quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Lomelinices 58 - Emanuel Lomelino

Lomelinices 


58


Estou grato aos céus por ser filho de uma divindade menor – assim nomeada porque Zeus estava afogado em hidromel cítrico, logo, com as capacidades cognitivas alcoolicamente desvirtuadas – e por isso ter nascido sem a presunção de ser mais do que aquilo que realmente sou.

Não me autonomeio coisa alguma e sempre resistirei aos cognomes que muitos ostentam como medalhas imerecidas – para não dizer heréticas.

Percorro os caminhos que me traço sem pretensão de pisar tapetes urdidos para desfile de vaidades sensaboronas e sem motivo de existência. Recuso dar passos nas calçadas da visibilidade ganha pelo metal, nem quero trajar-me com fardas de cetim fabricado nos cárceres da aceitação.

Sou filho de um deus menor e tudo o que faço, digo, penso e escrevo é fruto dessa minha reduzida dimensão e iluminado pelas ténues luzes de um estro diminuto, quase invisível, por incompatibilidade entre a natureza que me formou e a fama que não me merece.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Lomelinices 57 - Emanuel Lomelino

Imagem retirada da internet

Lomelinices 


57


Volta e meia deparo-me com momentos de feroz lassidão – como agora – em que sou inundado por uma chuva de memórias entrelaçadas, de tempos cruzados sem cronologia, de sangramentos, de glória, de lágrimas, de risos, de luto, de paz, de erupção, de anseios…

São períodos breves, mas intensos, que desgastam o ânimo até à fronteira da vulnerabilidade. Um cansaço indescritível apodera-se do espírito e do corpóreo, com a mesma violência irrespirável. 

São instantes esparsos, contudo, paridos pelo eterno dilema entre o uso da resiliência e a vontade de prescindir. A mente transforma-se num fórum e os argumentos jorram, com fúria combativa, criando um caos híbrido que deambula entre o desejo e a razão.

Nessas alturas – como agora – procuro refúgio na sabedoria clássica e entrego-me aos pensamentos de Schopenhauer, Púchkin, Nietzsche, Sá-Carneiro, Pessoa… para descobrir, na pele e com assombro, que a vida é como uma viagem de comboio e cada encontro é um apeadeiro.

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

Pensamentos literários 7 - Emanuel Lomelino

Imagem pinterest

Pensamentos literários 


7


Não sei dizer se o obscurantismo das letras actuais é passageiro, como um fenómeno ondulante que se desintegrará nas areias do tempo, ou se, pelo contrário, é uma prática lúcida com desejo de tornar-se uma rotina permanente.

Para onde se olha, e até onde a vista alcança, pouco se vislumbra para além de penumbra. As palavras vestem-se de breu como se alguém, de forma consciente e deliberada, quisesse ofuscar o brilho das narrativas, fazendo imperar as definições mais negras de um qualquer dicionário apocalíptico.

Queiram os deuses que seja apenas uma tendência esporádica de protagonismo, sem ambições ditatoriais nem cobiça déspota.

Seja como for, este culto incessante de idolatria ao expressionismo sombrio faz-me indagar: Existem assim tantos adoradores de Nix?

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Lomelinices 56 - Emanuel Lomelino

Lomelinices 


56


Converti as mãos em peneiras e deixei tombar, pelos caminhos trilhados, todos os grãos de ânimo que, misturados com o cimento da vontade, serviriam para fortificar os meus passos calculados e de rumo certo.

Os objectivos lúcidos amoleceram com o impacto das tempestades sem senso e, aos poucos, de forma camuflada e impiedosa, evaporaram-se sem deixar rasto.

A caminhada não terminou, mas os propósitos abraçaram a caducidade não deixando terra suficientemente fértil para que outras raízes germinem nem para que a determinação ganhe fôlego renovado.

A velha máxima “nada se perde, tudo se transforma” nunca foi tão pungente e, apesar da miopia destes meus olhos falhos, dei por mim a enxergar tudo com uma clareza tão pura quanto reveladora. Há quem lhe chame epifania. Eu prefiro dizer que despertei.

domingo, 8 de dezembro de 2024

Lomelinices 55 - Emanuel Lomelino

Lomelinices 


55


Dizem os sábios mais velhos que a verdadeira honestidade é exclusiva do mar. Segundo a experiência destes anciãos sem idade, não há elemento da natureza mais fiel a si mesmo, em todos os seus estados, formas e geometrias, independentemente de meridianos ou paralelos; latitudes ou longitudes; pontos cardeais ou hemisférios.

A sua essência mantém-se inalterada quer se evapore, solidifique ou liquefaça. Manifesta-se sem artimanhas nem engodos, tampouco escangalha de véspera nem reclama o que não lhe pertence porque é força dominante que responde apenas por si, nos seus domínios.

Mas, apesar de todas estas características íntegras, é no cheiro que a honestidade é mais flagrante. Ao contrário de outros elementos (fogo, terra e ar) que exibem odores emprestados, o mar exala somente o seu perfume de encanto (maresia) com que nos enfeitiça, sem truques ou ultrajes.