quarta-feira, 20 de maio de 2026

No fundo do baú 188 - Emanuel Lomelino

Já escrevi inúmeros textos sobre a legitimidade universal que a escrita outorga. Todos, sem excepção, podem, e devem, exercer essa actividade sem rodeios nem receios, independentemente das razões adjacentes, subjacentes, laterais ou de fundo.

Escrever é mais do que um direito, é um dever. Pela defesa libertária; pela identidade; pela diferença; e sobretudo pelo legado que carregamos, e que deve ser respeitado, preservado e prolongado, para que as gerações vindouras não percam o rastro às suas raízes e, também eles, sintam que devem contribuir nessa perpetuação.

Não existe história sem registo. Não existe noção do passado sem que a memória seja celebrada, e a melhor forma de o fazer é colocar tudo por escrito.

Mas a história de um povo, de uma civilização, não se limita a referências factuais e a acontecimentos quotidianos colectivos. Ela também resulta de pensamentos críticos, ensaísticos ou lúdicos, ficção, criatividade, inovação, singularidade…

Por essas razões defendo que todos devem escrever, seja sobre o que for, de que forma for, e com as motivações que lhes aprouverem. O importante é escrever. Escrever muito.

Depois… o tempo encarregar-se-á de separar o trigo do joio.

terça-feira, 19 de maio de 2026

No fundo do baú 187 - Emanuel Lomelino

Numa tentativa vã de fazer o tempo abrandar, caminho pelas ruas mais despidas da cidade e dou por mim a inspecionar com curiosidade todo e qualquer ser que cruze a minha marcha.

Mais do que os tons capilares da moda, os trajes ultrajantes, ou as libertinagens chocantes, foco a minha atenção nas mãos – tão diferentes das minhas - e nos seus movimentos – tão efusivos quanto enganadores.

Sejam grandes ou pequenas, robustas ou delicadas, morenas ou pálidas, todas elas me parecem mãos habituadas a luvas de pelica, tão unidos estão os dedos. Ao vê-las, fico com a sensação de apenas me cruzar com cirurgiões.

Ao contrário, as minhas assemelham-se a grampos rombos e lascados, tantas são as escaras, por vezes sobrepostas, que as enfeitam e impedem que os dedos se toquem e consiga cerrar os punhos.

Acho que, se os outros também andarem pelas ruas da cidade a observar mãos, ao verem as minhas devem pensar que sou estivador ou coveiro. 

segunda-feira, 18 de maio de 2026

No fundo do baú 186 - Emanuel Lomelino

Perguntaram-me como seria o filme da minha vida. A resposta foi tão instantânea como uma curta-metragem.

Do nascimento até agora, já vivi inúmeras aventuras, algumas dramáticas, outras hilárias, estive envolvido em situações pitorescas e outras complicadas, escalei muitas montanhas ao longo das peregrinações por bastantes lugares, tive os meus fracassos, alguns sucessos, muitas hesitações, fiz boas escolhas e tomei muitas mais equivocadas, mas não consigo identificar episódios com originalidade suficiente para merecerem ficar registados em película.

Na realidade, tudo espremido, o potencial filme seria tão minúsculo que pareceria mais um anúncio publicitário do início do século XX – mudo, a preto e branco, e para ficar perdido no arquivo empoeirado de uma qualquer cinemateca anónima.

domingo, 17 de maio de 2026

Prosas de tédio e fastio 136 - Emanuel Lomelino

Prosas de tédio e fastio 


136


Traçando um segmento de recta entre as janelas do entendimento e as ambições alucinadas que brotam nas linhas do horizonte, vislumbro a génese dos meus desencantos e a razão suprema da minha reclusão consciente.

Nesta cela sem amarras nem grilhetas, sobra-me o conforto de continuar fiel aos nobres juízos de quem se abastece na vertigem do “lógos” grego.

Mas a reclusão helénica, por si só, não é suficientemente forte para impedir que alguns raios de frustração e nuvens de incredulidade aflorem no recanto mais impotente do ânimo.

Tudo isto, feitas as contas e achados os coeficientes, nada mais é do que a prova definitiva de que a transpiração do mundo não nasceu em Maratona, mas sim da cobiça desmesurada e da infame ganância, cujos odores ferem mais do que as algemas apertadas com que me visto.

sábado, 16 de maio de 2026

No fundo do baú 185 - Emanuel Lomelino

Há muito que decidi, com plena consciência do acto, deixar de andar ao sol e mostrar-me ao mundo apenas a conta-gotas, especialmente durante tempestades diluvianas.

Sei da importância do processo de sintetização da vitamina D, mas nunca tive problema algum em assumir os estragos colágenos porque envelhecer é inevitável e nunca gostei de brilho emprestado ou genérico porque ofusca, cega e ilude.

Prefiro o cinzentismo que me define e só a mim pertence pelo simples facto de poder revelar-me, com maior liberdade e satisfação, tal qual sou, no anonimato das sombras e sem intromissões despropositadas nem, sobretudo, ilegítimas.

Pelo mesmo motivo tenho uma predilecção especial por becos e vielas, em detrimento das avenidas largas e intermináveis.