Prosas de tédio e fastio
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Como posso, em sã consciência, escrever sobre os males que teimam em sobrevoar a minha existência quando, olhando os telhados vizinhos, vejo sombras mais densas do que as minhas?
Como posso, com nobreza, cerzir as luzes que me ofuscam nas pautas deste caderno quando, ao alcance de um vislumbre furtivo, observo o negrume que ilumina outros castelos de areia?
Como posso, com honradez, adjetivar a lassidão que gravita na órbita dos meus dias quando, em rituais masoquistas, os verbos gritam marés-baixas pela fraqueza das luas alheias a mim?
Como posso, com integridade, desenhar as palavras mais adequadas aos meus silêncios quando, nas páginas alheias que pairam no meu olhar, leio abundantes e castradoras mordaças?
Como posso, na plenitude do rigor, contar a verdadeira origem destas escaras quando, no ar empestado de álcool e mercurocromo, sentimos o peso das cicatrizes nos sorrisos fingidos?
Como posso, no mais íntimo de mim, ignorar a falácia das minhas dores profundas quando, em universos perpendiculares ao meu, há ângulos e prismas que os espelhos negam refletir?
Como posso? Como podemos!

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