terça-feira, 14 de abril de 2026

No fundo do baú 159 - Emanuel Lomelino

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Muito por conta do gene mais decisivo do estro e por não conceber criação sem literacia, imponho-me absorver o máximo de conhecimento sobre matérias essenciais, mesmo daquelas em que não me revejo, mas que podem aportar elementos teóricos úteis ao meu ofício, até por oposição.

Esta busca por entendimento mais vasto em géneros, estilos e propostas literárias distintas, que deveria ser transversal a todo o universo da escrita, proporciona-me muitos momentos de reflexão interessante.

Neste contexto, e apesar de perceber os conceitos base do concretismo, tenho uma dúvida que só pode ser esclarecida por quem navega neste movimento literário.

Como se conseguem ler textos concretistas a um cego, de forma que os elementos espaciais não sejam omitidos, ou prejudicados por descrições intermediárias?

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Epístolas sem retorno 52 - Emanuel Lomelino

Franz Kafka
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Caro Franz


Não sei se foi propositado ou casual, mas a história absurda de Samsa, alertando para a existência de uma linha muito ténue entre o amor incondicional e a devoção interesseira, tem paralelo com aquelas fábulas em que ninguém quer saber do sapo ou do patinho feio e depois, após a transformação física, todos adulam. A única diferença reside no facto de Samsa, enquanto provia todo o mundo, abdicando de si mesmo, ter vivido na ilusão de ser amado e nunca ter percebido, até à metamorfose, que o seu altruísmo era recompensado com bajulação e não com amor verdadeiro.

Felizmente, nunca precisei de uma mudança tão radical para compreender que a maioria dos afetos recebidos raramente derivam do gosto pelo que somos, dizemos ou fazemos, mas sim pelo benefício que os outros conseguem retirar de nós.

Deixemo-nos de fábulas. Uma coisa é a precepção que temos do mundo, com todos os arco-íris e unicórnios, outra bem distinta é a verdade desse mesmo mundo.

É por tudo isto que sinto maior facilidade em acreditar na aspereza de um “não” do que na docilidade de um “sim”.


Fiel ao meu eu

Emanuel Lomelino

domingo, 12 de abril de 2026

No fundo do baú 158 - Emanuel Lomelino

Desde a origem (nascimento), o humano tenta encontrar o seu propósito na vida, porque é absurdo a vida não ter um propósito. No entanto, pensando que todas as vidas fluem para a morte, é um absurdo que o propósito da vida conduza à morte. Mais absurdo é pensar em procurar um propósito para a vida sabendo que, encontrando ou não um propósito, tudo tem o mesmo fim: a morte.

Seguindo essa linha de pensamento, chegamos à conclusão de que o propósito da vida é a própria morte.

Contudo, na discussão deste tema, muitos alegam que o propósito da vida não é a morte, mas sim prolongar a própria vida, através da descendência. De certa forma arranja-se um sentido, mas nesse caso surgem outras questões: Sendo esse o propósito da vida, como se explica a existência de seres incapazes de procriar? Qual o propósito de vida daqueles que não podem criar descendência? A existência de procriadores e não-procriadores não significa, por si só, que o propósito da vida não é prolongar a vida?

Se, independentemente das respostas, deduzirmos que esta segunda linha de raciocínio pode estar correcta, embora seja um absurdo pensar que o propósito de vida só se aplica a alguns, então podemos concluir que o propósito de vida deambula entre o absurdo e o trágico. E, dos dois, não sei qual é pior.

sábado, 11 de abril de 2026

No fundo do baú 157 - Emanuel Lomelino

O conceito de liberdade tem sido discutido, até à exaustão, pelos pensadores mais relevantes, mas estamos bem longe de atingir o consenso.

Há quem defenda que a liberdade existe a partir do momento em que estamos na presença do uso de livre-arbítrio. Outros defendem que a liberdade é uma ilusão porque as nossas decisões são sempre condicionadas por noções de “bem” e “mal”.

O problema é que ambas as ideias também introduzem na discussão o factor ética, que consegue ser um conceito ainda mais divergente.

Partindo do pressuposto que a liberdade de cada um termina no exacto ponto onde começa a liberdade do outro, façamos um exercício.

Imaginemos que estamos num autocarro e entra alguém a escutar música em alto som. Todos os passageiros têm o direito de não serem incomodados, no entanto, aquele que houve música tem o direito de fazê-lo.

Perante este cenário, e baseando-nos nas duas ideias expressas anteriormente, as perguntas imediatas são:

1 – Onde está o limite do livre-arbítrio de cada um?

2 – Que valor ético é aplicável neste caso e quem o determina?

3 – Que solução podemos encontrar para que, no exemplo dado, sejam respeitadas as liberdades de todos?

Confesso que não sei a resposta a nenhuma das questões.

Aquilo que sei é que, enquanto não se chegar a um consenso generalizado, continuaremos a ver a liberdade ser confundida com libertinagem.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

No fundo do baú 156 - Emanuel Lomelino

As guerras têm, por génese, motivações que, ao contrário do, publicamente, apregoado, são sempre de interesse particular e nunca colectivo. Foi assim no passado, é assim no presente, e será assim no futuro. Perante conflitos armados, as sociedades manifestam-se ruidosamente, durante algum tempo para, pouco a pouco, deixarem esmorecer a indignação até ficarem conformadas e, por fim, indiferentes, desde que seja longe das suas fronteiras.

Mas tudo poderia ser diferente se, em vez de solidariedade em garrafas de água e mantas quentes, aproveitássemos para, satisfazendo o apetite moderno pelos “reality shows” e com as ferramentas que a internet dispõe, criar uma superliga de combates, corpo a corpo, entre os líderes mundiais em beligerância. Vendiam-se os direitos de transmissão para as plataformas de “streaming”, faziam-se contratos de patrocínio com as maiores marcas desportivas e automóveis, e com as casas de apostas, criava-se todo um novo negócio em torno dos eventos e, cereja no topo do bolo, conseguia-se que os níveis de abstenção, nas eleições, diminuíssem drasticamente. Bem vistas as coisas, quem não iria, de bom grado, escolher o representante do seu país para essa competição?