quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 107 - Emanuel Lomelino

 

Um dos maiores flagelos da actualidade é a ignorância. Não no sentido ingénuo do termo, mas sim no mais arrogante - porque erradamente pretensioso.

São tantos os exemplos que seria exaustivo enumerá-los todos. Por isso, vou apenas cingir-me aos que ignoram, com consciência, a diferença que existe entre culto, erudito e inteligente.

Estes três adjectivos, que muitos consideram sinónimos, são três níveis distintos de intelectualidade.

O culto é uma pessoa instruída e informada, com conhecimento multitemático.

O erudito é aquele que conhece, em profundidade e detalhe, por via do estudo e leitura, uma miríade de assuntos.

O inteligente é aquele que entende e raciocina sobre os conhecimentos adquiridos, conseguindo encontrar-lhes utilidade e aplicação no exercício de outras actividades.

Para que entendam melhor as diferenças usarei como exemplo o mundo automóvel.

O culto conhece quase todas as marcas. Sabe distinguir as diferentes caraterísticas de cada veículo. Tem noções do funcionamento mecânico e as potencialidades de cada viatura.

O erudito já leu sobre todas as marcas ao ponto de conhecer a história de cada uma delas. Sabe diferenciar, em detalhe técnico, de manual, os diferentes componentes mecânicos e a lógica de funcionamento de cada porca e parafuso. Conhece, em pormenor, o processo de combustão, os circuitos eléctricos e de refrigeração, para que servem e como funcionam.

Inteligente é o mecânico, que na sua oficina consegue identificar, pelo som do motor, as deficiências mecânicas de um veículo; descobrir qual a válvula danificada; qual a porca mal apertada; aumentar a potência de um motor; etc.

Assim sendo, deixem de ser ignorantes e não menosprezem as capacidades daqueles que têm as mãos sujas de óleo. Esses serão sempre os mais inteligentes.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 106 - Emanuel Lomelino

O mundo está cada vez mais chato.

Está tão maçador que me fez recordar uma lengalenga do início da minha juventude (14/15 anos), que eu recitava quando estava a falar com um chato, e dizia assim:

“Um chato tem duas hipóteses: ou vai à tropa ou não vai. Se vai, está tudo bem; se não vai, tem duas hipóteses: ou casa ou não casa. Se não casa, está tudo bem; se casa, tem duas hipóteses: ou tem filhos ou não tem. Se não tem filhos, está tudo bem; se tem filhos, tem duas hipóteses: ou é uma menina ou um menino. Se é uma menina, está tudo bem; se é um menino, tem duas hipóteses: é, chato, ou não é, chato?…”

Alguns compreendiam as pontuações (entoações) finais, mas outros havia que faziam com que as reticências fossem substituídas pelo recomeço da lengalenga.

O mundo está tão chato que até exaspera e fico com saudades dos chatos da minha juventude.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 105 - Emanuel Lomelino

À medida que me embrenho na longitude da idade, reforço a certeza de ter sido integrado num tempo que jamais deveria pertencer-me.

Esta percepção – algo entre ingenuidade e sentimento de negação – fez-me acreditar, na juventude, que o meu carácter era inocente - por berço, natureza e fado.

Com os anos, esta leitura revelou-se-me, surpreendentemente sem espanto, na plenitude da sua erroneidade, permitindo-me identificar, como nunca antes vira, os pontos de união entre episódios isolados e o meu desenquadramento temporal.

Na ausência de via alternativa, procurei adaptar a minha essência à realidade, como um trapezista, em busca de equilíbrio entre dois mundos.

Esse processo de calibragem permitiu-me entender as motivações para a existência e aplicabilidade de inúmeros conceitos, que dariam para escrever mil ensaios e teses de comportamento humano. Quem sabe, um dia os farei.

Por agora limito-me a confirmar que vivo deslocado no tempo, num mundo que não é o meu e com o qual não me identifico.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 104 - Emanuel Lomelino

Naqueles dias em que esqueço de me equipar a rigor, fico suspenso nas escarpas íngremes da memória e os pensamentos nascem reféns pré-datados, como se a mente tivesse sido calibrada para uma só lembrança.

Por mais voltas que dê, por mais tentativas que faça, há sempre uma ou outra recordação a querer protagonismo, como quem procura ser reconhecido acima da sua própria importância.

Nesses momentos fico insuportavelmente incomodado com o desaforo do tempo, em querer ultrapassar a sua caducidade, porque sou apologista convicto, para não dizer radicalmente defensor, da máxima: “águas passadas não movem moinhos”.

Para além disso, é tedioso pensar em mono, ainda por cima, numa era em que a celeridade dos avanços tecnológicos é maior do que um piscar de olhos e, apesar de ser da velha escola, já me habituei às multiplataformas.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 103 - Emanuel Lomelino

As pessoas têm um medo insano do silêncio que as leva a urrar as maiores atrocidades, como quem faz piruetas sempre que a luz dos holofotes incide sobre si.

São poucos aqueles que sabem valorizar a solidão consciente e reconhecer o silêncio como um lugar privilegiado onde ninguém, para além do próprio, deve ingressar.

Um espaço, bem no âmago, onde a consciência consegue respirar livremente e restabelecer-se num ambiente de intimidade e conforto, em que o vazio total é sinónimo de paz.

Infelizmente, há quem desconheça o carácter paliativo do silêncio e o confunda com solidão emocional, e por essa razão usam todos os artifícios para jamais ficarem fora do alcance dos olhares alheios. Esses, pobres vítimas do engodo, nunca serão capazes de compreender o quão falaciosa pode ser uma multidão e como é um engano pensar que caminhando em grupo se ludibria a solidão nefasta.

Mas o pior é não entenderem que existe quem faça do silêncio um porto de abrigo e reflexão, opte por trajectos alternativos, longe das ribaltas e sem grandes alardes, porque é dentro de nós que nos encontramos verdadeiramente.