quinta-feira, 23 de abril de 2026

Epístolas sem retorno 54 - Emanuel Lomelino


Albert Camus
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Prezado Albert,


Ontem, em conversa com Nietzsche, sobre o medo da morte, abdiquei de usar a palavra “absurdo” para qualificar esse sentimento, não por achar despropositado, mas sim porque, no mais íntimo de mim, talvez no subconsciente, eu soubesse que retomaria o tema consigo.

Nesta temática da morte, há sempre pensamentos novos que se entrelaçam, como macramé, e nos levam a observar múltiplos prismas, ver diferentes ângulos, analisar distintas percepções.

Neste contexto, dei por mim a pensar que, devido ao absurdo medo da morte, poucos se apercebem que existe um preconceito, quase tabu, em falar abertamente da morte, como se ela fosse algo totalmente fora de entendimento. Esta ideia acaba, também ela, por ser um absurdo, porque o medo da morte não existe. O que há é medo daquilo que leva à morte.

Em nome desse medo, a generalidade das pessoas evita abordar o tema, como se, ao ignorar a morte, conseguissem afastá-la. Neste ponto tenho de concordar com Séneca quando disse que as pessoas vivem como se fossem imortais e só pensam na morte quando ela está perto demais para ser ignorada.

Em nome de um medo sem fundamento, adiam-se decisões, gasta-se tempo com futilidades, praticam-se actos inúteis, vive-se o banal.

Haverá, porventura, algo mais absurdo e ridículo do que viver nos limites do medo, por culpa de uma irracionalidade? Haverá, porventura, algo mais absurdo e ridículo do que viver sem realmente se viver.


Reflexivo

Emanuel Lomelino

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Epístolas sem retorno 53 - Emanuel Lomelino

Friedrich Nietzsche
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Prezado Friedrich


Juro que, apesar de dissertar múltiplas vezes sobre esta temática, não tenho obsessão pela morte. Simplesmente, acho fascinante discorrer os pensamentos pelas questões que a ela estão, de alguma forma, associadas. Principalmente o medo. Aliás, creio que, exceptuando alguns filósofos com discursos de índole religiosa, a esmagadora maioria dos pensadores vê o medo da morte como um dos paradoxos mais naturais, mas também ridículos, da humanidade.

Para Epicuro: “A morte é apenas a ausência de sensação, logo, não deve ser temida”.

Para os estoicos: “A morte é passado e futuro, e o medo dela impede de viver plenamente o presente”.

Para os existencialistas: “A consciência da finitude é o que dá sentido à vida”.

Na minha visão, vale o que vale e até posso vir a mudar de opinião, não existe medo da morte. Aquilo que há, dentro de quem diz sentir medo da morte, é, na verdade, medo de sofrer na hora da morte. Ninguém, em perfeito juízo, pode sentir medo de algo que desconhece e sobre o qual nada mais se sabe para além da certeza de ser o fim da vida, tal qual a concebemos e entendemos. Contudo, todos sabem que a maioria das mortes comporta um final doloroso, angustiante, lento e até violento. E é disso que a humanidade tem medo; da dor, do sofrimento, da angústia, da incerteza, enfim, da espera.

Não existe medo do desconhecido, há apenas medo do que se conhece. E para combater esta realidade, Friedrich, na tentativa de desmistificar o medo da morte, estou inclinado a prescrever a sua fórmula: “O que não me mata, fortalece-me”.


Pensativo

Emanuel Lomelino

terça-feira, 21 de abril de 2026

Prosas de tédio e fastio 135 - Emanuel Lomelino

Prosas de tédio e fastio 

135


Olho o cinzentismo deste céu indisposto, solidarizo-me com o seu mau-humor por ver os meus planos irem água abaixo e penso, de mim para comigo: «raios partam»!

Acho que me escutou os pensamentos e oiço-o resmungar um trovão, cujo ribombar ainda ecoa no interior de cada osso do meu corpo.

Acto contínuo, fico a observar o dia pardacento com saudades da caminhada que não posso fazer por culpa deste chove que não chove.

Então, para levantar a moral e ganhar um brilhozinho nos olhos, vem-me à ideia uma “sergiogodinhada” e decido escrever. Para mal dos meus pecados, nada valoroso me ocorre.

Mas como homem prevenido vale por dois, faço das tripas coração e, numa inversão de marcha, opto por executar um plano “b”, porque quem não tem cão caça com gato e mais vale um pássaro na mão…

Assim sendo, procuro na linha do tempo algumas palavras que me sirvam de agasalho ao estro e encontro, entre revelações de alma e outras algaraviadas, um texto que faz cócegas neste meu espírito desanimado.

Depois de, silenciosamente (como é meu apanágio), rir a bandeiras despregadas, escolho dar corda ou rédea solta às metáforas e mergulhar de cabeça numa empreitada de expressões idiomáticas. De louco todos temos um pouco e quem vê caras não vê corações (a inversa também é válida).

Posto isto, agora que me deitei na cama que fiz e já sinto água pela barba pelas frondosas correntes de baboseira derramada, sinto que devo agradecer a inspiração divina a uma simples consulta de rotina, mais acrobática do que a ida ao ginásio, cujo diagnóstico se resume a chá e torradas.

Ah, é favor não esquecer o “Omeprazol” porque não se deve consumir comprimidos de estômago vazio.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Prosas de tédio e fastio 134 - Emanuel Lomelino

Prosas de tédio e fastio 

134


Como posso, em sã consciência, escrever sobre os males que teimam em sobrevoar a minha existência quando, olhando os telhados vizinhos, vejo sombras mais densas do que as minhas?

Como posso, com nobreza, cerzir as luzes que me ofuscam nas pautas deste caderno quando, ao alcance de um vislumbre furtivo, observo o negrume que ilumina outros castelos de areia?

Como posso, com honradez, adjetivar a lassidão que gravita na órbita dos meus dias quando, em rituais masoquistas, os verbos gritam marés-baixas pela fraqueza das luas alheias a mim?

Como posso, com integridade, desenhar as palavras mais adequadas aos meus silêncios quando, nas páginas alheias que pairam no meu olhar, leio abundantes e castradoras mordaças?

Como posso, na plenitude do rigor, contar a verdadeira origem destas escaras quando, no ar empestado de álcool e mercurocromo, sentimos o peso das cicatrizes nos sorrisos fingidos?

Como posso, no mais íntimo de mim, ignorar a falácia das minhas dores profundas quando, em universos perpendiculares ao meu, há ângulos e prismas que os espelhos negam refletir?

Como posso? Como podemos!

domingo, 19 de abril de 2026

No fundo do baú 164 - Emanuel Lomelino

Ler um bom livro é meio caminho andado para a descoberta e aprendizagem, mas reler algumas obras transcende esse horizonte e, não raras vezes, leva-nos a um entendimento mais amplo e a novas revelações.

Isso acontece por uma razão muito simples, nem sempre presente no nosso consciente… a cada livro lido transformamo-nos em leitores diferentes, porque a informação absorvida é um complemento intelectual que nos ajuda a melhorar a capacidade de raciocínio e percepção.

Se, a este facto, juntarmos a nossa maturação, enquanto indivíduos, fica óbvio que uma releitura será sempre diferente do primeiro contacto com o livro. Da mesma forma que uma terceira leitura produzirá entendimentos distintos. E assim por diante.

Neste contexto, a última releitura que fiz, de um texto estoico, proporcionou-me uma epifania, que me surpreendeu por só agora, nesta fase adiantada da vida, ter percebido – antes tarde que nunca – sobre o quão estreita é a linha que separa a filosofia da psicologia.

Que me perdoem, Freud e Lobo Antunes!