terça-feira, 26 de maio de 2026

No fundo do baú 194 - Emanuel Lomelino

Sinto que estou a derramar-me até ao extremo do vazio; até ao limite da sensibilidade; até à falésia da consciência, qual abundante cascata de coisa alguma.

Nestes dias em que liquidifico a minha existência deixo de ser corpóreo, liberto-me das emoções, abraço a vacuidade profunda e agrilheto os pensamentos no mais esconso subterrâneo.

Embrulho-me na agudeza protetora e segura do silêncio absoluto e deixo o meu espírito vazado deambular pela neutralidade do espaço.

Somente o nada consegue ser, em mim, o equilíbrio, a prudência, a sensatez, a razão, o tão desejado porto de abrigo.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

No fundo do baú 193 - Emanuel Lomelino

Há uma heterodoxia evidente no silvo melífluo da brisa que beija as folhas de uma árvore. É um ciciar da natureza; um aviso intimista, mas tão expressivo quanto os brados das ondas que esculpem os maciços rochosos. Contudo, mantemo-nos indiferentes.

Existe um discurso, nas vozes das tempestades, que passa despercebido a olho nu. É um código do ambiente; um sinal de alerta, tão dual como o ressonar de um vulcão adormecido na antecâmara do seu estrondoso despertar. Contudo, mantemo-nos apáticos.

Há uma oscilação atmosférica em todas as épocas como um entrelaçar festivo de quadras temporais. É um sussurro climático; uma advertência tão cadenciada quanto o degelo dos mais primitivos glaciares. Contudo, mantemo-nos passivos.

Existe um tempo que se esgota como uma ampulheta quebrada. É a noção de perenidade a extinguir-se como o Cretáceo. Contudo, mantemo-nos impávidos porque essas coisas só acontecem aos outros. Quais outros?

domingo, 24 de maio de 2026

No fundo do baú 192 - Emanuel Lomelino

A turbulência dos dias não quer saber se o arco-íris é filho do sol e da chuva ou reflexo da cúpula que dá razão aos esfomeados terraplanistas.

De leste chegam uivos ogivados rugidos por gargantas mais inocentes do que gárgulas esquimós, enquanto, daquela janela aberta para o Tejo, ecoa uma voz de barítono com hálito de açorda e chamuça.

Nos carris do elétrico, encerados pela morrinha recente, deslizam saltos altos, “raios partam” e outros impropérios indiferentes às moedas, largadas à laia de piedade, no boné do humorado maltrapilho, que tem banca permanente no adro da igreja e um cartaz a informar: multibanco avariado.

Na porta da tasca sorvem-se ginjinhas espirituosas e lançam-se olhares – cada um com o seu significado – para os “camones” na esplanada e aos que passam, de mochilas às costas e ansiosos por fotografar os azulejos quebrados das fachadas devolutas.

O céu anuncia o anoitecer precoce de mais um domingo e não há tempo a perder com notícias de Gaza ou Kiev porque é dia de clássico na tv e expulsão num reality show.

sábado, 23 de maio de 2026

No fundo do baú 191 - Emanuel Lomelino

Sou um leitor híbrido. Embrenho-me em romances, contos, filosofia, antropologia, história, ciências, crónicas, ensaios, prosa poética e poesia, como quem procura respostas a perguntas que ainda não fez.

Leio contemporâneos e antigos, essencialmente clássicos, com o objectivo de expandir os meus conhecimentos e, com isso, alargar horizontes e aperfeiçoar as minhas técnicas criativas.

Nessa fome por sapiência, mais do que ler, devoro livros atrás de livros, com plena consciência de que o estômago literário jamais ficará saciado.

No entanto, a conclusão mais relevante desta gula está no facto de que, das léguas de palavras lidas, tal como admitiu Adam Zagajewski, assimilei apenas “farrapos” de entendimento. O resto, sobra-me a esperança, um dia conseguirei compreender.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

No fundo do baú 190 - Emanuel Lomelino

Não há sol que ilumine os íngremes caminhos sombrios que o fado obriga a percorrer, sem desvios.

A luz dissipa-se a cada encruzilhada como se as copas das árvores fossem uma cortina fechada para o céu.

Os passos sincopados, numa lentidão desesperante, soam a desencanto e nada pode ser feito para que a viagem enalteça o espírito.

Olhar para trás também não se revela uma melhor opção porque a lonjura parece idêntica – senão maior.

Resta seguir adiante, na esperança de que, apesar do negrume, a caminhada possa ser feita com o mínimo de percalços e a vastidão subterrânea seja substituída por extensas planícies pintadas de verde e luz. 

Pouco importa a escuridão dos dias quando o final do túnel ainda está à distância de uma vida inteira.