quinta-feira, 30 de abril de 2026

No fundo do baú 170 - Emanuel Lomelino

Agostinho da Silva sempre demonstrou aversão ao epíteto “mestre”, preferindo identificar-se como eterno aprendiz, e queria ser poema em vez de poeta.

Estas duas ideias, tão simples e entendíveis, servem, como contraponto perfeito, para entender a falta de altruísmo que grassa na sociedade actual.

Hoje, em diferentes círculos de autores (que podem sê-lo ou não), é comum – para não dizer norma – a autodenominação de epítetos, sem que a embalagem corresponda ao produto.

Hoje, ao contrário do que acontecia no tempo do “poema” Agostinho, nascem “poetas” a rodos, a cada conversa, a cada sarau, a cada tertúlia, numa clara expressão de individualismo e idolatria exacerbados.

Mais curioso é que os actuais “mestres” – porque assim se consideram – são avessos ao ensino, apesar da alegada extrema sabedoria e conhecimento que possuem.

Perdemos o “poema altruísta”, proliferam os “poetas egocêntricos”.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

No fundo do baú 169 - Emanuel Lomelino

Ao longo dos anos tenho-me confrontado com muitos comportamentos que, analisados em detalhe, só prejudicam o universo da escrita. O exemplo mais flagrante é a criação de grupos elitistas – sendo que este elitismo literário varia entre grupos, mas impactua decisivamente nos percursos dos respectivos integrantes, para o bem e para o mal.

Para mim, a raiz deste problema é, mais do que uma questão de interpretação ou conceito de qualidade literária, uma demonstração clara de egocentrismo.

Ao contrário de épocas anteriores, em que os autores exerciam o seu ofício com conceitos filosóficos e criativos pré-definidos, de acordo com a corrente artística em que se reviam, hoje ninguém sequer reconhece esses movimentos e, apesar de criarem a mesma coisa, da mesma forma e com o mesmo objectivo, dividem-se em grupos distintos, mas com bases idênticas.

Por outro lado, e talvez o sintoma mais óbvio do egocentrismo apontado, hoje ninguém quer discutir conceitos e filosofias por necessidade em etiquetar as suas criações como expoente máximo da arte e, por essa razão, faz-se rodear por outros que, manifestando o mesmo desinteresse pelos movimentos artísticos, tampouco sabem identificar as diferenças (incoerências) existentes no seio do próprio grupo.

Haverá algo mais prejudicial para as artes do que a incapacidade dos criadores em explicarem as suas criações, para além de chavões pueris como: “expressão da alma”, “inspirado na vida”, “fruto de inquietações”?

terça-feira, 28 de abril de 2026

No fundo do baú 168 - Emanuel Lomelino

Por vezes fico a ponderar nesta minha apetência, cada vez maior, para procurar momentos de isolamento. Dizer-me apreciador da reflexão acaba por ser redutor porque também é possível pensar estando rodeado de gente.

Ficar entregue aos pensamentos é uma forma de autoconhecimento. Fazê-lo cercado por outros pode ser comunhão, quando há partilha de ideias.

O problema está na questão do grupo. É difícil partilhar os pensamentos mais elaborados quando do outro lado só existe interesse no banal, no frívolo, no insonso, e há grande resistência à evolução das conversas.

Neste contexto sou obrigado a confessar as saudades que tenho de algumas pessoas. Daquelas que, além de saberem transmitir conhecimento em assuntos diversos, tinham a capacidade de fazer evoluir os diálogos transformando as conversas em meros convívios apaixonantes.

Muitas dessas pessoas já não estão neste plano e, tal como eu, os que ainda por aqui andam também passaram a preferir a reflexão isolada.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

No fundo do baú 167 - Emanuel Lomelino

Imagem istockphoto

Dizem que estamos a viver na era da comunicação. Não posso, em rigor de consciência, concordar em absoluto porque só vejo verdade nessa afirmação se a colocar no contexto tecnológico. Em tudo o resto não tem aplicação e revela-se falsa.

Que era da comunicação é esta em que as pessoas vivem isoladas nos seus micromundos. No trabalho, nos cafés e restaurantes, nos bancos de jardim, nos prédios, até nas próprias casas, é cada um para seu lado com os olhos pregados nas redes sociais e sem contacto algum com a realidade da vida.

Tal como identifica José Flórido, num texto sobre Agostinho da Silva, esta falta de comunicação é a origem dos graves problemas psicológicos dos nossos tempos e urge concentrar esforços – de forma colectiva – para fazer ressurgir hábitos de vida conversável – colocar as pessoas a falarem com pessoas, cara a cara, olhos nos olhos.

Mas para combater a incomunicabilidade temos de nos desfazer dos “saberes parciais” e das referências comuns” sob pena de reduzirmos o conhecimento ao banal (futebol, condições climatéricas e vida privada das figuras públicas). A vida conversável é bem mais ampla e saudável, para além de ajudar no entendimento dos outros e de nós próprios.

sábado, 25 de abril de 2026

No fundo do baú 166 - Emanuel Lomelino

Na escola, aprendemos que a grande diferença entre os humanos e os outros animais é a faculdade de raciocinar. Na vida confirmamos que nos distinguimos por, ao contrário dos restantes animais, sermos mestres da complexidade. Não nos deixámos ficar pelo simples. Ousámos mais.

A verdade é que toda a fauna do mundo continua a funcionar tal qual faziam, os da sua espécie, na antiguidade mais distante, exceptuando nós.

As aves, os peixes, os herbívoros, etc... continuam a migrar de acordo com as estações. Outros reproduzem-se em condições específicas e até protelam os nascimentos para ocasiões mais favoráveis. Há muito que os humanos agem contranatura.

Mas entre todos os exemplos que podemos usar para fazer distinção, entre uns e outros, há um que sobressai: os animais matam por questão de sobrevivência, os humanos fazem-no por ambição.

No fundo do baú 165 - Emanuel Lomelino

Olho o mundo com os olhos de quem tem fome de transformar sonhos impossíveis em realidades presentes e palpáveis. Deixo que o olhar se espraia nos horizontes da vontade e voe livremente sobre as ilusões, ignorando dogmas e utopias, na demanda dos sonhos que dão sentido à vida. Quero para mim todo o conforto da realização pessoal mesmo que os espinhos se cravem na minha carne, dilacerem o meu corpo e as cicatrizes demorem uma eternidade a sarar. Desejo para mim mais do que os meus braços alcançam, mais do que o destino me outorga, apenas e só porque mereço o inatingível. Mais não seja pela perseverança ou teimosia que desde sempre está enraizada em mim. E quando a morte chegar e beijar este meu rosto arrefecido, pode depositar tudo o que alcancei na vida, com sangue, suor e oceanos de lágrimas, na sua sala de troféus na condição de indicar a sua proveniência. A ti, ceifadora, sugiro que uses este chavão: "Aqui jazem as conquistas de um eterno sonhador".

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Epístolas sem retorno 55 - Emanuel Lomelino

Lev Nikoláievitch Tolstói
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Amigo Nikoláievitch,


“As conversas são como as cerejas” é a expressão que melhor pode explicar as razões que me levam a iniciar esta missiva. A verdade é que nunca foi minha intensão embrenhar-me tanto numa temática como se não houvesse outros assuntos merecedores de reflexão, mas as coisas são como são, e por culpa dos diálogos com Nietzsche e Camus, não podia deixar de lhe dirigir algumas considerações.

Tal como Ivan Ilitch, a generalidade das pessoas vive como fosse imortal e, quando confrontada com a inevitabilidade da finitude, entra numa espécie de choque. Nesse momento de epifania, reavaliam-se decisões, confessa-se o desperdício de tempo com desejos e objetivos irrelevantes, assumem-se condutas e atitudes prenhes de futilidade, realizam-se remorsos. Perante este paradigma, creio que universal, abre-se uma nova perspectiva sobre a forma como a humanidade assume a mortalidade. Não é receio ou pudor. É sentimento de culpa.

Sabendo, de antemão, que a morte é uma certeza, só encontro uma explicação para que muitas pessoas sintam desconforto em falar dela, transformando-a em tabu. Falar da morte é falar do efémero, do descartável, do substituível. Será coincidência que a humanidade tenha criado os cemitérios para aglomerar os mortos da mesma forma que criou as lixeiras para o entulho e as sucateiras para os metais inservíveis?


Meditativo

Emanuel Lomelino

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Epístolas sem retorno 54 - Emanuel Lomelino


Albert Camus
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Prezado Albert,


Ontem, em conversa com Nietzsche, sobre o medo da morte, abdiquei de usar a palavra “absurdo” para qualificar esse sentimento, não por achar despropositado, mas sim porque, no mais íntimo de mim, talvez no subconsciente, eu soubesse que retomaria o tema consigo.

Nesta temática da morte, há sempre pensamentos novos que se entrelaçam, como macramé, e nos levam a observar múltiplos prismas, ver diferentes ângulos, analisar distintas percepções.

Neste contexto, dei por mim a pensar que, devido ao absurdo medo da morte, poucos se apercebem que existe um preconceito, quase tabu, em falar abertamente da morte, como se ela fosse algo totalmente fora de entendimento. Esta ideia acaba, também ela, por ser um absurdo, porque o medo da morte não existe. O que há é medo daquilo que leva à morte.

Em nome desse medo, a generalidade das pessoas evita abordar o tema, como se, ao ignorar a morte, conseguissem afastá-la. Neste ponto tenho de concordar com Séneca quando disse que as pessoas vivem como se fossem imortais e só pensam na morte quando ela está perto demais para ser ignorada.

Em nome de um medo sem fundamento, adiam-se decisões, gasta-se tempo com futilidades, praticam-se actos inúteis, vive-se o banal.

Haverá, porventura, algo mais absurdo e ridículo do que viver nos limites do medo, por culpa de uma irracionalidade? Haverá, porventura, algo mais absurdo e ridículo do que viver sem realmente se viver.


Reflexivo

Emanuel Lomelino

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Epístolas sem retorno 53 - Emanuel Lomelino

Friedrich Nietzsche
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Prezado Friedrich


Juro que, apesar de dissertar múltiplas vezes sobre esta temática, não tenho obsessão pela morte. Simplesmente, acho fascinante discorrer os pensamentos pelas questões que a ela estão, de alguma forma, associadas. Principalmente o medo. Aliás, creio que, exceptuando alguns filósofos com discursos de índole religiosa, a esmagadora maioria dos pensadores vê o medo da morte como um dos paradoxos mais naturais, mas também ridículos, da humanidade.

Para Epicuro: “A morte é apenas a ausência de sensação, logo, não deve ser temida”.

Para os estoicos: “A morte é passado e futuro, e o medo dela impede de viver plenamente o presente”.

Para os existencialistas: “A consciência da finitude é o que dá sentido à vida”.

Na minha visão, vale o que vale e até posso vir a mudar de opinião, não existe medo da morte. Aquilo que há, dentro de quem diz sentir medo da morte, é, na verdade, medo de sofrer na hora da morte. Ninguém, em perfeito juízo, pode sentir medo de algo que desconhece e sobre o qual nada mais se sabe para além da certeza de ser o fim da vida, tal qual a concebemos e entendemos. Contudo, todos sabem que a maioria das mortes comporta um final doloroso, angustiante, lento e até violento. E é disso que a humanidade tem medo; da dor, do sofrimento, da angústia, da incerteza, enfim, da espera.

Não existe medo do desconhecido, há apenas medo do que se conhece. E para combater esta realidade, Friedrich, na tentativa de desmistificar o medo da morte, estou inclinado a prescrever a sua fórmula: “O que não me mata, fortalece-me”.


Pensativo

Emanuel Lomelino

terça-feira, 21 de abril de 2026

Prosas de tédio e fastio 135 - Emanuel Lomelino

Prosas de tédio e fastio 

135


Olho o cinzentismo deste céu indisposto, solidarizo-me com o seu mau-humor por ver os meus planos irem água abaixo e penso, de mim para comigo: «raios partam»!

Acho que me escutou os pensamentos e oiço-o resmungar um trovão, cujo ribombar ainda ecoa no interior de cada osso do meu corpo.

Acto contínuo, fico a observar o dia pardacento com saudades da caminhada que não posso fazer por culpa deste chove que não chove.

Então, para levantar a moral e ganhar um brilhozinho nos olhos, vem-me à ideia uma “sergiogodinhada” e decido escrever. Para mal dos meus pecados, nada valoroso me ocorre.

Mas como homem prevenido vale por dois, faço das tripas coração e, numa inversão de marcha, opto por executar um plano “b”, porque quem não tem cão caça com gato e mais vale um pássaro na mão…

Assim sendo, procuro na linha do tempo algumas palavras que me sirvam de agasalho ao estro e encontro, entre revelações de alma e outras algaraviadas, um texto que faz cócegas neste meu espírito desanimado.

Depois de, silenciosamente (como é meu apanágio), rir a bandeiras despregadas, escolho dar corda ou rédea solta às metáforas e mergulhar de cabeça numa empreitada de expressões idiomáticas. De louco todos temos um pouco e quem vê caras não vê corações (a inversa também é válida).

Posto isto, agora que me deitei na cama que fiz e já sinto água pela barba pelas frondosas correntes de baboseira derramada, sinto que devo agradecer a inspiração divina a uma simples consulta de rotina, mais acrobática do que a ida ao ginásio, cujo diagnóstico se resume a chá e torradas.

Ah, é favor não esquecer o “Omeprazol” porque não se deve consumir comprimidos de estômago vazio.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Prosas de tédio e fastio 134 - Emanuel Lomelino

Prosas de tédio e fastio 

134


Como posso, em sã consciência, escrever sobre os males que teimam em sobrevoar a minha existência quando, olhando os telhados vizinhos, vejo sombras mais densas do que as minhas?

Como posso, com nobreza, cerzir as luzes que me ofuscam nas pautas deste caderno quando, ao alcance de um vislumbre furtivo, observo o negrume que ilumina outros castelos de areia?

Como posso, com honradez, adjetivar a lassidão que gravita na órbita dos meus dias quando, em rituais masoquistas, os verbos gritam marés-baixas pela fraqueza das luas alheias a mim?

Como posso, com integridade, desenhar as palavras mais adequadas aos meus silêncios quando, nas páginas alheias que pairam no meu olhar, leio abundantes e castradoras mordaças?

Como posso, na plenitude do rigor, contar a verdadeira origem destas escaras quando, no ar empestado de álcool e mercurocromo, sentimos o peso das cicatrizes nos sorrisos fingidos?

Como posso, no mais íntimo de mim, ignorar a falácia das minhas dores profundas quando, em universos perpendiculares ao meu, há ângulos e prismas que os espelhos negam refletir?

Como posso? Como podemos!

domingo, 19 de abril de 2026

No fundo do baú 164 - Emanuel Lomelino

Ler um bom livro é meio caminho andado para a descoberta e aprendizagem, mas reler algumas obras transcende esse horizonte e, não raras vezes, leva-nos a um entendimento mais amplo e a novas revelações.

Isso acontece por uma razão muito simples, nem sempre presente no nosso consciente… a cada livro lido transformamo-nos em leitores diferentes, porque a informação absorvida é um complemento intelectual que nos ajuda a melhorar a capacidade de raciocínio e percepção.

Se, a este facto, juntarmos a nossa maturação, enquanto indivíduos, fica óbvio que uma releitura será sempre diferente do primeiro contacto com o livro. Da mesma forma que uma terceira leitura produzirá entendimentos distintos. E assim por diante.

Neste contexto, a última releitura que fiz, de um texto estoico, proporcionou-me uma epifania, que me surpreendeu por só agora, nesta fase adiantada da vida, ter percebido – antes tarde que nunca – sobre o quão estreita é a linha que separa a filosofia da psicologia.

Que me perdoem, Freud e Lobo Antunes!

sábado, 18 de abril de 2026

No fundo do baú 163 - Emanuel Lomelino

Imagem retirada da internet

É impressionante como a humanidade tende a complicar a sua essência ao mesmo tempo que admite os benefícios do simples.

A toda a hora ouvem-se vozes a reclamar, por tudo e por nada, numa algazarra, por vezes colectiva, contudo parca de sentido ou em sentido contrário ao pensamento lógico.

A todo o momento, há um espírito de contestação que desce sobre alguém e logo todos se transformam em seres iluminados, sem sequer saberem o que contestam.

Cada vez mais abunda o seguidismo bacoco, que nada acrescenta para além de estupidificação.

Há uma cultura de preguiça, que não é compatível com os brados queixosos, mas que emerge como o valor moral mais alto e assertivo.

Há uma inversão na marcha da humanidade e parece que ninguém faz caso. O importante é saber o supérfluo e ter os olhos colados nas telas luminosas dos aparelhos portáteis e que se lixem os outros (inclusive aqueles que estão sentados à mesma mesa).

A humanidade reclama mais humanismo, no entanto, os passos a dar nesse sentido têm de ser dados pelos outros porque cada um está com falta de tempo e com coisas mais importantes em mente.

Qual a lógica disso? Quão cega está a humanidade para não ver o óbvio?

sexta-feira, 17 de abril de 2026

No fundo do baú 162 - Emanuel Lomelino

Durante anos defendi uma norma de vida que consistia em ouvir o dobro daquilo que falava, usando como argumento o facto de termos dois ouvidos e somente uma boca. O conceito é básico, quase pueril, no entanto, é dotado de uma lógica, quase, irrepreensível.

Por ter uma mente inquisitiva, comecei a pensar numa forma de ultrapassar o problema que o advérbio de modo “quase” colocava. Ele sugere falibilidade e também é lógico, porquanto, numa conversa entre duas pessoas, é impossível que ambas escutem o dobro do que falam.

Como resolver este paradoxo?

A solução parece ainda mais infantil ou rebuscada, mas a própria natureza deu-nos as pistas através da anatomia. As orelhas são laterais e simétricas, e isto significa que o importante não é ouvir em dobro, mas sim escutar de modo harmonioso.

Nesta perspectiva cheguei à conclusão de que o conceito inicial era falho e aquele que passei a usar traduz-se numa palavra aplicável à forma como se ouve (equilíbrio) e outra ao que se fala (temperança). E estes dois substantivos são indissociáveis.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

No fundo do baú 161 - Emanuel Lomelino

Existem tantos predicados nascidos da leitura que, por mais qualificantes que possamos encontrar, nada adjectiva melhor a leitura do que a palavra “edificar”.

Com maior ou menor grau; com mais ou menos intensidade, cada livro engrandece o leitor a diferentes níveis.

Sim, ler edifica o individuo. E o melhor exemplo dessa realidade incontornável revela-se-nos quando damos conta de estarmos a reflectir sobre o que acabámos de ler.

Essas reflexões, cujo propósito, ou utilidade, nunca devem ser menosprezadas, sintetizam-se numa frase, que Carl Jung usou num outro contexto, mas que se aplica na perfeição:

Quem procura, fora de si, sonha, quem procura, dentro de si, desperta.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

No fundo do baú 160 - Emanuel Lomelino

Não importam as estações. Todos os dias, de uma semente-ideia, que rasga a membrana plasmática, germinam palavras, quais rebentos de engenho, com esperança de se transformarem em frutos literários.

Os estágios de crescimento correspondem ao ciclo natural da vida, desde o nascimento até ao amadurecimento.

É um processo normal, contudo, de imensurável aleatoriedade temática. Mesmo assim, não dispensa polinização e terra fértil.

Depois da ceifa, segados os caules mais robustos, peneira-se o trigo do joio e separa-se cada grão para o respectivo recipiente.

Uns vão para a mó, outros para a sequeiro, e os restantes ficam armazenados para que, naqueles momentos de colheita fraca, seja possível manter o estro gordo.

terça-feira, 14 de abril de 2026

No fundo do baú 159 - Emanuel Lomelino

Imagem pinterest

Muito por conta do gene mais decisivo do estro e por não conceber criação sem literacia, imponho-me absorver o máximo de conhecimento sobre matérias essenciais, mesmo daquelas em que não me revejo, mas que podem aportar elementos teóricos úteis ao meu ofício, até por oposição.

Esta busca por entendimento mais vasto em géneros, estilos e propostas literárias distintas, que deveria ser transversal a todo o universo da escrita, proporciona-me muitos momentos de reflexão interessante.

Neste contexto, e apesar de perceber os conceitos base do concretismo, tenho uma dúvida que só pode ser esclarecida por quem navega neste movimento literário.

Como se conseguem ler textos concretistas a um cego, de forma que os elementos espaciais não sejam omitidos, ou prejudicados por descrições intermediárias?

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Epístolas sem retorno 52 - Emanuel Lomelino

Franz Kafka
Imagem pinterest

Caro Franz


Não sei se foi propositado ou casual, mas a história absurda de Samsa, alertando para a existência de uma linha muito ténue entre o amor incondicional e a devoção interesseira, tem paralelo com aquelas fábulas em que ninguém quer saber do sapo ou do patinho feio e depois, após a transformação física, todos adulam. A única diferença reside no facto de Samsa, enquanto provia todo o mundo, abdicando de si mesmo, ter vivido na ilusão de ser amado e nunca ter percebido, até à metamorfose, que o seu altruísmo era recompensado com bajulação e não com amor verdadeiro.

Felizmente, nunca precisei de uma mudança tão radical para compreender que a maioria dos afetos recebidos raramente derivam do gosto pelo que somos, dizemos ou fazemos, mas sim pelo benefício que os outros conseguem retirar de nós.

Deixemo-nos de fábulas. Uma coisa é a precepção que temos do mundo, com todos os arco-íris e unicórnios, outra bem distinta é a verdade desse mesmo mundo.

É por tudo isto que sinto maior facilidade em acreditar na aspereza de um “não” do que na docilidade de um “sim”.


Fiel ao meu eu

Emanuel Lomelino

domingo, 12 de abril de 2026

No fundo do baú 158 - Emanuel Lomelino

Desde a origem (nascimento), o humano tenta encontrar o seu propósito na vida, porque é absurdo a vida não ter um propósito. No entanto, pensando que todas as vidas fluem para a morte, é um absurdo que o propósito da vida conduza à morte. Mais absurdo é pensar em procurar um propósito para a vida sabendo que, encontrando ou não um propósito, tudo tem o mesmo fim: a morte.

Seguindo essa linha de pensamento, chegamos à conclusão de que o propósito da vida é a própria morte.

Contudo, na discussão deste tema, muitos alegam que o propósito da vida não é a morte, mas sim prolongar a própria vida, através da descendência. De certa forma arranja-se um sentido, mas nesse caso surgem outras questões: Sendo esse o propósito da vida, como se explica a existência de seres incapazes de procriar? Qual o propósito de vida daqueles que não podem criar descendência? A existência de procriadores e não-procriadores não significa, por si só, que o propósito da vida não é prolongar a vida?

Se, independentemente das respostas, deduzirmos que esta segunda linha de raciocínio pode estar correcta, embora seja um absurdo pensar que o propósito de vida só se aplica a alguns, então podemos concluir que o propósito de vida deambula entre o absurdo e o trágico. E, dos dois, não sei qual é pior.

sábado, 11 de abril de 2026

No fundo do baú 157 - Emanuel Lomelino

O conceito de liberdade tem sido discutido, até à exaustão, pelos pensadores mais relevantes, mas estamos bem longe de atingir o consenso.

Há quem defenda que a liberdade existe a partir do momento em que estamos na presença do uso de livre-arbítrio. Outros defendem que a liberdade é uma ilusão porque as nossas decisões são sempre condicionadas por noções de “bem” e “mal”.

O problema é que ambas as ideias também introduzem na discussão o factor ética, que consegue ser um conceito ainda mais divergente.

Partindo do pressuposto que a liberdade de cada um termina no exacto ponto onde começa a liberdade do outro, façamos um exercício.

Imaginemos que estamos num autocarro e entra alguém a escutar música em alto som. Todos os passageiros têm o direito de não serem incomodados, no entanto, aquele que houve música tem o direito de fazê-lo.

Perante este cenário, e baseando-nos nas duas ideias expressas anteriormente, as perguntas imediatas são:

1 – Onde está o limite do livre-arbítrio de cada um?

2 – Que valor ético é aplicável neste caso e quem o determina?

3 – Que solução podemos encontrar para que, no exemplo dado, sejam respeitadas as liberdades de todos?

Confesso que não sei a resposta a nenhuma das questões.

Aquilo que sei é que, enquanto não se chegar a um consenso generalizado, continuaremos a ver a liberdade ser confundida com libertinagem.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

No fundo do baú 156 - Emanuel Lomelino

As guerras têm, por génese, motivações que, ao contrário do, publicamente, apregoado, são sempre de interesse particular e nunca colectivo. Foi assim no passado, é assim no presente, e será assim no futuro. Perante conflitos armados, as sociedades manifestam-se ruidosamente, durante algum tempo para, pouco a pouco, deixarem esmorecer a indignação até ficarem conformadas e, por fim, indiferentes, desde que seja longe das suas fronteiras.

Mas tudo poderia ser diferente se, em vez de solidariedade em garrafas de água e mantas quentes, aproveitássemos para, satisfazendo o apetite moderno pelos “reality shows” e com as ferramentas que a internet dispõe, criar uma superliga de combates, corpo a corpo, entre os líderes mundiais em beligerância. Vendiam-se os direitos de transmissão para as plataformas de “streaming”, faziam-se contratos de patrocínio com as maiores marcas desportivas e automóveis, e com as casas de apostas, criava-se todo um novo negócio em torno dos eventos e, cereja no topo do bolo, conseguia-se que os níveis de abstenção, nas eleições, diminuíssem drasticamente. Bem vistas as coisas, quem não iria, de bom grado, escolher o representante do seu país para essa competição? 

quinta-feira, 9 de abril de 2026

No fundo do baú 155 - Emanuel Lomelino

Passam os dias (sempre iguais) e cada um é uma vertigem de tempo que me afasta do mundo que nunca foi meu.

Eu, o único ser mutável nesta história, enfermo de saber-me deslocado, ora abraço ou rechaço a esquizofrenia lúcida que guia todos os meus passos, todos os meus pensamentos, todas as minhas angústias, que são nada quando comparadas com o mal maior.

O sol nasce todas as manhãs sem remorso nem infelicidade por ser o mesmo que já foi e igual ao que será. Já eu, que sei o meu amanhã, mesmo sem data precisa, jamais saberei o que fui – ou poderia ter sido – no tempo que me correspondia.

Esta dúvida, que deriva de uma certeza cada vez mais sentida como absoluta, é a bagagem que carregarei até ao final dos dias (sempre iguais), composta por baús de frustração, conformismo e desconsolo.

Pior do que estar encerrado num espírito esquizofrénico é ter consciência dessa fatalidade.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

No fundo do baú 154 - Emanuel Lomelino

Eu, que me reconheço como um sujeito atento e bom observador, há algum tempo vinha reparando que as grandes chancelas editoriais deixaram de usar o título “Antologia”, nos livros dedicados a um só autor, substituindo-o por “Poesia reunida”, “Prosa reunida” ou “Contos reunidos”, dependendo do género literário, ou usando apenas “Poemas”, “Prosas”, “Contos”. Confesso que detectei esta alteração, mas nunca aprofundei as razões.

Pois bem, eis senão quando, por mero acaso, descubro que esta mudança de denominação antológica aconteceu por dois motivos essenciais que, a bem da verdade, derivam de um só: a contínua utilização dos termos “antologia” e “colectânea” como sinónimos e sequente retificação ao incluir esta nova prerrogativa nos dicionários.

A parte curiosa desta situação é que, apesar de passarem a ser sinónimas, estas palavras continuam a ter definições que se contrapõem. Vejamos:

Antologia: é o conjunto formado por diversas obras que exploram uma mesma temática, período ou “autoria”.

Colectânea: recolha de excertos de “diversos autores”, geralmente subordinada a determinado tema, género ou época.

Confrontado com esta revelação, congratulo os grupos editoriais pela forma como conseguiram contornar esta situação absurda.

Dito isto, fico à espera para ver quando é que os dicionários vão assumir como sinónimos “tertúlia” e “sarau”.

Aí a casa cai.

terça-feira, 7 de abril de 2026

No fundo do baú 153 - Emanuel Lomelino

A generalidade das pessoas confunde conhecimento com inteligência, mas este equívoco pode ser desfeito achando a relação entre ambos.

O conhecimento é acúmulo de saber. A inteligência é o entendimento prático do que se sabe e, após a primeira aplicabilidade desse saber, deixa de ser inteligência, passando a fazer parte do acúmulo de conhecimento.

Para melhor entendimento façamos este exercício: Temos uma criança pequena e um interruptor. Com o tempo ela vai saber que aquele objecto tem um nome, uma função, e que ela (criança) pode interagir com ele (objecto). Até aqui ela apenas tem conhecimento. A inteligência só aparece quando ela colocar em prática esse conhecimento e, através do interruptor, iluminar a sala escura.

No entanto, essa demonstração de inteligência não se repete, porque a repetição deriva do acúmulo de saber e já não de um acto de inteligência. Por mais vezes que a criança ligue ou desligue o interruptor, esse acto já não é de inteligência, mas sim de conhecimento porque, por experiência própria, já sabe o que acontece em cada um dos momentos.

Assim, podemos concluir que o conhecimento é uma condição evolutiva (porque há acréscimo de saber), enquanto a inteligência é uma condição momentânea (porque a demonstração de inteligência só tem uma aplicabilidade por cada saber).

Conhecimento e inteligência são dois conceitos que não podem ser confundidos, mas dependem, isso sim, um do outro.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

No fundo do baú 152 - Emanuel Lomelino

Refletir na vida possibilita-nos ordenar as informações, que adquirimos de forma aleatória (uma aqui, outra acolá, uma mais adiante, outra bem mais tarde), e dar-lhes uma concretude que, de outro modo, seria difícil atingir.

Este processo de revelação faz-nos alcançar um outro nível de entendimento, tanto das coisas complexas como das irrelevantes.

Peguemos como exemplo o epiteto “Idiota”. Ao longo da vida, em circunstâncias diversas, conhecemos personagens a quem a adjectivação serve na perfeição, contudo, com significâncias distintas.

Analisando a fundo a questão, chegamos à seguinte epifania: existem cinco tipos de idiotas.

1 – O tolo – aquele que tem um défice cognitivo e as sociedades reconhecem como louco.

2 – O burro – aquele que é ignorante por natureza e tem dificuldade de aprendizagem.

3 – O néscio – aquele que sofre de excesso de pureza, comummente apelidado de ingénuo.

4 – O bobo – aquele que entretém os outros, usando com inteligência as características dos anteriores para efeitos de comédia.

5 – O maquiavélico – aquele que usa as fraquezas alheias, de forma perversa, para proveito próprio e prejuízo dos demais.

domingo, 5 de abril de 2026

No fundo do baú 151 - Emanuel Lomelino

Quem estudou ciências humanas, ou humanidades como se dizia nos anos oitenta, deve lembrar-se, certamente, que a maior dificuldade dos professores era fazer com que os alunos conseguissem interpretar textos e identificar os elementos estilísticos incluídos. Eram aulas e aulas dedicadas a esta matéria e, na globalidade, os resultados não eram dos melhores e ficavam aquém do razoável, porque na cabeça de alguns alunos pairava a eterna questão: mas isto serve para quê?

Ao contrário do que manda a regra, a esta pergunta, feita no presente do indicativo, a resposta mais lata tem de ser dada no pretérito imperfeito: isso serviria para que existisse maior compreensão das mensagens, não acontecessem erros de avaliação, mal-entendidos e, cerrem-se os dentes, não proliferasse uma pobreza franciscana ao nível da criação literária.

Observando, com olhos de ver, o universo da escrita (mas não só), fica claro que essa dificuldade docente nunca foi ultrapassada, tal a profusão de equívocos linguísticos e interpretativos.

Essa incapacidade de entendimento e identificação de figuras de linguagem, sejam semânticas, sintáticas, ou outras, é tão perceptível quanto triste e, sem o risco de incorrer em exageros, até faz corar as resmas de papel rasurado.

Posto isto, garanto que são menos aqueles que repararam no litote que precedeu o eufemismo, lá atrás, no primeiro parágrafo, do que quem atentou na personificação usada no anterior, ou em outros recursos distribuídos entre ambos.

À pergunta: isto serve para quê? A minha resposta concisa é: para eu fazer um exercício de escrita usando o maior número possível de figuras de estilo e ultrapassar, por grande margem, o limite de espaço previsto para este texto.

sábado, 4 de abril de 2026

Contos que nada contam 55 (Discurso do inocente) - Emanuel Lomelino

Discurso do inocente


Abram as portas do fórum e permitam que todas as testemunhas dissertem como lhes aprouver. Escutem as versões de cada uma delas, como quem escuta um hino – em reflexão silenciosa e contemplativa.

Anotem todas as denúncias, cismas, queixas, dúvidas, melindres, temores, desconfianças, suspeitas e imputações. Deixem-nas fazer todas as acusações. Anotem tudo. Deliberem na independência do vosso juízo e sentenciem - se tiverem de o fazer.

Eu, na qualidade de réu assumido, limitar-me-ei a escutar todos os relatos, como quem se delicia ao ouvir os contos mais fantasiosos, plenos de drama e repletos de “achismos”.

Seja qual for o desenlace, seja qual for o entendimento deste tribunal, nascido da vontade protagonista e alavancada em propósitos coscuvilheiros, receberei os autos de pronunciamento como quem anseia ler o argumento adaptado, para cinema, de uma ficção sensaborona.

Por mais que tentem, nunca conseguirão biografar o meu trajecto, a minha caminhada, os meus conceitos, as minhas decisões, sendo fiéis aos acontecimentos, sem que eu decida favorecê-los com a única verdade que me define – a minha.

Até lá, e para não caírem no ridículo, sugiro que no final da vossa colectânea de adivinhação coloquem a frase: “toda e qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência”.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

No fundo do baú 150 - Emanuel Lomelino

Volta e meia, nos meus exercícios de escrita, aludo à preguiça intelectual que ganhou raízes nas sociedades modernas. São tantos os exemplos que fica complicado não dar uso a essa constatação.

Esta epidemia de não-pensamento tem diversas origens, múltiplas razões e inúmeros motivos para continuar a propagar-se, sendo factor essencial e decisivo para que alguns “iluminados”, conscientes do fenómeno, ganhem força e consigam ser reis em terra de cegos formatados.

O mais preocupante é que esta enfermidade já esteve presente em outros momentos da história da humanidade, mas parece que, desta vez, quase ninguém consegue enxergar o óbvio.

Pelo andar da carruagem, acho que esta nova variante, vai ficar entre nós mais tempo do que as anteriores, tal a capacidade de contágio que tem revelado.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

No fundo do baú 149 - Emanuel Lomelino

Por natureza, e porque procuro desenvolver ideias próprias sobre várias temáticas, sou crítico dos radicalismos modernos, que só existem por falta de validade argumentativa e preguiça intelectual.

Reflectir deve ser sempre o primeiro passo para a existência de discussões construtivas e é através das divergências que se podem alcançar consensos e encontrar as melhores soluções para cada problema.

Neste contexto, e porque há assuntos que merecem debates amplos e sérios, congratulo-me pelo crescente interesse na problemática da saúde mental.

Apesar da questão ter sido levantada, recentemente, por figuras de relevo do universo desportivo, este problema não é novo, é mais abrangente e deve preocupar cada um de nós.

Sem retirar importância ao debate sobre as origens, motivos ou soluções, creio que a prioridade deve ser a consciencialização colectiva de estarmos perante uma situação grave que requer o máximo de sensibilidade nas abordagens e, por isso, são dispensáveis as ideias pré-concebidas e preconceituosas do passado.

As sociedades só evoluem quando os pensamentos acompanham.