domingo, 24 de maio de 2026

No fundo do baú 192 - Emanuel Lomelino

A turbulência dos dias não quer saber se o arco-íris é filho do sol e da chuva ou reflexo da cúpula que dá razão aos esfomeados terraplanistas.

De leste chegam uivos ogivados rugidos por gargantas mais inocentes do que gárgulas esquimós, enquanto, daquela janela aberta para o Tejo, ecoa uma voz de barítono com hálito de açorda e chamuça.

Nos carris do elétrico, encerados pela morrinha recente, deslizam saltos altos, “raios partam” e outros impropérios indiferentes às moedas, largadas à laia de piedade, no boné do humorado maltrapilho, que tem banca permanente no adro da igreja e um cartaz a informar: multibanco avariado.

Na porta da tasca sorvem-se ginjinhas espirituosas e lançam-se olhares – cada um com o seu significado – para os “camones” na esplanada e aos que passam, de mochilas às costas e ansiosos por fotografar os azulejos quebrados das fachadas devolutas.

O céu anuncia o anoitecer precoce de mais um domingo e não há tempo a perder com notícias de Gaza ou Kiev porque é dia de clássico na tv e expulsão num reality show.

sábado, 23 de maio de 2026

No fundo do baú 191 - Emanuel Lomelino

Sou um leitor híbrido. Embrenho-me em romances, contos, filosofia, antropologia, história, ciências, crónicas, ensaios, prosa poética e poesia, como quem procura respostas a perguntas que ainda não fez.

Leio contemporâneos e antigos, essencialmente clássicos, com o objectivo de expandir os meus conhecimentos e, com isso, alargar horizontes e aperfeiçoar as minhas técnicas criativas.

Nessa fome por sapiência, mais do que ler, devoro livros atrás de livros, com plena consciência de que o estômago literário jamais ficará saciado.

No entanto, a conclusão mais relevante desta gula está no facto de que, das léguas de palavras lidas, tal como admitiu Adam Zagajewski, assimilei apenas “farrapos” de entendimento. O resto, sobra-me a esperança, um dia conseguirei compreender.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

No fundo do baú 190 - Emanuel Lomelino

Não há sol que ilumine os íngremes caminhos sombrios que o fado obriga a percorrer, sem desvios.

A luz dissipa-se a cada encruzilhada como se as copas das árvores fossem uma cortina fechada para o céu.

Os passos sincopados, numa lentidão desesperante, soam a desencanto e nada pode ser feito para que a viagem enalteça o espírito.

Olhar para trás também não se revela uma melhor opção porque a lonjura parece idêntica – senão maior.

Resta seguir adiante, na esperança de que, apesar do negrume, a caminhada possa ser feita com o mínimo de percalços e a vastidão subterrânea seja substituída por extensas planícies pintadas de verde e luz. 

Pouco importa a escuridão dos dias quando o final do túnel ainda está à distância de uma vida inteira.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

No fundo do baú 189 - Emanuel Lomelino

A pele manchada, de múltiplas e árduas batalhas, exibe com sofreguidão todas as escaras acumuladas, que se sobrepõem umas às outras, como se a derme fosse um transporte público apinhado de gente em hora de ponta, quase sem espaço para respirar.

O cansaço e as nódoas negras empilham-se no corpo e, por mais forte que seja a nossa resistência, fazem esmorecer todos os ímpetos, todos os desejos, toda a força interior, como se as vontades, quais seres independentes de nós, quisessem tomar as rédeas da vida e levar-nos por caminhos diferentes, diametralmente opostos ao pretendido.

No pensamento aflora a ideia de mandar os planos às malvas, abdicar dos propósitos iniciais e aceitar, com resignação, a tristeza dos fados sem melodia, qual Sísifo conformado com a inevitabilidade da sua sorte.

Nestes dias, de moral fragmentada, encontro a salvação nas palavras dos sábios que habitam a minha cabeceira, ganho mais uns traços na bateria que me energiza e volto a acreditar que todo o esforço, sangue, suor, lágrimas e corpo inchado, levar-me-ão ao porto ambicionado.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

No fundo do baú 188 - Emanuel Lomelino

Já escrevi inúmeros textos sobre a legitimidade universal que a escrita outorga. Todos, sem excepção, podem, e devem, exercer essa actividade sem rodeios nem receios, independentemente das razões adjacentes, subjacentes, laterais ou de fundo.

Escrever é mais do que um direito, é um dever. Pela defesa libertária; pela identidade; pela diferença; e sobretudo pelo legado que carregamos, e que deve ser respeitado, preservado e prolongado, para que as gerações vindouras não percam o rastro às suas raízes e, também eles, sintam que devem contribuir nessa perpetuação.

Não existe história sem registo. Não existe noção do passado sem que a memória seja celebrada, e a melhor forma de o fazer é colocar tudo por escrito.

Mas a história de um povo, de uma civilização, não se limita a referências factuais e a acontecimentos quotidianos colectivos. Ela também resulta de pensamentos críticos, ensaísticos ou lúdicos, ficção, criatividade, inovação, singularidade…

Por essas razões defendo que todos devem escrever, seja sobre o que for, de que forma for, e com as motivações que lhes aprouverem. O importante é escrever. Escrever muito.

Depois… o tempo encarregar-se-á de separar o trigo do joio.