quinta-feira, 9 de abril de 2026

No fundo do baú 155 - Emanuel Lomelino

Passam os dias (sempre iguais) e cada um é uma vertigem de tempo que me afasta do mundo que nunca foi meu.

Eu, o único ser mutável nesta história, enfermo de saber-me deslocado, ora abraço ou rechaço a esquizofrenia lúcida que guia todos os meus passos, todos os meus pensamentos, todas as minhas angústias, que são nada quando comparadas com o mal maior.

O sol nasce todas as manhãs sem remorso nem infelicidade por ser o mesmo que já foi e igual ao que será. Já eu, que sei o meu amanhã, mesmo sem data precisa, jamais saberei o que fui – ou poderia ter sido – no tempo que me correspondia.

Esta dúvida, que deriva de uma certeza cada vez mais sentida como absoluta, é a bagagem que carregarei até ao final dos dias (sempre iguais), composta por baús de frustração, conformismo e desconsolo.

Pior do que estar encerrado num espírito esquizofrénico é ter consciência dessa fatalidade.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

No fundo do baú 154 - Emanuel Lomelino

Eu, que me reconheço como um sujeito atento e bom observador, há algum tempo vinha reparando que as grandes chancelas editoriais deixaram de usar o título “Antologia”, nos livros dedicados a um só autor, substituindo-o por “Poesia reunida”, “Prosa reunida” ou “Contos reunidos”, dependendo do género literário, ou usando apenas “Poemas”, “Prosas”, “Contos”. Confesso que detectei esta alteração, mas nunca aprofundei as razões.

Pois bem, eis senão quando, por mero acaso, descubro que esta mudança de denominação antológica aconteceu por dois motivos essenciais que, a bem da verdade, derivam de um só: a contínua utilização dos termos “antologia” e “colectânea” como sinónimos e sequente retificação ao incluir esta nova prerrogativa nos dicionários.

A parte curiosa desta situação é que, apesar de passarem a ser sinónimas, estas palavras continuam a ter definições que se contrapõem. Vejamos:

Antologia: é o conjunto formado por diversas obras que exploram uma mesma temática, período ou “autoria”.

Colectânea: recolha de excertos de “diversos autores”, geralmente subordinada a determinado tema, género ou época.

Confrontado com esta revelação, congratulo os grupos editoriais pela forma como conseguiram contornar esta situação absurda.

Dito isto, fico à espera para ver quando é que os dicionários vão assumir como sinónimos “tertúlia” e “sarau”.

Aí a casa cai.

terça-feira, 7 de abril de 2026

No fundo do baú 153 - Emanuel Lomelino

A generalidade das pessoas confunde conhecimento com inteligência, mas este equívoco pode ser desfeito achando a relação entre ambos.

O conhecimento é acúmulo de saber. A inteligência é o entendimento prático do que se sabe e, após a primeira aplicabilidade desse saber, deixa de ser inteligência, passando a fazer parte do acúmulo de conhecimento.

Para melhor entendimento façamos este exercício: Temos uma criança pequena e um interruptor. Com o tempo ela vai saber que aquele objecto tem um nome, uma função, e que ela (criança) pode interagir com ele (objecto). Até aqui ela apenas tem conhecimento. A inteligência só aparece quando ela colocar em prática esse conhecimento e, através do interruptor, iluminar a sala escura.

No entanto, essa demonstração de inteligência não se repete, porque a repetição deriva do acúmulo de saber e já não de um acto de inteligência. Por mais vezes que a criança ligue ou desligue o interruptor, esse acto já não é de inteligência, mas sim de conhecimento porque, por experiência própria, já sabe o que acontece em cada um dos momentos.

Assim, podemos concluir que o conhecimento é uma condição evolutiva (porque há acréscimo de saber), enquanto a inteligência é uma condição momentânea (porque a demonstração de inteligência só tem uma aplicabilidade por cada saber).

Conhecimento e inteligência são dois conceitos que não podem ser confundidos, mas dependem, isso sim, um do outro.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

No fundo do baú 152 - Emanuel Lomelino

Refletir na vida possibilita-nos ordenar as informações, que adquirimos de forma aleatória (uma aqui, outra acolá, uma mais adiante, outra bem mais tarde), e dar-lhes uma concretude que, de outro modo, seria difícil atingir.

Este processo de revelação faz-nos alcançar um outro nível de entendimento, tanto das coisas complexas como das irrelevantes.

Peguemos como exemplo o epiteto “Idiota”. Ao longo da vida, em circunstâncias diversas, conhecemos personagens a quem a adjectivação serve na perfeição, contudo, com significâncias distintas.

Analisando a fundo a questão, chegamos à seguinte epifania: existem cinco tipos de idiotas.

1 – O tolo – aquele que tem um défice cognitivo e as sociedades reconhecem como louco.

2 – O burro – aquele que é ignorante por natureza e tem dificuldade de aprendizagem.

3 – O néscio – aquele que sofre de excesso de pureza, comummente apelidado de ingénuo.

4 – O bobo – aquele que entretém os outros, usando com inteligência as características dos anteriores para efeitos de comédia.

5 – O maquiavélico – aquele que usa as fraquezas alheias, de forma perversa, para proveito próprio e prejuízo dos demais.

domingo, 5 de abril de 2026

No fundo do baú 151 - Emanuel Lomelino

Quem estudou ciências humanas, ou humanidades como se dizia nos anos oitenta, deve lembrar-se, certamente, que a maior dificuldade dos professores era fazer com que os alunos conseguissem interpretar textos e identificar os elementos estilísticos incluídos. Eram aulas e aulas dedicadas a esta matéria e, na globalidade, os resultados não eram dos melhores e ficavam aquém do razoável, porque na cabeça de alguns alunos pairava a eterna questão: mas isto serve para quê?

Ao contrário do que manda a regra, a esta pergunta, feita no presente do indicativo, a resposta mais lata tem de ser dada no pretérito imperfeito: isso serviria para que existisse maior compreensão das mensagens, não acontecessem erros de avaliação, mal-entendidos e, cerrem-se os dentes, não proliferasse uma pobreza franciscana ao nível da criação literária.

Observando, com olhos de ver, o universo da escrita (mas não só), fica claro que essa dificuldade docente nunca foi ultrapassada, tal a profusão de equívocos linguísticos e interpretativos.

Essa incapacidade de entendimento e identificação de figuras de linguagem, sejam semânticas, sintáticas, ou outras, é tão perceptível quanto triste e, sem o risco de incorrer em exageros, até faz corar as resmas de papel rasurado.

Posto isto, garanto que são menos aqueles que repararam no litote que precedeu o eufemismo, lá atrás, no primeiro parágrafo, do que quem atentou na personificação usada no anterior, ou em outros recursos distribuídos entre ambos.

À pergunta: isto serve para quê? A minha resposta concisa é: para eu fazer um exercício de escrita usando o maior número possível de figuras de estilo e ultrapassar, por grande margem, o limite de espaço previsto para este texto.