domingo, 17 de maio de 2026

Prosas de tédio e fastio 136 - Emanuel Lomelino

Prosas de tédio e fastio 


136


Traçando um segmento de recta entre as janelas do entendimento e as ambições alucinadas que brotam nas linhas do horizonte, vislumbro a génese dos meus desencantos e a razão suprema da minha reclusão consciente.

Nesta cela sem amarras nem grilhetas, sobra-me o conforto de continuar fiel aos nobres juízos de quem se abastece na vertigem do “lógos” grego.

Mas a reclusão helénica, por si só, não é suficientemente forte para impedir que alguns raios de frustração e nuvens de incredulidade aflorem no recanto mais impotente do ânimo.

Tudo isto, feitas as contas e achados os coeficientes, nada mais é do que a prova definitiva de que a transpiração do mundo não nasceu em Maratona, mas sim da cobiça desmesurada e da infame ganância, cujos odores ferem mais do que as algemas apertadas com que me visto.

sábado, 16 de maio de 2026

No fundo do baú 185 - Emanuel Lomelino

Há muito que decidi, com plena consciência do acto, deixar de andar ao sol e mostrar-me ao mundo apenas a conta-gotas, especialmente durante tempestades diluvianas.

Sei da importância do processo de sintetização da vitamina D, mas nunca tive problema algum em assumir os estragos colágenos porque envelhecer é inevitável e nunca gostei de brilho emprestado ou genérico porque ofusca, cega e ilude.

Prefiro o cinzentismo que me define e só a mim pertence pelo simples facto de poder revelar-me, com maior liberdade e satisfação, tal qual sou, no anonimato das sombras e sem intromissões despropositadas nem, sobretudo, ilegítimas.

Pelo mesmo motivo tenho uma predilecção especial por becos e vielas, em detrimento das avenidas largas e intermináveis. 

sexta-feira, 15 de maio de 2026

No fundo do baú 184 - Emanuel Lomelino

E se existisse apenas uma estrela no céu, uma nespereira na terra, um cavalo-marinho no mar, uma pedra num só rio e as maçãs fossem alimento das víboras?

E se em vez de asfalto existissem apenas túneis de toupeira, um cachorro mudo, um papagaio viciado em café, uma enxada e uma prostituta low-cost?

E se chovessem rosas azuis, os prados fossem lilases, o sal soubesse a alfazema, o estrume cheirasse a Dior e o vermelho fosse caminho de cabras?

E se os pés tivessem guelras, as unhas nascessem nas pálpebras, se fumasse pelos cotovelos e os braços derretessem a cada aceno?

Se a natureza fosse absurdamente distinta daquilo que é, tal qual conhecemos, apenas restaria um par de coisas inalteradas: a beleza do pôr-do-sol e a tendência humana para a autodestruição.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

No fundo do baú 183 - Emanuel Lomelino

Quando era criança, e estava constantemente a ralar os joelhos ou a esfolar outras partes do corpo, ouvia os mais velhos dizerem que as dores, que então pouco sentia, viriam com a idade. Sempre achei muito estranho esse vaticínio e até o esqueci durante grande parte da vida.

Eis senão quando, chegado ao equador da existência secular, o corpo, qual despertador orgânico, começou a tocar e não há forma de o silenciar.

Dói caminhar, dói sentar, dói mexer, dói ficar estático, dói mover, dói tocar, dói ouvir, dói ver, dói falar, enfim, dói tudo, por tudo e mais alguma coisa, inclusive pensar.

Esta dor, que são várias dores em sequência, faz-me acreditar que, mais do que avisos, aquilo que os mais velhos faziam, quando eu era criança, era dar voz às suas próprias dores, demonstrando empatia pelas dores que hoje sinto e eles bem conheciam.

A diferença entre os dois tempos está no facto de, agora, não existirem crianças a brincar na rua e a ralar joelhos ou a esfolar outras partes do corpo. E, sobre essa dor, que desconheço, eu não sei como demonstrar empatia.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

No fundo do baú 182 - Emanuel Lomelino

Imagem pinterest

Quando existe vontade tudo é possível.

Faço contas de cabeça, procuro soluções, testo ideias, exercito modelos e fórmulas até conseguir colocar em prática conceitos elaborados por mim.

Insisto, com resiliência, tentando provar que há sempre uma possibilidade e nada é inviável quando não nos desviamos de um propósito, de um objectivo, por mais difícil que ele possa parecer à partida.

Tal como este texto que, apesar de estar longe do seu epílogo e talvez necessitar de uma eternidade para ser terminado - porque tudo leva tempo -, tem sido escrito com esmero, e atenção redobrada, para que possa chegar ao seu final de forma satisfatória. Ou pelo menos convicto de que sou capaz de ser bem-sucedido.

Tive de reformular duas frases, lá atrás, pois duas letras tentaram escapar ao meu crivo e isso prejudicaria este exercício de escrita.

Afinal, não precisei de muito tempo. Bastou meia hora para provar que é possível escrever um pequeno texto sem recorrer à utilização de artigos definidos. Quem sabe, um dia, tentarei fazer algo semelhante com artigos indefinidos ou preposições.