sábado, 25 de abril de 2026

No fundo do baú 166 - Emanuel Lomelino

Na escola, aprendemos que a grande diferença entre os humanos e os outros animais é a faculdade de raciocinar. Na vida confirmamos que nos distinguimos por, ao contrário dos restantes animais, sermos mestres da complexidade. Não nos deixámos ficar pelo simples. Ousámos mais.

A verdade é que toda a fauna do mundo continua a funcionar tal qual faziam, os da sua espécie, na antiguidade mais distante, exceptuando nós.

As aves, os peixes, os herbívoros, etc... continuam a migrar de acordo com as estações. Outros reproduzem-se em condições específicas e até protelam os nascimentos para ocasiões mais favoráveis. Há muito que os humanos agem contranatura.

Mas entre todos os exemplos que podemos usar para fazer distinção, entre uns e outros, há um que sobressai: os animais matam por questão de sobrevivência, os humanos fazem-no por ambição.

No fundo do baú 165 - Emanuel Lomelino

Olho o mundo com os olhos de quem tem fome de transformar sonhos impossíveis em realidades presentes e palpáveis. Deixo que o olhar se espraia nos horizontes da vontade e voe livremente sobre as ilusões, ignorando dogmas e utopias, na demanda dos sonhos que dão sentido à vida. Quero para mim todo o conforto da realização pessoal mesmo que os espinhos se cravem na minha carne, dilacerem o meu corpo e as cicatrizes demorem uma eternidade a sarar. Desejo para mim mais do que os meus braços alcançam, mais do que o destino me outorga, apenas e só porque mereço o inatingível. Mais não seja pela perseverança ou teimosia que desde sempre está enraizada em mim. E quando a morte chegar e beijar este meu rosto arrefecido, pode depositar tudo o que alcancei na vida, com sangue, suor e oceanos de lágrimas, na sua sala de troféus na condição de indicar a sua proveniência. A ti, ceifadora, sugiro que uses este chavão: "Aqui jazem as conquistas de um eterno sonhador".

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Epístolas sem retorno 55 - Emanuel Lomelino

Lev Nikoláievitch Tolstói
Imagem pinterest

Amigo Nikoláievitch,


“As conversas são como as cerejas” é a expressão que melhor pode explicar as razões que me levam a iniciar esta missiva. A verdade é que nunca foi minha intensão embrenhar-me tanto numa temática como se não houvesse outros assuntos merecedores de reflexão, mas as coisas são como são, e por culpa dos diálogos com Nietzsche e Camus, não podia deixar de lhe dirigir algumas considerações.

Tal como Ivan Ilitch, a generalidade das pessoas vive como fosse imortal e, quando confrontada com a inevitabilidade da finitude, entra numa espécie de choque. Nesse momento de epifania, reavaliam-se decisões, confessa-se o desperdício de tempo com desejos e objetivos irrelevantes, assumem-se condutas e atitudes prenhes de futilidade, realizam-se remorsos. Perante este paradigma, creio que universal, abre-se uma nova perspectiva sobre a forma como a humanidade assume a mortalidade. Não é receio ou pudor. É sentimento de culpa.

Sabendo, de antemão, que a morte é uma certeza, só encontro uma explicação para que muitas pessoas sintam desconforto em falar dela, transformando-a em tabu. Falar da morte é falar do efémero, do descartável, do substituível. Será coincidência que a humanidade tenha criado os cemitérios para aglomerar os mortos da mesma forma que criou as lixeiras para o entulho e as sucateiras para os metais inservíveis?


Meditativo

Emanuel Lomelino

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Epístolas sem retorno 54 - Emanuel Lomelino


Albert Camus
Imagem pinterest

Prezado Albert,


Ontem, em conversa com Nietzsche, sobre o medo da morte, abdiquei de usar a palavra “absurdo” para qualificar esse sentimento, não por achar despropositado, mas sim porque, no mais íntimo de mim, talvez no subconsciente, eu soubesse que retomaria o tema consigo.

Nesta temática da morte, há sempre pensamentos novos que se entrelaçam, como macramé, e nos levam a observar múltiplos prismas, ver diferentes ângulos, analisar distintas percepções.

Neste contexto, dei por mim a pensar que, devido ao absurdo medo da morte, poucos se apercebem que existe um preconceito, quase tabu, em falar abertamente da morte, como se ela fosse algo totalmente fora de entendimento. Esta ideia acaba, também ela, por ser um absurdo, porque o medo da morte não existe. O que há é medo daquilo que leva à morte.

Em nome desse medo, a generalidade das pessoas evita abordar o tema, como se, ao ignorar a morte, conseguissem afastá-la. Neste ponto tenho de concordar com Séneca quando disse que as pessoas vivem como se fossem imortais e só pensam na morte quando ela está perto demais para ser ignorada.

Em nome de um medo sem fundamento, adiam-se decisões, gasta-se tempo com futilidades, praticam-se actos inúteis, vive-se o banal.

Haverá, porventura, algo mais absurdo e ridículo do que viver nos limites do medo, por culpa de uma irracionalidade? Haverá, porventura, algo mais absurdo e ridículo do que viver sem realmente se viver.


Reflexivo

Emanuel Lomelino

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Epístolas sem retorno 53 - Emanuel Lomelino

Friedrich Nietzsche
Imagem pinterest

Prezado Friedrich


Juro que, apesar de dissertar múltiplas vezes sobre esta temática, não tenho obsessão pela morte. Simplesmente, acho fascinante discorrer os pensamentos pelas questões que a ela estão, de alguma forma, associadas. Principalmente o medo. Aliás, creio que, exceptuando alguns filósofos com discursos de índole religiosa, a esmagadora maioria dos pensadores vê o medo da morte como um dos paradoxos mais naturais, mas também ridículos, da humanidade.

Para Epicuro: “A morte é apenas a ausência de sensação, logo, não deve ser temida”.

Para os estoicos: “A morte é passado e futuro, e o medo dela impede de viver plenamente o presente”.

Para os existencialistas: “A consciência da finitude é o que dá sentido à vida”.

Na minha visão, vale o que vale e até posso vir a mudar de opinião, não existe medo da morte. Aquilo que há, dentro de quem diz sentir medo da morte, é, na verdade, medo de sofrer na hora da morte. Ninguém, em perfeito juízo, pode sentir medo de algo que desconhece e sobre o qual nada mais se sabe para além da certeza de ser o fim da vida, tal qual a concebemos e entendemos. Contudo, todos sabem que a maioria das mortes comporta um final doloroso, angustiante, lento e até violento. E é disso que a humanidade tem medo; da dor, do sofrimento, da angústia, da incerteza, enfim, da espera.

Não existe medo do desconhecido, há apenas medo do que se conhece. E para combater esta realidade, Friedrich, na tentativa de desmistificar o medo da morte, estou inclinado a prescrever a sua fórmula: “O que não me mata, fortalece-me”.


Pensativo

Emanuel Lomelino