quinta-feira, 7 de maio de 2026

No fundo do baú 176 - Emanuel Lomelino

Já perdi a conta às vezes que metaforizei este paradoxo que existe em mim.

Por um lado, sou espírito ermitão, com sede de deserto e vontade de ficar em contínua meditação, abraçar os silêncios mais profundos, sentir a sangue pulsar nas veias, enxergar a passagem de cada segundo e alcançar o máximo de epifanias que o conhecimento possa outorgar.

Noutro prisma, sou o eterno amante do sedentarismo conformista; recluso num tempo que não me pertence, aonde me sinto desenquadrado, sem desejo de mudança – por revolta ou rebeldia – existindo apenas.

Por outro lado, sinto-me um nómada sem endereço certo nem rumo concreto, sedento por encontrar o lugar perfeito para instalar esta carcaça envelhecida e criar um entreposto de isolamento premeditado. Sou um beduíno, sempre irrequieto, em busca de um espaço para assentar arraiais, longe deste outro espaço que me restringe, aprisiona e bestializa.

Depois, enquanto me debato com esta triplicidade esquizofrénica, olho em redor e vejo inúmeras caravanas de camelos que circulam nos mesmos desertos que eu, com a diferença a residir nos holofotes que os acompanham. Então multiplica-se a necessidade visceral de metaforizar este labirinto temporal aonde me sinto enclausurado e de onde tenho ânsias de libertar-me.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

No fundo do baú 175 - Emanuel Lomelino

Há o tempo. Sempre incompreendido e mal medido. Sempre contestado e gasto a despropósito. Sujeito à dualidade humana. Dependente do livre-arbítrio dos humores.

Mas o tempo faz-se lonjura e exige esforço porque não para, não espera, não se controla nem se deixa domesticar.

E a vida segue, com um objectivo oculto e um final premeditado, nos compassos inclementes do tempo que, pedindo respostas, não desacelera, mas esgota-se porque a sua duração é a nossa duração.

Por isso, o tempo é unidade de medida. Dele próprio, de nós e do intervalo que nos separa do fim inevitável.

E a equação do tempo é simples de descrever: entre a terra e o céu (ou inferno) há a distância de uma vida por compreender e uma morte por alcançar.

terça-feira, 5 de maio de 2026

Contos que nada contam 56 (Epifania de um sonhador) - Emanuel Lomelino

Epifania de um sonhador


Em criança, logo, numa fase prematura e ingénua da minha existência, comecei a acumular alguns sonhos, como tesouros preciosos que defenderia com a própria vida.

O tempo encarregou-se de concretizar uns, eliminar outros, substituir alguns e frustrar a maioria.

Os anos passaram, comecei a ver o mundo com outras cores e aprendi a delinear os objectivos com outra precisão, porque a experiência assim o exigia, mas sempre sem deixar de sonhar grande.

Durante a caminhada foram muitas as adversidades impossíveis de contornar que me obrigaram a fazer escolhas e a ser mais criterioso. Então deixei de ser um acumulador de sonhos para me transformar em coleccionador de projectos por realizar.

À falta de oportunidade, ou capacidade, para levar tudo a bom porto, apertei mais a malha da exigência e segui na luta escolhendo as batalhas a travar.

Porém, porque a vida apresenta muitas encruzilhadas e o cansaço dos desaires não mata, mas mói, fui deixando cair grande parte da bagagem sonhada para dar algum alívio às costas.

Foi nesse momento que percebi que o meu sonho maior, que apenas vagueava no meu inconsciente, foi o único que sobreviveu à caminhada, resistindo a todos os meus tropeços, enganos e quedas.

Feitas as contas, não fui eu que concretizei este sonho. Foi ele que me filtrou.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

No fundo do baú 174 - Emanuel Lomelino

É curioso observar que a grande maioria das pessoas que, enquanto jovens, questionavam a utilidade prática de algumas matérias ensinadas nas escolas, é a prova viva de que a humanidade é demasiado suscetível a influências subliminares.

Veja-se, por exemplo, a geometria e a trigonometria. Tirando os que estudavam engenharia ou arquitetura, ninguém conseguia ver a sua aplicabilidade. No entanto, hoje, todos, sem excepção, perante a falta de linearidade da vida, demonstram ter várias faces ou lados, procuram os melhores ângulos e prismas para se enquadrarem em alguns círculos, havendo quem consiga criar esferas de influência. Os mais obtusos estão gradativamente a alterar a vida, enquanto os mais agudos, o máximo que conseguem é ter vidas quase paralelas, muitas vezes envolvidos em triangulações, das quais, se escapam, é sempre à tangente. Depois temos aqueles mais rasos que nem vale a pena falar.

Ora, tendo em conta a aversão juvenil a estas matérias, os comportamentos geo-trigonométricos só podem ser explicados por influência subliminar.

Seja como for, se alguém conseguir elaborar uma teoria melhor, estou disposto a mudar a minha linha de raciocínio, 180º.

domingo, 3 de maio de 2026

No fundo do baú 173 - Emanuel Lomelino

Imagem retirada da internet

Todos temos dois lados, cientificamente identificados – consciente e inconsciente.

Ambos trabalham em uníssono, ajudam-nos nas questões diárias, a cada instante fazem-se presentes e manifestam-se em permanência, embora nem cheguemos a nos aperceber desse facto.

Na verdade, todas as nossas decisões são influenciadas pela dupla dinâmica da consciência, no entanto, talvez por ser mais confortável ou, quem sabe, menos incriminatório, temos tendência para explicar os nossos comportamentos através da superficialidade do consciente em vez de alinharmos na profundidade do inconsciente. Aliás, a nossa inclinação pelo consciente é tão óbvia que colocamos a outra vertente com um papel subalterno chamando-a de subconsciente.

Posto isto, e porque tudo existe porque nós existimos (consciente confortável), quando nos queixamos de algo, estamos efectivamente a queixarmo-nos de nós próprios (inconsciente incriminatório).