segunda-feira, 4 de maio de 2026

No fundo do baú 174 - Emanuel Lomelino

É curioso observar que a grande maioria das pessoas que, enquanto jovens, questionavam a utilidade prática de algumas matérias ensinadas nas escolas, é a prova viva de que a humanidade é demasiado suscetível a influências subliminares.

Veja-se, por exemplo, a geometria e a trigonometria. Tirando os que estudavam engenharia ou arquitetura, ninguém conseguia ver a sua aplicabilidade. No entanto, hoje, todos, sem excepção, perante a falta de linearidade da vida, demonstram ter várias faces ou lados, procuram os melhores ângulos e prismas para se enquadrarem em alguns círculos, havendo quem consiga criar esferas de influência. Os mais obtusos estão gradativamente a alterar a vida, enquanto os mais agudos, o máximo que conseguem é ter vidas quase paralelas, muitas vezes envolvidos em triangulações, das quais, se escapam, é sempre à tangente. Depois temos aqueles mais rasos que nem vale a pena falar.

Ora, tendo em conta a aversão juvenil a estas matérias, os comportamentos geo-trigonométricos só podem ser explicados por influência subliminar.

Seja como for, se alguém conseguir elaborar uma teoria melhor, estou disposto a mudar a minha linha de raciocínio, 180º.

domingo, 3 de maio de 2026

No fundo do baú 173 - Emanuel Lomelino

Imagem retirada da internet

Todos temos dois lados, cientificamente identificados – consciente e inconsciente.

Ambos trabalham em uníssono, ajudam-nos nas questões diárias, a cada instante fazem-se presentes e manifestam-se em permanência, embora nem cheguemos a nos aperceber desse facto.

Na verdade, todas as nossas decisões são influenciadas pela dupla dinâmica da consciência, no entanto, talvez por ser mais confortável ou, quem sabe, menos incriminatório, temos tendência para explicar os nossos comportamentos através da superficialidade do consciente em vez de alinharmos na profundidade do inconsciente. Aliás, a nossa inclinação pelo consciente é tão óbvia que colocamos a outra vertente com um papel subalterno chamando-a de subconsciente.

Posto isto, e porque tudo existe porque nós existimos (consciente confortável), quando nos queixamos de algo, estamos efectivamente a queixarmo-nos de nós próprios (inconsciente incriminatório).

sábado, 2 de maio de 2026

No fundo do baú 172 - Emanuel Lomelino

Ninguém discute que a criação é o expoente máximo de satisfação de qualquer criador. No entanto, este aforismo tem sido levado ao extremo das suas competências, como podemos observar, amiúde, na atitude de muita gente.

Há quem se julgue criador supremo e tente – por vezes consegue – moldar os outros à sua semelhança, ou de acordo com aquilo que pretende que os demais sejam, ignorando que todos têm o seu próprio caminho a percorrer e direito a fazê-lo na plenitude da sua individualidade e natureza, sem interferências, intromissões nem intervenções externas.

Este comportamento só tem sido possível porque, para infelicidade da espécie, há muita gente que, por medo da rejeição, faz tudo para se sentir incluída, inclusive, entregar o domínio das suas acções a outrem.

Este tipo de, chamemos-lhe, interacção é apenas uma relação tóxica entre manipulador e subserviente. E a satisfação de um criador jamais pode advir de manipulação – porque criar é parir e nunca usar – nem a criação pode ser servil – porque é bênção.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

No fundo do baú 171 - Emanuel Lomelino

Os bons livros são aqueles que exercem a função de mestres e, sem presunção nem culto de personalidade, dispõem-se a olhar-nos – meros aprendizes – como seus iguais, deixando-nos desfrutar a nossa independência intelectual.

Enquanto leitores, discípulos atentos dos discursos impressos, cabe-nos a tarefa de interpretar, per si, meditar e retirar as conclusões que acharmos mais assertivas, de acordo com o nosso entendimento.

A relação livro/leitor (mestre/aprendiz) é a que mais se aproxima da interacção perfeita. Um ensina, outro aprende. Um sugere, outro intui. Um revela, outro descobre.

Os bons livros não são arrogantes. Os bons leitores são modestos. Os bons livros partilham. Os bons leitores absorvem. Os bons livros não são herméticos. Os bons leitores desenvolvem pensamentos.

Como diz, repetidamente, um colega de trabalho: “Quando o mestre é bom…”

quinta-feira, 30 de abril de 2026

No fundo do baú 170 - Emanuel Lomelino

Agostinho da Silva sempre demonstrou aversão ao epíteto “mestre”, preferindo identificar-se como eterno aprendiz, e queria ser poema em vez de poeta.

Estas duas ideias, tão simples e entendíveis, servem, como contraponto perfeito, para entender a falta de altruísmo que grassa na sociedade actual.

Hoje, em diferentes círculos de autores (que podem sê-lo ou não), é comum – para não dizer norma – a autodenominação de epítetos, sem que a embalagem corresponda ao produto.

Hoje, ao contrário do que acontecia no tempo do “poema” Agostinho, nascem “poetas” a rodos, a cada conversa, a cada sarau, a cada tertúlia, numa clara expressão de individualismo e idolatria exacerbados.

Mais curioso é que os actuais “mestres” – porque assim se consideram – são avessos ao ensino, apesar da alegada extrema sabedoria e conhecimento que possuem.

Perdemos o “poema altruísta”, proliferam os “poetas egocêntricos”.