capacidades interpretativas.

Esta trilogia de inegáveis “influencers” da vida nunca foi tão bem definida como fez Bob Marley, quando disse: A verdade dói, a mentira mata, mas a dúvida tortura.

terça-feira, 19 de novembro de 2024

Lomelinices 48 - Emanuel Lomelino

Lomelinices 


48


Na leveza desta furtiva chuva de verão eclode uma paz misteriosa que abraça o âmago, como quem soletra silêncio.

Os pensamentos emergem decididos a transpor o portal da humildade, rumo ao sagrado altar da sabedoria.

Espargem-se na vastidão do conforto idílico e regam o crescimento uno, qual fenómeno da mãe natureza em parto divino.

Há um aflorar consciente e decisivo da razão, no ser que se omitia da sua origem pensante.

Nada se esconde. Tudo se revela. Mesmo as ideias mais tímidas, envergonhadas e de foro introvertido.

A arte fez-se e paira no ar como vapor de esperança, à espera de que os olhos se abram e as mentes despertem.

Mas, aos poucos, o mundo regressa à sua rotina louca e despropositada, ignorando a beleza apaixonada do criador, como nunca tivesse existido a vontade de mudança.

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Contos que nada contam 33 (O professor Licínio) - Emanuel Lomelino

O professor Licínio

 

- … Claro que conheci o professor Licínio! O sujeito mais louco e estimado da aldeia. Foi com ele que aprendi a ler, como muitas gerações desde o tempo em que os meus pais eram crianças.

Transformou a sua garagem num gigantesco salão de leitura, com as paredes forradas a livros, que as editoras lhe enviavam continuamente, e a porta sempre aberta para quem quisesse entrar.

Ele passava o dia a ensinar as letras, a formar palavras, a construir frases, aos mais novos, enquanto incentivava os maiores a pensar no que liam e a escreverem as suas próprias histórias.

Não era estranho vermos, além de crianças pequenas e adolescentes, o salão pejado de adultos, que aproveitavam para ler os livros que ali havia e tentavam cometer a proeza de fazer o professor Licínio sair para a rua, coisa que ele nunca fez em vida, nem mesmo para comprar bens essenciais, que encomendava, no início por telefone, depois por internet, porque havia outra porta, ao fundo da sala, que comunicava com a sua casa e ele tinha jurado que só sairia dali no dia em que não lesse um livro.

Só o conseguiram retirar daquela casa aquando do seu funeral.

domingo, 17 de novembro de 2024

Lomelinices 47 - Emanuel Lomelino

Lomelinices 


47


Esta inquietação vulcânica, que explode de mim, como instinto primitivo, conduz-me na busca eterna pelas palavras que podem fazer-me ajoelhar, como quem se prostra diante de imagem consagrável.

Este desassossego eruptivo, que sangra em mim, como as correntes mais agitadas de magma e lava, guia-me na infinita demanda dos verbos que podem obrigar-me a curvar, como quem faz vénias ao ministério divino.

Esta perturbação efusiva, que irrompe de mim, como intuição ancestral, escolta-me na procura desenfreada pelos vocábulos que podem forçar-me a vergar, como quem se derruba em devoção ao ofício celestial.

Este tumulto tempestuoso, que estoura em mim, como o mais tenebroso ribombar dos céus, acompanha-me numa insana caçada aos motes que podem impor-me a dobrar, como quem se inclina aos méritos angelicais de uma prece.

Esta profusão catastrófica, que eclode de mim, como ímpeto espontâneo, leva-me na bizarra urgência de encontrar as nobres sentenças que podem justificar os motivos, pelos quais, não consigo criar sem parecer que estou em permanente oração aos deuses da erudição.

sábado, 16 de novembro de 2024

Pensamentos literários 4 - Emanuel Lomelino

Imagem retirada da internet

Pensamentos literários 


4


Eu gostaria de ser clássico como Séneca e poder aconselhar: apressa-te a viver bem e pensa que cada dia é, por si só, uma vida.

Gostaria de ser erudito como Oscar Wilde e poder falar: a vida é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas só existe.

Eu gostaria de ser lúcido como Bob Marley e poder declarar: não viva para que a sua presença seja notada, mas para que a sua falta seja sentida.

Eu gostaria de ser profético como James Dean e poder sentenciar: sonhe como se fosse viver para sempre, viva como se fosse morrer amanhã.

Eu gostaria de ser pretensioso como Picasso e pintar numa tela: eu gostaria de viver como um pobre, mas com muito dinheiro.

Eu gostaria de ser engraçado como Chaplin e poder mimicar: a vida é maravilhosa se não se tem medo dela.

Eu gostaria de ser complexo como Nietzsche e poder dizer: torna-te aquilo que és.

Como não posso ser nenhum deles nem falar, com mais propriedade, o que já disseram, limito-me a seguir a dica do Friedrich e, sendo eu mesmo, vou parafrasear Pessoa, dizendo: tenho em mim todos os sonhos do mundo. Apenas decidi deixar de correr atrás deles.

sexta-feira, 15 de novembro de 2024

Pensamentos literários 3 - Emanuel Lomelino

Tela: Ainda vida com guitarra (dimapf)

Pensamentos literários 


3


Nos dias em que quase desfaleço sou acometido por uma amálgama de sintomas febris e hipotérmicos que se intercalam num frenesim impossível de descrever, mas que parecem conduzidos por laivos de demência.

Nesses instantes de nebulosas mortes, sem que encontre explicação plausível ou fragmentos de lógica, dou por mim a divagar pelas correntes artísticas, hoje em desuso (para não dizer extintas e proscritas), e faz-se luz sobre o meu mundo de criação.

Nesses quentes momentos de caos pacífico e agitada ordem, as epifanias sobrevoam-me a mente e os sentidos ficam hipnotizados pelos conceitos mais primários. Mesmo no desconforto das tonturas e com os olhos turvos (quase apagados), é quando melhor enxergo o que de mim pode advir, porque o que já fiz não me interessa, só penso no que ainda não fiz.

São vinte minutos, meia hora, isentos de percepção temporal, mas com o condão de clarificar-me ideias e conceitos, indicar-me outras tendências e possibilidades, abrir-me o espírito para enveredar por diferentes vias e novos caminhos.

Então dou por mim a estudar os antigos ismos das artes e a compará-los (sabendo que não há comparação) com o mesmismo que se instalou neste meu tempo.

Aprendo as diferenças entre o cubismo das telas e o surrealismo ou expressionismo dos poemas, de Picasso, e fico a adivinhar quantos serão os eruditos anti ismos de hoje que conhecem essa vertente do criador de Guernica.

Depois começo a escrever estes fracos textos sintéticos, com um sorriso irónico colado nos lábios, por saber que quase ninguém decifrará o conteúdo do último parágrafo.

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Crónicas de escárnio e Manu-dizer 17 - Emanuel Lomelino

23-08-2023


O mundo moderno é um menu de desvios, encruzilhadas, atalhos e outros percursos que iludem pela vertigem do imediato associada à preguiça, porque o importante passou a ser a fim da caminhada em detrimento da satisfação pelos passos dados.

Todos se acham no direito de colocar coroas na cabeça e já nem existe a necessidade de serem feitas de louro, até porque tomilho e orégano são mais cheirosos. Da mesma forma, ilusoriamente, o brilho dos sorrisos passou a ser de plástico e a gratidão não é voluntária - exige troco ou contrapartida.

Já não importa a essência, mas sim os perfumes genéricos. Os arco-íris são agora imposição e as cintilações são mais louvadas do que a uniformidade das sombras nas noites de verão. Já ninguém quer saber do céu azul, pontilhado pelo branco das nuvens, porque flutuar na fantasia dos dias é menos doloroso do que ter os pés assentes na realidade no chão.

Há algum tempo li uma frase que dizia, por outras palavras, que o problema da humanidade nunca esteve na dentada que Eva deu na maçã, mas sim no facto de, pouco antes, ao comer um cogumelo, plantado na base da macieira, ter começado a ouvir a serpente falar.

Se pensarmos bem, e olharmos o mundo, tal qual ele está hoje (psicadélico) e a forma (caleidoscópica) como as pessoas o veem, não fica difícil acreditar nessa versão.

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Lomelinices 46 - Emanuel Lomelino

 

Lomelinices 


46


Há este querer sólido e verdadeiro, que me acompanha desde sempre, de encontrar a perfeição do vazio; o silêncio original.

Quanto mais me embrenho na solidão que cultivo, menor parece a distância que me separa de algo semelhante ao Nirvana. Aquele lugar puro, sem defeito, que não é celestial nem divino. Apenas um lugar de paz imorredoura que substitui uma vida inteira.

A cada passo dado dou conta de todo o peso inútil e desnecessário que tenho carregado nas costas. Desfaço-me de mais e mais, sem traumas de separação. Simplesmente largo lastro e caminho mais leve.

O percurso ainda é longo, mas completo na sua única via, num só sentido, perfeito porque é feito de coisa alguma, apenas nada. E estou a conseguir libertar-me de toda a bagagem, de toda a tralha que me tem freado o ímpeto.

Sei que ainda transporto baús encrustados no corpo, com amarras maciças e fechaduras encriptadas, cuja remoção terá um custo de luas e sal, mas blindei a minha resiliência com o aço da vontade suprema e tenho os olhos focados no amanhã, porque é para lá que caminho.

terça-feira, 12 de novembro de 2024

Epístolas sem retorno 21 - Emanuel Lomelino

Vincent Van Gogh
Imagem pinterest

Caríssimo Vincent,


Por mais que admire o rigor e qualidade das tuas telas, por mais que aprecie os teus traços originais; por mais que me encante a singularidade das tuas pinceladas; por mais que respeite a profusão da tua extensa obra; não consigo deixar de te culpar, mestre Vincent, pela realidade impressionante dos meus dias.

Neste tempo de abundância e consumismo; de feitos banais e condutas impostoras; de sedentarismo intelectual; de improvisos estudados; de originalidades repetidas, a tua obra penetrou o lado mais recôndito das mentes desprovidas de conhecimento.

Nesta era de inversão de valores; desamor pelo passado; conflito com a história; contestação dos legados, a tua arte sobreviveu nos becos das memórias ocas e influencia os estranhos hábitos espontâneos de gerações tecnológicas.

A ti, Vincent, acuso de teres incentivado, ainda que sem conhecimento do facto, através do elevado número de autorretratos que produziste, este bizarro vício das selfies.

E só não te acuso dos instantâneos de repasto porque só conheço “Os comedores de batata”, e nesse os pratos mal se veem.


Satírico,

Emanuel Lomelino

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Papaguear cultura 2 - Emanuel Lomelino

Papaguear cultura 


2


A arte, nas suas diversas vertentes e dimensões, é uma actividade intimista que roça, quando não ultrapassa, o egoísmo. Mas este individualismo egocêntrico, que se exige ao criador, não é negativo, antes pelo contrário, é humanista porque permite que as dores da angústia criativa fiquem restritas ao universo da criação.

Aos apreciadores de artes deve ser apresentado o lado mais belo e sereno do objecto artístico, isto é, a arte finalizada.

Pouco importa o número de marteladas falhadas e quantas lascas de pedra rasgaram a pele do escultor, quando estamos diante de um busto. Ninguém quer saber quantas camadas de óleo foram colocadas sobre uma pincelada disforme ou quanto vapor de diluente paira no atelier do pintor, quando estamos a olhar uma tela. Não existe interesse algum no tempo que o escritor perdeu para dar vida à frase mais eloquente ou quantos rascunhos foram atirados ao lixo, quando lemos um livro. Não há relevância na quantidade de vezes que o actor titubeou ou se engasgou nos ensaios, quando estamos e ver um filme ou uma peça de teatro. Não é preciso saber quantas vezes as dançarinas tropeçaram ou erraram os passos nos treinos, quando estamos a assistir a um bailado.

domingo, 10 de novembro de 2024

Pensamentos literários 2 - Emanuel Lomelino

Pensamentos literários 


2


O provérbio popular diz que a esperança é a última a morrer. Já Balzac afirmou que o homem morre pela primeira vez quando perde o entusiasmo.

Juntando, a ambas as frases, todas as minhas distintas mortes, fica provado que o homem perece toda a vida até que a derradeira morte reclame o seu prémio e encerre o assunto de vez.

Contudo, no meio de toda esta filosofia necrológica, levantam-se algumas questões pertinentes:

Entre cada morte existe renascimento ou ressurreição?

Todas as mortes permitem renovação ou apenas ressuscitamento? 

Há alguma morte mais nefasta que as demais?

Até que ponto o acúmulo de mortes não é, em si mesmo, mais uma morte?

Sejam quais forem as respostas a estas perguntas, existem duas garantias absolutas e incontestáveis sobre todas as mortes. As intercalares apenas nos amputam. A definitiva, tal como também disse Balzac: … é mais verdadeira – ela nunca renuncia a nenhum homem.

sábado, 9 de novembro de 2024

Pensamentos literários 1 - Emanuel Lomelino

Pensamentos literários 


1


Não sei quantas vezes confessei o quão paradoxo sou. Mas isso também não é importante porque convivo bem com este adjectivo e não perspectivo desfazer-me dele.

Acho que até alimento essa faceta por ser a forma mais fácil de me equivaler, ou aproximar, da duplicidade dos outros, que, para esse efeito, usam máscaras.

Estive quase para usar o termo bipolaridade, mas, analisando bem as alternativas, duplicidade é, efectivamente, a forma mais correcta de caracterizar a urgência que as pessoas têm de querer passar, delas próprias, imagens diferentes daquilo que são. E um bipolar não tem duas caras nem usa máscaras, tem um transtorno.

Neste contexto, de aproximação àquilo que os outros são, revela-se, uma vez mais, a minha vertente paradoxal.

Se por um lado contesto a duplicidade, por vê-la como embuste, por outro lado canto loas aos usuários de máscaras por, com a sua falsidade identitária, darem provimento a uma máxima lançada por Kundera: Nunca somos nós mesmos quando há plateia.

Abençoados pensamentos literários. Abençoada literatura, que é eterna e sempre actual.

sexta-feira, 8 de novembro de 2024

Papaguear cultura 1 - Emanuel Lomelino

Papaguear cultura 


1


Toda a arte é dual. Pode ser objectiva ou arbitrária; inspiradora ou castradora; provocadora ou rasa; alegre ou melancólica; séria ou lúdica; satírica ou insonsa; deliciosa ou intragável; imortal ou efémera; contagiosa ou lacónica; bela ou monstruosa; etc, etc, etc…

Em outras ocasiões é polissémica. Pode ser início, meio e fim; tudo, nada e alguma coisa; abstrata, genérica e indefinida; excêntrica, estranha e rebelde; catarse, prazer e vício; etc, etc, etc…

A arte pode ser tanto e de tantas formas, dependendo de quem a vê e do modo como a entende.

Já foram tantos aqueles que dissertaram sobre a arte que é impossível dizer quem se aproximou mais da verdade. No entanto, para mim, a observação mais pertinente foi feita por Johann Goethe quando disse este quase paradoxo: Não existe meio mais seguro para fugir do mundo do que a arte, e não há forma mais segura de se unir a ele do que a arte.