sexta-feira, 17 de abril de 2026

No fundo do baú 162 - Emanuel Lomelino

Durante anos defendi uma norma de vida que consistia em ouvir o dobro daquilo que falava, usando como argumento o facto de termos dois ouvidos e somente uma boca. O conceito é básico, quase pueril, no entanto, é dotado de uma lógica, quase, irrepreensível.

Por ter uma mente inquisitiva, comecei a pensar numa forma de ultrapassar o problema que o advérbio de modo “quase” colocava. Ele sugere falibilidade e também é lógico, porquanto, numa conversa entre duas pessoas, é impossível que ambas escutem o dobro do que falam.

Como resolver este paradoxo?

A solução parece ainda mais infantil ou rebuscada, mas a própria natureza deu-nos as pistas através da anatomia. As orelhas são laterais e simétricas, e isto significa que o importante não é ouvir em dobro, mas sim escutar de modo harmonioso.

Nesta perspectiva cheguei à conclusão de que o conceito inicial era falho e aquele que passei a usar traduz-se numa palavra aplicável à forma como se ouve (equilíbrio) e outra ao que se fala (temperança). E estes dois substantivos são indissociáveis.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

No fundo do baú 161 - Emanuel Lomelino

Existem tantos predicados nascidos da leitura que, por mais qualificantes que possamos encontrar, nada adjectiva melhor a leitura do que a palavra “edificar”.

Com maior ou menor grau; com mais ou menos intensidade, cada livro engrandece o leitor a diferentes níveis.

Sim, ler edifica o individuo. E o melhor exemplo dessa realidade incontornável revela-se-nos quando damos conta de estarmos a reflectir sobre o que acabámos de ler.

Essas reflexões, cujo propósito, ou utilidade, nunca devem ser menosprezadas, sintetizam-se numa frase, que Carl Jung usou num outro contexto, mas que se aplica na perfeição:

Quem procura, fora de si, sonha, quem procura, dentro de si, desperta.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

No fundo do baú 160 - Emanuel Lomelino

Não importam as estações. Todos os dias, de uma semente-ideia, que rasga a membrana plasmática, germinam palavras, quais rebentos de engenho, com esperança de se transformarem em frutos literários.

Os estágios de crescimento correspondem ao ciclo natural da vida, desde o nascimento até ao amadurecimento.

É um processo normal, contudo, de imensurável aleatoriedade temática. Mesmo assim, não dispensa polinização e terra fértil.

Depois da ceifa, segados os caules mais robustos, peneira-se o trigo do joio e separa-se cada grão para o respectivo recipiente.

Uns vão para a mó, outros para a sequeiro, e os restantes ficam armazenados para que, naqueles momentos de colheita fraca, seja possível manter o estro gordo.

terça-feira, 14 de abril de 2026

No fundo do baú 159 - Emanuel Lomelino

Imagem pinterest

Muito por conta do gene mais decisivo do estro e por não conceber criação sem literacia, imponho-me absorver o máximo de conhecimento sobre matérias essenciais, mesmo daquelas em que não me revejo, mas que podem aportar elementos teóricos úteis ao meu ofício, até por oposição.

Esta busca por entendimento mais vasto em géneros, estilos e propostas literárias distintas, que deveria ser transversal a todo o universo da escrita, proporciona-me muitos momentos de reflexão interessante.

Neste contexto, e apesar de perceber os conceitos base do concretismo, tenho uma dúvida que só pode ser esclarecida por quem navega neste movimento literário.

Como se conseguem ler textos concretistas a um cego, de forma que os elementos espaciais não sejam omitidos, ou prejudicados por descrições intermediárias?

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Epístolas sem retorno 52 - Emanuel Lomelino

Franz Kafka
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Caro Franz


Não sei se foi propositado ou casual, mas a história absurda de Samsa, alertando para a existência de uma linha muito ténue entre o amor incondicional e a devoção interesseira, tem paralelo com aquelas fábulas em que ninguém quer saber do sapo ou do patinho feio e depois, após a transformação física, todos adulam. A única diferença reside no facto de Samsa, enquanto provia todo o mundo, abdicando de si mesmo, ter vivido na ilusão de ser amado e nunca ter percebido, até à metamorfose, que o seu altruísmo era recompensado com bajulação e não com amor verdadeiro.

Felizmente, nunca precisei de uma mudança tão radical para compreender que a maioria dos afetos recebidos raramente derivam do gosto pelo que somos, dizemos ou fazemos, mas sim pelo benefício que os outros conseguem retirar de nós.

Deixemo-nos de fábulas. Uma coisa é a precepção que temos do mundo, com todos os arco-íris e unicórnios, outra bem distinta é a verdade desse mesmo mundo.

É por tudo isto que sinto maior facilidade em acreditar na aspereza de um “não” do que na docilidade de um “sim”.


Fiel ao meu eu

Emanuel Lomelino