quarta-feira, 29 de abril de 2026

No fundo do baú 169 - Emanuel Lomelino

Ao longo dos anos tenho-me confrontado com muitos comportamentos que, analisados em detalhe, só prejudicam o universo da escrita. O exemplo mais flagrante é a criação de grupos elitistas – sendo que este elitismo literário varia entre grupos, mas impactua decisivamente nos percursos dos respectivos integrantes, para o bem e para o mal.

Para mim, a raiz deste problema é, mais do que uma questão de interpretação ou conceito de qualidade literária, uma demonstração clara de egocentrismo.

Ao contrário de épocas anteriores, em que os autores exerciam o seu ofício com conceitos filosóficos e criativos pré-definidos, de acordo com a corrente artística em que se reviam, hoje ninguém sequer reconhece esses movimentos e, apesar de criarem a mesma coisa, da mesma forma e com o mesmo objectivo, dividem-se em grupos distintos, mas com bases idênticas.

Por outro lado, e talvez o sintoma mais óbvio do egocentrismo apontado, hoje ninguém quer discutir conceitos e filosofias por necessidade em etiquetar as suas criações como expoente máximo da arte e, por essa razão, faz-se rodear por outros que, manifestando o mesmo desinteresse pelos movimentos artísticos, tampouco sabem identificar as diferenças (incoerências) existentes no seio do próprio grupo.

Haverá algo mais prejudicial para as artes do que a incapacidade dos criadores em explicarem as suas criações, para além de chavões pueris como: “expressão da alma”, “inspirado na vida”, “fruto de inquietações”?

terça-feira, 28 de abril de 2026

No fundo do baú 168 - Emanuel Lomelino

Por vezes fico a ponderar nesta minha apetência, cada vez maior, para procurar momentos de isolamento. Dizer-me apreciador da reflexão acaba por ser redutor porque também é possível pensar estando rodeado de gente.

Ficar entregue aos pensamentos é uma forma de autoconhecimento. Fazê-lo cercado por outros pode ser comunhão, quando há partilha de ideias.

O problema está na questão do grupo. É difícil partilhar os pensamentos mais elaborados quando do outro lado só existe interesse no banal, no frívolo, no insonso, e há grande resistência à evolução das conversas.

Neste contexto sou obrigado a confessar as saudades que tenho de algumas pessoas. Daquelas que, além de saberem transmitir conhecimento em assuntos diversos, tinham a capacidade de fazer evoluir os diálogos transformando as conversas em meros convívios apaixonantes.

Muitas dessas pessoas já não estão neste plano e, tal como eu, os que ainda por aqui andam também passaram a preferir a reflexão isolada.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

No fundo do baú 167 - Emanuel Lomelino

Imagem istockphoto

Dizem que estamos a viver na era da comunicação. Não posso, em rigor de consciência, concordar em absoluto porque só vejo verdade nessa afirmação se a colocar no contexto tecnológico. Em tudo o resto não tem aplicação e revela-se falsa.

Que era da comunicação é esta em que as pessoas vivem isoladas nos seus micromundos. No trabalho, nos cafés e restaurantes, nos bancos de jardim, nos prédios, até nas próprias casas, é cada um para seu lado com os olhos pregados nas redes sociais e sem contacto algum com a realidade da vida.

Tal como identifica José Flórido, num texto sobre Agostinho da Silva, esta falta de comunicação é a origem dos graves problemas psicológicos dos nossos tempos e urge concentrar esforços – de forma colectiva – para fazer ressurgir hábitos de vida conversável – colocar as pessoas a falarem com pessoas, cara a cara, olhos nos olhos.

Mas para combater a incomunicabilidade temos de nos desfazer dos “saberes parciais” e das referências comuns” sob pena de reduzirmos o conhecimento ao banal (futebol, condições climatéricas e vida privada das figuras públicas). A vida conversável é bem mais ampla e saudável, para além de ajudar no entendimento dos outros e de nós próprios.

sábado, 25 de abril de 2026

No fundo do baú 166 - Emanuel Lomelino

Na escola, aprendemos que a grande diferença entre os humanos e os outros animais é a faculdade de raciocinar. Na vida confirmamos que nos distinguimos por, ao contrário dos restantes animais, sermos mestres da complexidade. Não nos deixámos ficar pelo simples. Ousámos mais.

A verdade é que toda a fauna do mundo continua a funcionar tal qual faziam, os da sua espécie, na antiguidade mais distante, exceptuando nós.

As aves, os peixes, os herbívoros, etc... continuam a migrar de acordo com as estações. Outros reproduzem-se em condições específicas e até protelam os nascimentos para ocasiões mais favoráveis. Há muito que os humanos agem contranatura.

Mas entre todos os exemplos que podemos usar para fazer distinção, entre uns e outros, há um que sobressai: os animais matam por questão de sobrevivência, os humanos fazem-no por ambição.

No fundo do baú 165 - Emanuel Lomelino

Olho o mundo com os olhos de quem tem fome de transformar sonhos impossíveis em realidades presentes e palpáveis. Deixo que o olhar se espraia nos horizontes da vontade e voe livremente sobre as ilusões, ignorando dogmas e utopias, na demanda dos sonhos que dão sentido à vida. Quero para mim todo o conforto da realização pessoal mesmo que os espinhos se cravem na minha carne, dilacerem o meu corpo e as cicatrizes demorem uma eternidade a sarar. Desejo para mim mais do que os meus braços alcançam, mais do que o destino me outorga, apenas e só porque mereço o inatingível. Mais não seja pela perseverança ou teimosia que desde sempre está enraizada em mim. E quando a morte chegar e beijar este meu rosto arrefecido, pode depositar tudo o que alcancei na vida, com sangue, suor e oceanos de lágrimas, na sua sala de troféus na condição de indicar a sua proveniência. A ti, ceifadora, sugiro que uses este chavão: "Aqui jazem as conquistas de um eterno sonhador".