sábado, 7 de dezembro de 2024

Lomelinices 54 - Emanuel Lomelino

Lomelinices 


54


A vida reinventa-se a cada alvorada. Os dias correm lentos ou céleres, dependendo dos humores, ócios e tédios que devoram as horas. Todos os instantes, por mais díspares que se apresentem, rumam no mesmo sentido, como fossem de via única.

Os pensamentos sucedem-se em turbilhões, ou a conta gotas, sempre sujeitos às dispersões, ou falta delas, para que o marasmo se ausente. Cada momento é único, por mais repetitivo que possa parecer.

A labuta diária é executada a diversos níveis e com múltiplos desafios que levantam ou derrubam o ânimo. Há expedientes e artimanhas que ajudam a ultrapassar tempos mortos que perturbam as ânsias e originam inquietações.

Só o crepúsculo carrega sossego nos ombros e a paz de um sono justo e contínuo, porque até os Espartanos merecem repousar das batalhas diárias, mesmo sabendo que as forças restituídas nos poços de todas as noites esfumam-se nos sufocos que a luminosidade transporta.

Por tudo isto, logo pela manhã, há um obtuso, febril, mas sincero, desejo de fechar os olhos e transformar cada minuto em descanso noturno, porque os sonhos são mais gentis do que a realidade.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Epistolas sem retorno 22 - Emanuel Lomelino

Fiódor Dostoiévski
Imagem pinterest

Permita-me, prezado Fiódor Mikhailovich, que simplesmente não o trate por Micha. Sei que reconheceria a gentileza do trato, mas, creia-me justo, fazê-lo seria usar da mesma intimidade impostora que o meu tempo sustenta, renegando os valores fundamentais dos ideais que se professam, como se a incoerência fosse virtude e a franqueza um pecado capital.

A consciência, nestes meus dias, estimado Fiódor Mikhailovich, há muito deixou de ser definida nos exactos termos etimológicos, que tanto explorou na vasta riqueza da sua obra. Atrevo-me mesmo a sentenciar, sempre com o seu consentimento, que ela – consciência – evaporou-se ao longo do tempo, como gotas de água num deserto escaldante, tal a profusão de actos prepotentes, praticados em nome das revoluções mais ociosas, e sem sentido, que nem o seu elevado intelecto ousaria considerar.

Por isso, amigo Fiódor Mikhailovich, aviso-o desde já que prefiro ficar, hora e meia do meu dia de sã loucura, retido na solidão de uma cozinha, a confecionar legumes de caril, do que perder tempo a ler as idiotas bajulações da modernidade, entre indivíduos que, apesar de pertencerem à nossa espécie, vendem-se como se castanhas piladas fossem raras pepitas de máximo quilate, desconhecendo que esse grau de pureza é incompatível com joalharia.

Este novo paradigma, meu caro Fiódor Mikhailovich, é tão complexo e paradoxal que, aos seus olhos, ouvidos e inteligência, as minhas palavras soarão aos discursos de um dos seus mais famosos personagens. Quem, senão um perfeito idiota, pode conceber que se outorguem falsos epítetos em nome de um conceito igualitário, mas alicerçado no individualismo egoísta, sem consciência da vulgaridade?

Hoje, Fiódor Mikhailovich, a verdade não vem nos dicionários. Talvez, nem nos livros de culinária.


Com estima,

Emanuel Lomelino

 

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Contos que nada contam 34 (Entre migalhas) - Emanuel Lomelino

Entre migalhas


A passo lento, Rómulo pisa a calçada, ainda húmida do orvalho matinal, como quem tem uma pedra no sapato e as meias encharcadas.

No rosto, carcomido pela insónia, leva estampada uma história de tormentas cosidas a desencontros e linhas tortas. No canto do olho, como em todos os dias amargos, carrega o reflexo de lágrimas por libertar, que nem a cacimba é capaz de disfarçar.

O manto puído dá-lhe o poder da invisibilidade perante a turba que se acumula junto ao semáforo, sem tempo para olhar o mundo tal qual ele se apresenta.

Ao ronco das entranhas, Rómulo responde colocando a sua mão boa – a que tem menos escaras vivas – no que resta do bolso direito. Saca a côdea do desafogo das últimas semanas e, com a prática de um golpe de indicadores, solta duas migalhas que leva à boca salivante.

Olha em redor, como quem anseia ver algum conhecido, e regressa, inexpressivo, ao interior da caixa de frigorífico, onde se abriga nas noites selvagens de Inverno, para mais uma tentativa de hibernação – o sono pode não ser pacífico, no entanto, tem o condão de apaziguar o estômago por mais algumas horas, até à próxima dose de migalhas.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Lomelinices 53 - Emanuel Lomelino

Lomelinices 


53


Olho o passado de relance, mas não deixo de moldar o barro do presente com a experiência adquirida, sabendo, de antemão, que as construções futuras serão, também elas, edificadas de modo distinto.

Por mais que nos instruamos na arte da concepção, o tempo, na sua maestria incontestável, arranja sempre forma de condicionar cada momento, provando, assim, que a vida, embora pareça uma sucessão de círculos, é uma espiral contínua e as linhas que separam os tempos (passado, presente e futuro) são mais ténues do que uma célula hexagonal.

É por isso que o acto de escrever é o próprio passado a acontecer.

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

Papaguear cultura 5 - Emanuel Lomelino

Papaguear cultura 


5


Mesmo sendo uma era de pedra e osso, a história fazia-se, entre peregrinações instintivas e paragens para sustento. Também havia espaço para registos toscos do dia-a-dia, em tons quentes, porque únicos, mas ninguém grunhia opinião.

Salto no tempo…

Da necessidade fez-se luz e o progresso gerou conforto e ideias novas. A paleta de cores, agora alargada aos tons frios e neutros, já originava comentários, mas, acima de tudo, justificava erudição elitista, porque religiosa e abastada.

Salto no tempo…

A evolução contínua quebrou algumas barreiras invisíveis, substituindo-as por outras - nem melhores nem piores, apenas outras. O arco-íris, com as suas tonalidades e outras que são meios-termos, universalizou-se e ramificou-se, dando origem a múltiplas referências. Nasceu a crítica, o contraponto e os opostos assumidos, mas nada entendido como mais sério que o momento.

Salto no tempo…

Hoje, como em tempos idos, a história constrói-se e desvaloriza-se a arte. No entanto, são poucos aqueles que entendem que só sabemos sobre o passado porque os ociosos gravadores primitivos, os escrivães medievais e os revolucionários aristocratas oitocentistas – para falar apenas nestes – deixaram as referências artísticas fundamentais para a compreensão dos seus quotidianos.

Quer se queira, quer não, o mundo só conhece a sua história porque nos legaram arte rupestre, literatura científica, ensaios, crónicas, poesia e ficções.

Por muito que resistam, a verdade é só uma: não fosse a arte de cada tempo jamais saberíamos nomear os estágios do passado que nos conduziu até este nosso tempo.