quinta-feira, 4 de junho de 2026

No fundo do baú 203 - Emanuel Lomelino

Definitivamente, não vale a pena entrega total, dedicação absoluta, sacrifícios contínuos nem perseverança.

Mais dia, menos dia, de um momento para o outro, com culpa ou sem ela, há desinflação na utilidade e o interesse esbate-se como tinta gasta pelas agruras das estações.

A memória é frágil, oposta ao impulso, e as cortinas do tempo fecham como se tudo fosse um palco vazio após o último acto de uma qualquer peça de teatro em fim de digressão.

Talvez exista um interruptor para acender e apagar as vontades que se julgavam mútuas e, porque nunca o foram, vida que segue.

As coisas são mesmo assim. Um dia chega a fatura e, das duas uma, paga-se um valor exorbitante pelo simples facto de ser-se ou é-se descartado como farrapos velhos ou embalagens vazias. E não importa reclamar, bater o pé ou contestar. Tudo tem prazo de validade. Inclusive nós.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

No fundo do baú 202 - Emanuel Lomelino

Chegará o dia em que o ritmo cardíaco de um beija-flor será uma lembrança nostálgica de um mundo perdido e seremos acometidos pela saudade dos caleidoscópicos colibris e dos afagos gauleses e atrevidos que depositam em cada flor, em troca de néctar açucarado.

Nesse momento seremos alvejados pelos olhares acusadores dos brincos-de-princesa e estrelícias, como fossemos sinónimo de extermínio e a nossa existência significasse apocalipse.

Confrontados com a impossibilidade de redenção, veremos mariposas desfalecer à nossa passagem, as açucenas e os nenúfares vão murchar e as estrelas apagar-se-ão, como carregássemos uma longa e necrófaga foice.

Então, cabisbaixos e corroídos pelo remorso da indiferença, lançar-nos-emos, dos precipícios mais íngremes, numa espiral de lamentos inócuos e falhos, como se esse acto de contracção nos redimisse do egoísmo com que polvilhámos o solo que nos pariu.

Somos a génese do nosso próprio cataclismo.

terça-feira, 2 de junho de 2026

No fundo do baú 201 - Emanuel Lomelino

Não me impinjam pessoas de utópicas esperanças, grávidas de vertigens fúteis e especializadas em esturjão. Prefiro o cheiro destas páginas – genéricas das tertúlias de Montmartre – que são como geniais pautas de tangos tropeçados nos pátios da Graça, perfumados a arroz de cabidela.

Não me imponham falsas marés de fortuna, com suas ondas de fama adquirida ao preço de vénias heréticas. Prefiro o anonimato sombrio destas salas de papel reciclado, que pululam nas inúmeras Varsóvias lusas que tresandam a tabaco contrabandeado.

Não me poluam com essas histórias imberbes sobre a importância dos lugares-comuns e dos matizes de um arco-íris furtuito. Prefiro a policromia cega da consciência popular que se traduz no linguajar das guitarras harmónicas que decoram as tasquinhas e pedem cálices de ginjinha e sangria.

Não me peçam para ser contranatura e renegar José Régio. A ironia cansada dos meus olhos arrasta-me, com meu consentimento, pelos loucos caminhos da individualidade. E sigo, passo a passo, com o bolso carregado de verdades minhas e algumas de Botto, O’Neill, Ary e Ruy Belo.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

No fundo do baú 200 - Emanuel Lomelino

Acordo com a melodia cadenciada de chuva tocada a vento, que beija a janela do quarto. Recolho-me no conforto quente dos lençóis de linho e sinto a frescura gélida da mão esquerda que havia-se rebelado, pernoitando no lado externo do edredão. Recuso olhar o relógio.

Oiço o som inconfundível de borracha a deslizar na água, deduzo a passagem de um carro elétrico e a quantidade de precipitação acumulada na estrada. A iluminação da rua permite-me ver a sombra dos ramos, da Tília-de-folhas-grandes ainda despida pelas estações, e a corrida irregular das gotículas que deslizam na janela. Recuso olhar o relógio.

Os sons invernais recuam-me os pensamentos até ao início da adolescência, cerro os olhos, enrolo-me nas dores de meio século, e deixo-me cair num sono modorrento e nostálgico.

Mais um carro que passa. E outro. E outro. E a estridência do despertador mata-me a inocência de um sonho breve, retornando-me à realidade de mais um dia de tormenta – não só climatérica – porque a poesia é fado e infortúnio.

domingo, 31 de maio de 2026

No fundo do baú 199 - Emanuel Lomelino

O discernimento vem com a idade e é nesse momento que as epifanias brotam como água em fonte inesgotável.

O trigo já aparece separado do joio; os coxos são mais esguios do que os trapaceiros; as duas faces das moedas são indisfarçavelmente distintas; todos os bois, além de nome próprio, também têm apelido, proveniência e intenções patenteadas; as utopias e os dogmas perdem importância; as sombras esbatem-se; os brilhos deixam de ofuscar; a lucidez é rainha; o medo é bobo; a vida é um fiapo de tempo; a morte é uma inevitabilidade e continua a ser um mistério.

Mas toda esta perspicácia às vezes fere. É uma quase automutilação. Vil, sanguessuga, vampiresca, medonha, assustadora. E dá vontade de saber menos do que na adolescência, ser inconsequente, inanimado, como uma página ingenuamente branca.