Prezado Albert,
Ontem,
em conversa com Nietzsche, sobre o medo da morte, abdiquei de usar a palavra “absurdo”
para qualificar esse sentimento, não por achar despropositado, mas sim porque,
no mais íntimo de mim, talvez no subconsciente, eu soubesse que retomaria o
tema consigo.
Nesta
temática da morte, há sempre pensamentos novos que se entrelaçam, como macramé,
e nos levam a observar múltiplos prismas, ver diferentes ângulos, analisar
distintas percepções.
Neste
contexto, dei por mim a pensar que, devido ao absurdo medo da morte, poucos se
apercebem que existe um preconceito, quase tabu, em falar abertamente da morte,
como se ela fosse algo totalmente fora de entendimento. Esta ideia acaba,
também ela, por ser um absurdo, porque o medo da morte não existe. O que há é
medo daquilo que leva à morte.
Em
nome desse medo, a generalidade das pessoas evita abordar o tema, como se, ao
ignorar a morte, conseguissem afastá-la. Neste ponto tenho de concordar com
Séneca quando disse que as pessoas vivem como se fossem imortais e só pensam na
morte quando ela está perto demais para ser ignorada.
Em nome de um medo sem fundamento, adiam-se decisões, gasta-se tempo com futilidades, praticam-se actos inúteis, vive-se o banal.
Haverá, porventura, algo mais absurdo e ridículo do que viver nos limites do medo, por culpa de uma irracionalidade? Haverá, porventura, algo mais absurdo e ridículo do que viver sem realmente se viver.
Reflexivo
Emanuel Lomelino
