Interessante como nos tempos modernos
ainda existe quem pense que fazer um livro é colocar uma capa em redor de um
monte de textos dactilografados.
Impressionante como nos nossos dias
ainda existe quem pense que espartilhar textos em versos, alguns de forma
disforme, pode ser considerado poesia.
Invariavelmente, neste universo de
consumismo, ainda existe quem acredite que escrever, tal qual se fala e vive, e
sem pensamento crítico, é um contributo para o desenvolvimento cultural de um
povo e sua língua.
Infelizmente, nesta era de avanços
tecnológicos, ainda existe quem negue a pureza e a perfeição da escrita dos
tempos analógicos, como se o acto de escrever tivesse nascido milénios depois
da própria escrita.
Intrigante como neste nosso tempo, de
suposta escassa literacia, ainda existe quem assuma que ler contamina a sua
escrita e restringe a capacidade criativa.
Inquietante, como numa época de
pluralidade, ainda existe quem queira que as palavras, tanto escritas como
lidas, sejam privilégio de alguns e não direito de todos.
Incoerente como ainda existem
iluminados que, não se sabendo quem lhes outorgou a tarefa, querem ditar novas
regras para a escrita porque são contra todas as regras.
Imbecilmente, neste tempo de muitas
liberdades adquiridas, ainda há quem sinta as suas mais legitimas que as dos
outros.
Ironicamente, neste tempo que é nosso,
ainda há quem não saiba interpretar cada inflexão deste texto deduzindo ainda
menos do que, reduzidamente, aborda.
Inspiram-se sem pensar e depois
chamam-se escritores.