sábado, 18 de abril de 2026

No fundo do baú 163 - Emanuel Lomelino

Imagem retirada da internet

É impressionante como a humanidade tende a complicar a sua essência ao mesmo tempo que admite os benefícios do simples.

A toda a hora ouvem-se vozes a reclamar, por tudo e por nada, numa algazarra, por vezes colectiva, contudo parca de sentido ou em sentido contrário ao pensamento lógico.

A todo o momento, há um espírito de contestação que desce sobre alguém e logo todos se transformam em seres iluminados, sem sequer saberem o que contestam.

Cada vez mais abunda o seguidismo bacoco, que nada acrescenta para além de estupidificação.

Há uma cultura de preguiça, que não é compatível com os brados queixosos, mas que emerge como o valor moral mais alto e assertivo.

Há uma inversão na marcha da humanidade e parece que ninguém faz caso. O importante é saber o supérfluo e ter os olhos colados nas telas luminosas dos aparelhos portáteis e que se lixem os outros (inclusive aqueles que estão sentados à mesma mesa).

A humanidade reclama mais humanismo, no entanto, os passos a dar nesse sentido têm de ser dados pelos outros porque cada um está com falta de tempo e com coisas mais importantes em mente.

Qual a lógica disso? Quão cega está a humanidade para não ver o óbvio?

sexta-feira, 17 de abril de 2026

No fundo do baú 162 - Emanuel Lomelino

Durante anos defendi uma norma de vida que consistia em ouvir o dobro daquilo que falava, usando como argumento o facto de termos dois ouvidos e somente uma boca. O conceito é básico, quase pueril, no entanto, é dotado de uma lógica, quase, irrepreensível.

Por ter uma mente inquisitiva, comecei a pensar numa forma de ultrapassar o problema que o advérbio de modo “quase” colocava. Ele sugere falibilidade e também é lógico, porquanto, numa conversa entre duas pessoas, é impossível que ambas escutem o dobro do que falam.

Como resolver este paradoxo?

A solução parece ainda mais infantil ou rebuscada, mas a própria natureza deu-nos as pistas através da anatomia. As orelhas são laterais e simétricas, e isto significa que o importante não é ouvir em dobro, mas sim escutar de modo harmonioso.

Nesta perspectiva cheguei à conclusão de que o conceito inicial era falho e aquele que passei a usar traduz-se numa palavra aplicável à forma como se ouve (equilíbrio) e outra ao que se fala (temperança). E estes dois substantivos são indissociáveis.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

No fundo do baú 161 - Emanuel Lomelino

Existem tantos predicados nascidos da leitura que, por mais qualificantes que possamos encontrar, nada adjectiva melhor a leitura do que a palavra “edificar”.

Com maior ou menor grau; com mais ou menos intensidade, cada livro engrandece o leitor a diferentes níveis.

Sim, ler edifica o individuo. E o melhor exemplo dessa realidade incontornável revela-se-nos quando damos conta de estarmos a reflectir sobre o que acabámos de ler.

Essas reflexões, cujo propósito, ou utilidade, nunca devem ser menosprezadas, sintetizam-se numa frase, que Carl Jung usou num outro contexto, mas que se aplica na perfeição:

Quem procura, fora de si, sonha, quem procura, dentro de si, desperta.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

No fundo do baú 160 - Emanuel Lomelino

Não importam as estações. Todos os dias, de uma semente-ideia, que rasga a membrana plasmática, germinam palavras, quais rebentos de engenho, com esperança de se transformarem em frutos literários.

Os estágios de crescimento correspondem ao ciclo natural da vida, desde o nascimento até ao amadurecimento.

É um processo normal, contudo, de imensurável aleatoriedade temática. Mesmo assim, não dispensa polinização e terra fértil.

Depois da ceifa, segados os caules mais robustos, peneira-se o trigo do joio e separa-se cada grão para o respectivo recipiente.

Uns vão para a mó, outros para a sequeiro, e os restantes ficam armazenados para que, naqueles momentos de colheita fraca, seja possível manter o estro gordo.

terça-feira, 14 de abril de 2026

No fundo do baú 159 - Emanuel Lomelino

Imagem pinterest

Muito por conta do gene mais decisivo do estro e por não conceber criação sem literacia, imponho-me absorver o máximo de conhecimento sobre matérias essenciais, mesmo daquelas em que não me revejo, mas que podem aportar elementos teóricos úteis ao meu ofício, até por oposição.

Esta busca por entendimento mais vasto em géneros, estilos e propostas literárias distintas, que deveria ser transversal a todo o universo da escrita, proporciona-me muitos momentos de reflexão interessante.

Neste contexto, e apesar de perceber os conceitos base do concretismo, tenho uma dúvida que só pode ser esclarecida por quem navega neste movimento literário.

Como se conseguem ler textos concretistas a um cego, de forma que os elementos espaciais não sejam omitidos, ou prejudicados por descrições intermediárias?