Apesar
de já ter idade para ser considerado “velho do Restelo”, não tenho, por
vocação, o hábito de fazer apologias do passado para contrapor ao presente. As
coisas são como são, o mundo evolui e só temos de nos adaptar, o melhor que
conseguirmos.
No
entanto, por vezes, dou por mim a pensar na diferença que existe entre a vida
quotidiana e o meu tempo de adolescente. Ainda não fui capaz de encontrar uma
resposta definitiva que explique a razão de, hoje, com todos os avanços
tecnológicos e a informação disponível num piscar de olhos, estarmos sempre sem
tempo, enquanto, lá atrás, tínhamos uma vida agitada e ainda sobrava tempo.
Dizem-me
que hoje tudo depende e acontece no expoente máximo da celeridade e isso é o
motivo principal para o tempo ser gerido de forma diferente. Não sei como
contestar esta visão porque, bem vistas as coisas, é possível nomear inúmeras
situações que atestam essa realidade.
Antigamente
remendavam-se as peças de roupa rombas. Fazia-se mais um furo no cinto.
Compravam-se botões para substituir os que se perdiam. As calças velhas viravam
calções. As toalhas e lençóis eram transformados em panos de limpeza. Punha-se um calço na perna bamba da mesa. Hoje
deita-se tudo fora e compra-se novo porque é mais fácil e rápido.
E
esta nova forma de agir abrange também as interacções humanas. Ninguém tem
tempo para encontrar soluções e resolver os problemas do dia-a-dia.
Simplesmente vira-se a página porque tudo ficou sujeito a prazo de validade e
nada, nem ninguém, consegue escapar à condição de descartável.