sábado, 7 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 97 - Emanuel Lomelino

Gosto de abrir os livros às vozes do passado e deixar-me envolver pelos trâmites de outrora.

Passeio nas diligências do saber pretérito, percorro trilhos e veredas, pernoito em albergues e estalagens, atravesso aldeias e lugarejos, escuto as modinhas camponesas, os fandangos ciganos, as valsas aristocratas.

Navego em caravelas, trirremes, faluas e outros batéis, lado a lado com marujos e outros navegantes.

Monto dromedários nos desertos, iaques himalaias, jumentos bérberes, cavalos mongóis, elefantes asiáticos, licórnios e outras mitologias.

Embrenho-me em jardins sumptuosos, bosques, florestas, searas, prados, castelos, palácios, cárceres, coliseus, fóruns, becos e tabernas.

Escuto filosofias e saberes milenares, observo comportamentos seculares, respiro superstições e crenças intemporais, bebo conhecimento universal, entro em estreito contacto com culturas eternas.

Depois fecho os livros e pondero no que aprendi sem acreditar na remissão da humanidade nem na absolvição dos desvios da modernidade.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 96 - Emanuel Lomelino

A necessidade de trabalhar nas palavras é, mais que um dever imperativo, a solução para desanuviar a mente depois das escoriações provocadas pela dureza de um dia interminável.

Há uma urgência de reflexão que lateja no âmago até roçar o desespero e o corpo exige uma pausa restauradora, só atingida num estágio de solidão física e na ausência de lucidez da dor.

Respiro fundo. Fecho os olhos. Abstraio os sentidos. Sacudo os incómodos. Abraço o silêncio. Entro no universo do vazio. Nada.

Inspiro lentamente, como quem absorve o tempo a conta gotas. Olho a folha branca que espera, pacientemente, o primeiro beijo de tinta. Expiro como quem dá o tiro de partida, deixo que as palavras fluam a seu bel-prazer e abracem, com serenidade, a paz instalada.

Com elas surge a libertação suprema. Através delas instala-se uma harmoniosa conciliação com o mundo; com a vida; comigo.

Escopros, ponteiros, macetas, hematomas, esfoladelas, sangue, suor, cansaço (não necessariamente por esta ordem) deixam de significar penosa realidade e, aqui, regressam à sua condição de meros vocábulos.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 95 - Emanuel Lomelino

Em criança, logo, numa fase prematura e ingénua da minha existência, comecei a acumular alguns sonhos, como tesouros preciosos que defenderia com a própria vida.

O tempo encarregou-se de concretizar uns, eliminar outros, substituir alguns e frustrar a maioria.

Os anos passaram, comecei a ver o mundo com outras cores e aprendi a delinear os objectivos com outra precisão, porque a experiência assim o exigia, mas sempre sem deixar de sonhar grande.

Durante a caminhada foram muitas as adversidades impossíveis de contornar que me obrigaram a fazer escolhas e a ser mais criterioso. Então deixei de ser um acumulador de sonhos para me transformar em coleccionador de projectos por realizar.

À falta de oportunidade, ou capacidade, para levar tudo a bom porto, apertei mais a malha da exigência e segui na luta escolhendo as batalhas a travar.

Porém, porque a vida apresenta muitas encruzilhadas e o cansaço dos desaires não mata, mas mói, fui deixando cair grande parte da bagagem sonhada para dar algum alívio às costas.

Foi nesse momento que percebi que o meu sonho maior, que apenas vagueava no meu inconsciente, foi o único que sobreviveu à caminhada, resistindo a todos os meus tropeços, enganos e quedas.

Feitas as contas, não fui eu que concretizei este sonho. Foi ele que me filtrou.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 94 - Emanuel Lomelino

Não sei se alguém já escreveu uma tese de doutoramento, sobre genética, abordando a possibilidade do ADN humano conter um gene oleiro. Acredito que, estudando o assunto de forma aprofundada, há grandes probabilidades de ser um ótimo tema para dissertação, uma vez que podemos encontrar inúmeras provas que nos levam a considerar como possível a existência desse gene.

Nos primeiros anos de vida, todos nós, sem excepção, somos moldados pelos país e professores. Este processo, chamado educação, é socialmente aceite, por se tratar de simples transmissão de conhecimento.

No entanto, depois de ultrapassada essa fase de aculturamento natural, em muitos momentos da nossa vida, encontramos muita gente com a pretensão de nos moldar segundo os seus critérios, procurando adequar a nossa forma de agir e pensar, não ao que mais nos convém, mas sim ao que melhor serve os seus interesses.

Outros há que nos querem “embelezar” dentro dos seus próprios padrões estéticos, sempre em mutação, como se estivéssemos numa linha de montagem para produção em série e permanente reciclagem.

O maior problema desta realidade é que o hábito de produzir clones, culturais ou plásticos, já está tão enraizada nas sociedades modernas que, pasmem-se os incrédulos, até os próprios clonados são responsáveis pelas novas clonagens.

E são tantas as pessoas com essa tendência ceramista que não é difícil acreditar na existência de um gene específico. Falta só aparecer a tal tese de doutoramento.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 93 - Emanuel Lomelino

Imagem retirada da internet

Dei-me a liberdade de ignorar o tempo, e o clima, e iniciei a caminhada sem destino premeditado.

Deixei-me guiar pelo instinto e permiti-me mergulhar nos pensamentos de forma deliberada.

Pesei, na balança da consciência, os prós e contras de todas as possíveis decisões para a resolução das minhas dúvidas mais prementes.

Cirandei, pelas ruas da cidade que me enche as medidas, mesmo não sendo minha, quase em piloto automático. Apenas andando de mãos dadas com as reflexões.

Nesta deambulação, dei por mim a entrar na livraria por impulso, como se aquela porta fosse apenas mais uma esquina contornada, parei diante de um livro de capa preta, peguei-o, girei-o noventa graus, juro que sorri, levei-o à caixa, paguei, sai.

Fiz a caminhada de regresso, já sem pensar na vida. Apenas me indaguei sobre a razão de ter entrado naquela livraria, pela primeira vez em trinta anos, pegado no primeiro livro que cruzou o meu olhar e sentir que a caminhada, supostamente feita ao acaso, afinal, estava previamente destinada – por vontade de Nietzsche.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 92 - Emanuel Lomelino

Abram as portas do fórum e permitam que todas as testemunhas dissertem como lhes aprouver. Escutem as versões de cada uma delas, como quem escuta um hino – em reflexão silenciosa e contemplativa.

Anotem todas as denúncias, cismas, queixas, dúvidas, melindres, temores, desconfianças, suspeitas e imputações. Deixem-nas fazer todas as acusações. Anotem tudo. Deliberem na independência do vosso juízo e sentenciem - se tiverem de o fazer.

Eu, na qualidade de réu assumido, limitar-me-ei a escutar todos os relatos, como quem se delicia ao ouvir os contos mais fantasiosos, plenos de drama e repletos de “achismos”.

Seja qual for o desenlace, seja qual for o entendimento deste tribunal, nascido da vontade protagonista e alavancada em propósitos coscuvilheiros, receberei os autos de pronunciamento como quem anseia ler o argumento adaptado, para cinema, de uma ficção sensaborona.

Por mais que tentem, nunca conseguirão biografar o meu trajecto, a minha caminhada, os meus conceitos, as minhas decisões, sendo fiéis aos acontecimentos, sem que eu decida favorecê-los com a única verdade que me define – a minha.

Até lá, e para não caírem no ridículo, sugiro que no final da vossa colectânea de adivinhação coloquem a frase: “toda e qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência”.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 91 - Emanuel Lomelino

Quando visto o uniforme para garimpar o que sou, olho-me ao espelho e louvo os traços que o tempo vincou no meu rosto, com a maestria que só ele possui.

Vejo minuciosamente, de lupa em riste, e não detecto ruga mal colocada, ou nascida sem razão. Todas se explicam, e aplicam, na minha essência, como um traje feito à medida, por encomenda.

Na aspereza natural da derme curtida, destacam-se algumas cicatrizes merecidas, outras tantas por negligência, mais algumas que, embora saradas, ainda tem memória dolorida.

Então, tento lembrar-me das minhas feições imberbes, como quem se entrega à tarefa de descobrir as diferenças, porque todas as fotos deixaram de estar em exposição quando foram colocadas nos álbuns do esquecimento. Nenhuma escapou à crueldade do engavetamento, não fosse alguma lembrar-se de ganhar vida e azucrinar, com feitio igual ao meu, o dia-a-dia de alguém.

E assim, quase sem traços visíveis da aparência anterior, mas honrado pelo desenho do tempo, caminho de cabeça erguida mostrando ao mundo a prata que a vida me vem outorgando.

sábado, 31 de janeiro de 2026

No fundo do baú 90 - Emanuel Lomelino

Todos criticam a existência do “Grande Irmão”, mas, em simultâneo, querem ter acesso livre à vida dos demais. (hipocrisia).

Não tenho problema algum em andar por ruas e edifícios inundados com câmaras de vigilância. A minha revolta (hipérbole) é com aqueles que se julgam no direito de saber todos os meus passos.

Sinto. Vejo. Compreendo. Mas jamais me comovo com a demonstração de interesse (eufemismo). “A César o que é de César”, inclusive a privacidade.

Há silêncio nos olhares que perscrutam o rosto, como quem procura decifrar-me no mais íntimo de mim (intromissão). As miradas mudas não perturbam a minha paz, porque conheço os intentos dessas buscas e sei vestir-me de invisibilidade.

E em tudo isto existe uma ironia (que não é figura de estilo) porque aprendo mais sendo observado do que os observadores aprendem sobre mim.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

No fundo do baú 89 - Emanuel Lomelino

Volta e meia deparo-me com momentos de feroz lassidão – como agora – em que sou inundado por uma chuva de memórias entrelaçadas, de tempos cruzados sem cronologia, de sangramentos, de glória, de lágrimas, de risos, de luto, de paz, de erupção, de anseios…

São períodos breves, mas intensos, que desgastam o ânimo até à fronteira da vulnerabilidade. Um cansaço indescritível apodera-se do espírito e do corpóreo, com a mesma violência irrespirável. 

São instantes esparsos, contudo, paridos pelo eterno dilema entre o uso da resiliência e a vontade de prescindir. A mente transforma-se num fórum e os argumentos jorram, com fúria combativa, criando um caos híbrido que deambula entre o desejo e a razão.

Nessas alturas – como agora – procuro refúgio na sabedoria clássica e entrego-me aos pensamentos de Schopenhauer, Púchkin, Nietzsche, Sá-Carneiro, Pessoa… para descobrir, na pele e com assombro, que a vida é como uma viagem de comboio e cada encontro é um apeadeiro. 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Epístolas sem retorno 51 - Emanuel Lomelino

Anton Tchékov
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Caro Anton,


Aproveito este nosso dia para expressar a dimensão da estima e respeito que nutro por esse estro, tão profusamente exercido, qual rio de caudal infinito e intemporal. Não há conto, novela, nem peça de teatro que me tenha deixado indiferente.

Admito que, mesmo parecendo estar a revelar algum despeito pela abundância das tuas letras (antes fosse), não raras vezes sou acometido por laivos de cobiça, provocados pelo desgosto que me abraça por não conseguir produzir tamanha excelência.

Apesar de acreditar que a qualidade criativa tem ligação direta, que não fundamental, com aquilo que se lê – e como leio obras valorosas! – não deixa de ser verdade que, por si só, isso não é suficiente e a ausência de estímulos desta época tem mais impacto pela desmotivação que provoca.

Esta falta de entusiasmo resulta do desinteresse quase unanime dos letrados actuais e, também por isso, mais convencido fico de estar a viver num tempo que me foi outorgado por engano, abatendo-se sobre mim uma lassidão extrema, que entope as veias, seca a vontade e injeta doses insanas de preguiça criativa.

Creio que, acaso hoje o entendimento sobre as artes fosse distinto, sentir-me-ia menos desenquadrado e talvez conseguisse observar nas letras modernas algo semelhante ao que enxergo quando leio a tua obra.


Introspectivo

Emanuel Lomelino

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

No fundo do baú 88 - Emanuel Lomelino

Estou grato aos céus por ser filho de uma divindade menor – assim nomeada porque Zeus estava afogado em hidromel cítrico, logo, com as capacidades cognitivas alcoolicamente desvirtuadas – e por isso ter nascido sem a presunção de ser mais do que aquilo que realmente sou.

Não me autonomeio coisa alguma e sempre resistirei aos cognomes que muitos ostentam como medalhas imerecidas – para não dizer heréticas.

Percorro os caminhos que me traço sem pretensão de pisar tapetes urdidos para desfile de vaidades sensaboronas e sem motivo de existência. Recuso dar passos nas calçadas da visibilidade ganha pelo metal, nem quero trajar-me com fardas de cetim fabricado nos cárceres da aceitação.

Sou filho de um deus menor e tudo o que faço, digo, penso e escrevo é fruto dessa minha reduzida dimensão e iluminado pelas ténues luzes de um estro diminuto, quase invisível, por incompatibilidade entre a natureza que me formou e a fama que não me merece.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

No fundo do baú 87 - Emanuel Lomelino

Imagem pinterest

Não sei dizer se o obscurantismo das letras actuais é passageiro, como um fenómeno ondulante que se desintegrará nas areias do tempo, ou se, pelo contrário, é uma prática lúcida com desejo de tornar-se uma rotina permanente.

Para onde se olha, e até onde a vista alcança, pouco se vislumbra para além de penumbra. As palavras vestem-se de breu como se alguém, de forma consciente e deliberada, quisesse ofuscar o brilho das narrativas, fazendo imperar as definições mais negras de um qualquer dicionário apocalíptico.

Queiram os deuses que seja apenas uma tendência esporádica de protagonismo, sem ambições ditatoriais nem cobiça déspota.

Seja como for, este culto incessante de idolatria ao expressionismo sombrio faz-me indagar: Existem assim tantos adoradores de Nix? 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

No fundo do baú 86 - Emanuel Lomelino

Converti as mãos em peneiras e deixei tombar, pelos caminhos trilhados, todos os grãos de ânimo que, misturados com o cimento da vontade, serviriam para fortificar os meus passos calculados e de rumo certo.

Os objectivos lúcidos amoleceram com o impacto das tempestades sem senso e, aos poucos, de forma camuflada e impiedosa, evaporaram-se sem deixar rasto.

A caminhada não terminou, mas os propósitos abraçaram a caducidade não deixando terra suficientemente fértil para que outras raízes germinem nem para que a determinação ganhe fôlego renovado.

A velha máxima “nada se perde, tudo se transforma” nunca foi tão pungente e, apesar da miopia destes meus olhos falhos, dei por mim a enxergar tudo com uma clareza tão pura quanto reveladora. Há quem lhe chame epifania. Eu prefiro dizer que despertei.

domingo, 25 de janeiro de 2026

No fundo do baú 85 - Emanuel Lomelino

Entrar numa livraria é transpor um portal, que nos leva, qual máquina do tempo, a viajar por mundos que, de outro modo, nos estariam vedados. Transformamo-nos em turistas literários de visita a outras civilizações, geografias, experiências e saberes.

Ingressar numa biblioteca pode ser uma odisseia pungente que nos obriga a oscilar entre as emoções mais díspares, como estivéssemos na montanha-russa mais sinuosa, rápida e íngreme. Saltamos da apreensão para o humor, do medo para a alegria, da serenidade para o caos.

Cada estante é uma paleta de conhecimentos à distância de um simples gesto. Um contentor de sabedoria ao alcance da vontade de aprender. Podemos abraçar povos, culturas, metamorfoses, histórias e experiências.

Cada livro é um postigo que, depois de aberto, revela realidades passadas, explica o presente e nos faz acreditar em múltiplos futuros paralelos. Atravessamos mares, desertos e labirintos; sentimos gostos, odores e deslumbramento, confrontamos ideias, conceitos e filosofias, testamos razão, lucidez e improviso.

Enfim, entrar numa livraria, ou biblioteca, analisar estantes e prateleiras, pegar um livro e folheá-lo é abrir as portas ao máximo das possibilidades.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Epístolas sem retorno 50 - Emanuel Lomelino

Arthur Schopenhauer
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Caro Arthur,


É extraordinariamente actual essa ideia de que o sofrimento é a essência da vida e a felicidade é apenas um intervalo entre padecimentos. Por mais difícil que seja aceitar a crueza, quiçá violência, desta proposição, a realidade assume-se indesmentível. Todos nós, sem exceção, levados por imposições sociais, políticas e, até, de fé, somos impelidos a aceitar, como necessidade absoluta, o mercantilismo da existência. Sim, as diferentes fases da vida são estágios do sofrimento que nos acompanha desde o nascimento. Sim, apenas as fontes de dor, aflição, desespero, mágoa, calvário e martírio diferem com o passar dos anos, mas o sofrimento permanece. Sim, as alegrias são entidades avulsas e esporádicas e os momentos de verdadeira felicidade são efémeros e rapidamente se transformam em simples memórias irrepetíveis.

Em nome da felicidade, há no humano um desejo de aceitação que ultrapassa as fronteiras da racionalidade e o impele a louvar doutrinas e conceitos tão fugazes quanto nocivos. Essa necessidade de pertença, nascida de um inconsciente formatado pelo entorno, revela-se como uma vontade imperativa que mascara a realidade dos factos: o actual conceito de comunidade celebra e glorifica o individualismo egoísta porque não existe empatia, solidariedade genuína, tampouco comunhão. A felicidade nada mais é do que uma cobiça cega que, quando alcançada, revela-se infimamente fugaz, enquanto todos os desejos, vontades, ambições, sonhos e caprichos são génese do sofrimento que engole esses fogachos de euforia.


Lúcido

Emanuel Lomelino

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

No fundo do baú 84 - Emanuel Lomelino

Dizem os sábios mais velhos que a verdadeira honestidade é exclusiva do mar. Segundo a experiência destes anciãos sem idade, não há elemento da natureza mais fiel a si mesmo, em todos os seus estados, formas e geometrias, independentemente de meridianos ou paralelos; latitudes ou longitudes; pontos cardeais ou hemisférios.

A sua essência mantém-se inalterada quer se evapore, solidifique ou liquefaça. Manifesta-se sem artimanhas nem engodos, tampouco escangalha de véspera nem reclama o que não lhe pertence porque é força dominante que responde apenas por si, nos seus domínios.

Mas, apesar de todas estas características íntegras, é no cheiro que a honestidade é mais flagrante. Ao contrário de outros elementos (fogo, terra e ar) que exibem odores emprestados, o mar exala somente o seu perfume de encanto (maresia) com que nos enfeitiça, sem truques ou ultrajes.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

No fundo do baú 83 - Emanuel Lomelino

A vida reinventa-se a cada alvorada. Os dias correm lentos ou céleres, dependendo dos humores, ócios e tédios que devoram as horas. Todos os instantes, por mais díspares que se apresentem, rumam no mesmo sentido, como fossem de via única.

Os pensamentos sucedem-se em turbilhões, ou a conta gotas, sempre sujeitos às dispersões, ou falta delas, para que o marasmo se ausente. Cada momento é único, por mais repetitivo que possa parecer.

A labuta diária é executada a diversos níveis e com múltiplos desafios que levantam ou derrubam o ânimo. Há expedientes e artimanhas que ajudam a ultrapassar tempos mortos que perturbam as ânsias e originam inquietações.

Só o crepúsculo carrega sossego nos ombros e a paz de um sono justo e contínuo, porque até os Espartanos merecem repousar das batalhas diárias, mesmo sabendo que as forças restituídas nos poços de todas as noites esfumam-se nos sufocos que a luminosidade transporta.

Por tudo isto, logo pela manhã, há um obtuso, febril, mas sincero, desejo de fechar os olhos e transformar cada minuto em descanso noturno, porque os sonhos são mais gentis do que a realidade.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

No fundo do baú 82 - Emanuel Lomelino

Olho o passado de relance, mas não deixo de moldar o barro do presente com a experiência adquirida, sabendo, de antemão, que as construções futuras serão, também elas, edificadas de modo distinto.

Por mais que nos instruamos na arte da concepção, o tempo, na sua maestria incontestável, arranja sempre forma de condicionar cada momento, provando, assim, que a vida, embora pareça uma sucessão de círculos, é uma espiral contínua e as linhas que separam os tempos (passado, presente e futuro) são mais ténues do que uma célula hexagonal.

É por isso que o acto de escrever é o próprio passado a acontecer.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

No fundo do baú 81 - Emanuel Lomelino

Mesmo sendo uma era de pedra e osso, a história fazia-se, entre peregrinações instintivas e paragens para sustento. Também havia espaço para registos toscos do dia-a-dia, em tons quentes, porque únicos, mas ninguém grunhia opinião.

Salto no tempo…

Da necessidade fez-se luz e o progresso gerou conforto e ideias novas. A paleta de cores, agora alargada aos tons frios e neutros, já originava comentários, mas, acima de tudo, justificava erudição elitista, porque religiosa e abastada.

Salto no tempo…

A evolução contínua quebrou algumas barreiras invisíveis, substituindo-as por outras - nem melhores nem piores, apenas outras. O arco-íris, com as suas tonalidades e outras que são meios-termos, universalizou-se e ramificou-se, dando origem a múltiplas referências. Nasceu a crítica, o contraponto e os opostos assumidos, mas nada entendido como mais sério que o momento.

Salto no tempo…

Hoje, como em tempos idos, a história constrói-se e desvaloriza-se a arte. No entanto, são poucos aqueles que entendem que só sabemos sobre o passado porque os ociosos gravadores primitivos, os escrivães medievais e os revolucionários aristocratas oitocentistas – para falar apenas nestes – deixaram as referências artísticas fundamentais para a compreensão dos seus quotidianos.

Quer se queira, quer não, o mundo só conhece a sua história porque nos legaram arte rupestre, literatura científica, ensaios, crónicas, poesia e ficções.

Por muito que resistam, a verdade é só uma: não fosse a arte de cada tempo jamais saberíamos nomear os estágios do passado que nos conduziu até este nosso tempo.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Epístolas sem retorno 49 - Emanuel Lomelino

Walter Benjamin
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Caro Walter,


Cada vez mais, escrever é como caminhar num trapézio sem rede. Por mais confortável que o autor se sinta, na execução do seu ofício, está sempre sujeito ao desequilíbrio e, consequentemente, à queda. Mais ainda quando o público é composto por gente munida de atenção qualificada e pronta para apontar os desacertos alheios. Sendo mais vulgar que a assistência seja formada apenas pelos opinadores de ocasião - aqueles que dão palpites sobre tudo, sem terem ideia de nada.

Quem escreve deve ter consciência de que, ao mínimo deslize, seja de que natureza for, haverá sempre alguém predisposto à crítica, qual corrector automático infalível, sem pretensão maior que não seja ridicularizar o próximo – neste caso o autor.

Poucos são aqueles que criticam por opinião divergente, mas fundamentada, ou na intensão de proporcionar um debate construtivo. Creio, aliás, que essa espécie deixou de existir há muito tempo.

Também perigosos, para quem escreve, são os observadores de cortinado (camuflados), sempre em pulgas para descontextualizar uma ou outra frase, de modo a, no mínimo, comprometer a índole de um pensamento e dar conotação negativa a uma narrativa, como quem procura nódoas em lençóis imaculados.

O mais grave de tudo é o facto de a grande maioria dos autores contemporâneos deixar-se intimidar, por esta corja de críticos de pacotilha, e limitar-se a escrever banalidades consensuais, fugindo assim à responsabilidade inerente ao ofício da escrita: desafiar, provocar, revolucionar, chocar e instigar a reflexão.


Consciente

Emanuel Lomelino

domingo, 18 de janeiro de 2026

No fundo do baú 80 - Emanuel Lomelino

Pensar os nossos dias é, mais do que um exercício de decifração de comportamentos, um calvário emocional – esgotante, inócuo e sem sentido – tantas são as incongruências, desvios e variantes surreais (para não dizer idiotas).

Por mais que tente dissertar nesta temática, os pensamentos saem-me mais absurdos do que usar barbatanas na Serra da Estrela; esvaziar piscinas com vassouras; ou fazer a maratona de costas e colocar caril em pudim de leite.

Por mais teorias físicas ou gramaticais que encontre, nenhuma tem aplicação lógica na inversão de polaridades e sinergias apáticas que grassam neste tempo, preocupantemente disforme.

Por mais que insista em encontrar uma hipótese filosófica da modernidade, acabo sempre por ser inundado pelo ócio sem conseguir escrever umas quantas linhas a respeito.

Então, nas vésperas da loucura, sacudo a cabeça, louvo a minha laicidade e besunto o corpo com álcool para confirmar a existência de matéria corpórea.

No que concerne à racionalidade… apenas descubro que até eu a perdi.

sábado, 17 de janeiro de 2026

No fundo do baú 79 - Emanuel Lomelino

Entendo a aversão aos dicionários. Há quem se intimide com a volumetria desses compêndios.

Entendo o desinteresse na definição das palavras. Há quem prefira usar os termos mais básicos da linguagem.

Aquilo que eu não entendo é a incapacidade que muitos têm no momento de usar o bom-senso. Porque há palavras cujas definições não são essenciais para saber aplicar o conceito base.

Dou como exemplo a gratidão (e o seu oposto – ingratidão).

A gratidão é um sentimento que enobrece quem demonstra reconhecimento por uma ajuda, um conselho, um ombro amigo.

Um ingrato é aquele que tenta ficar com os louros de algo (uma acção, atitude, proeza) sem reconhecer o auxílio que teve ou a ajuda que lhe foi prestada, para alcançar esse sucesso.

O problema surge quando aquele que presta auxílio pensa que o seu acto merece gratidão eterna e o “ajudado” deve retribuir sempre que for solicitado, e nas condições ditadas pelo “bom samaritano”. Caso não o faça passa a ser considerado ingrato.

A gratidão deve existir na forma como vem definida nos compêndios volumosos: reconhecimento pelo benefício que a acção de outrem nos outorga.

Peço desculpa pela objecção que deixo aqui, mas a verdade é que a gratidão não é como uma dívida bancária que é paga durante toda a vida e com juros de mora.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

No fundo do baú 78 - Emanuel Lomelino

Não preciso molhar-me na fúria desta chuva madrugadora para conseguir dissertar sobre a impermeabilidade que me escasseia.

Cada gota que desliza da nebulosidade do céu negro para abater-se sobre mim, com a ferocidade tropical de todas as tempestades, apenas cumpre o seu destino - e o meu.

Gotícula a gotícula, de mãos dadas com a liquidez desconfortável, transformo-me num leito de rio cujas correntezas percorrem de nascente à foz, sem resistência de dique ou barragem.

Inundo-me desde as margens até ao âmago em cascatas incessantes de rebeldia, qual desfiladeiro íngreme com protuberâncias escorregadias.

No centro do dilúvio, sou como um navio sem leme nem rumo, e o vento – irregular como só ele – não me permite mais do que andar, trémulo, à deriva.

Depois, como uma criança inocente, mas travessa, o céu afasta as nuvens e sorri um arco-íris, sem remorso por ter lançado toneladas de água sobre este pobre coitado que apenas saiu à rua para ir trabalhar, num sábado, e agora vai gastar os ganhos de um dia em paracetamol.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

No fundo do baú 77 - Emanuel Lomelino

Mais do que direito adquirido, escrever é um dever que poucos assumem. Uns por preguiça, outros por ignorância. A maioria recusa a responsabilidade, a minoria acredita que a escrita deve cingir-se aos pensadores, filósofos, doutrinados e eruditos. Boa parte escreve apenas porque sim, a outra parte, espartilhada entre crenças e rivalidades, contesta tudo o que se escreve, qual oposição sem programa alternativo.

Escrever é a liberdade do pensamento, mas alguns “seres iluminados” advogam que a escrita só o é se for feita de acordo com os novos cânones e, por consequência, com a negação dos anteriores. Exigem que se eliminem todos os conceitos, regras e definições do passado, que acreditam ser agrilhoadores da criatividade, e impõem a permissividade restrita dos seus valores literários. Estes sábios da contemporaneidade, quais profetas da verdade absoluta, pensam a escrita de acordo com as fraquezas das suas próprias limitações. Estes censores da modernice, quais escravos das tendências anti autoridade, querem que a escrita se resuma à incoerência das suas crendices anti regras.

Aos arautos dos paradigmas elitistas, eu digo: Mentis! A arte é democrática! Não tem cor, sexo, idade, cultura, religião, política padrão, nem corrente estética ou estilística.

Aos negacionistas do legado que todos carregamos, eu digo: Mentis! A arte de hoje só existe, como é e se molda, porque o passado é o somatório de todas as correntes que nos conduziram até aqui.

Aos génios do desgoverno, eu digo: Mentis! A arte sempre terá regras, mesmo que não sigamos as normas clássicas ou doutrinas pré-existentes, porque até o vosso anarquismo é, por si só, uma regra que vos exige serem contra todas as outras regras.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

No fundo do baú 76 - Emanuel Lomelino

Há um aqueduto de frases por escrever entre as areias do Hudson e as praias vicentinas.

Os verbos correm ferventes desde as encostas do Corno dos Romanos até à mais recôndita ilhota do Pacífico.

Os adjectivos viajam desde as grutas que nunca foram de Salomão até às cidades perdidas na tropical Amazónia.

Cada substantivo percorre as planícies subsaarianas rumo aos planaltos Tártaros.

Existem estepes de versos inovadores, entre as tundras escandinavas e os pomares nipónicos, com ânsia de nascerem virados para as águas santas do Ganges, mas idolatrando as correntes de Yangtzé. 

Há complementos empalados nas calotas polares, em ambos os hemisférios, só a aguardar o degelo para irem em busca de Everestes sujeitos e predicados.

Existem virgulas a bolinar ventos alísios (algumas de pontos às costas), com o mesmo ímpeto que as reticências cavalgam as dunas do Saara, em busca de dois pontos, parágrafos e travessões.

As ondas do Índico são tiles disfarçados, por não quererem ser vistos na companhia dos apreensivos circunflexos. Assim como os graves só querem ver os agudos pelas costas.

As interrogações não são mais do que exclamações vergadas ao peso de múltiplas dúvidas sugeridas pelas irrequietas marés lunares.

E assim se juntam dois mundos numa chuva descritiva cheia de figuras de estilo e com o epílogo esperado (ponto final).

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Contos que nada contam 52 (Faina) - Emanuel Lomelino

Imagem pinterest

Faina


A praia esvazia-se de olhos postos nas pranchas que deslizam na ondulação costeira, enquanto, na barra, as traineiras são preparadas para a faina, assim que terminar o pôr-do-sol.

As mulheres de negro aglomeram-se no pontão para sacudir os lenços brancos, na angústia dos céus carregados, na incerteza eterna dos ventos e na esperança do retorno breve.

O farol ilumina a liquidez da noite, mas o horizonte fica escondido entre a penumbra e a maresia. O ambiente sepulcral só não é total porque as águas martelam a vulnerabilidade das embarcações ao ritmo das preces afãs.

Às ondas do mar pouco importa se os grãos de areia fina já foram, um dia, seixos lisos ou se as gaivotas poisam para palitar os bicos nas conchas abandonadas. Tampouco querem saber se as estrelas-do-mar são incendiárias jurássicas a preparar terreno para outras espécies ou se, nessa noite, as redes serão capazes de expulsar a fome.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

No fundo do baú 75 - Emanuel Lomelino

A augusta Casa dos Altivos Artífices do Sétimo Saber Consagrado convoca todos os órgãos de informação competentes para a Gala Anual dos Credenciados Anónimos Voluntários que irá realizar-se em espaço, dia e hora e designar, na esperança de conseguir, em tempo útil, recolher a verba necessária para liquidar os valores propostos, em caderno de encargos, para aquisição de dois contentores de fogo de artifício, duzentos metros de passadeira vermelha, quinhentos cadeirões manuelinos, três mil velas de sebo envelhecido em casta milenar e um vaso de flores sazonais, com dimensão ainda por determinar.

Com o referido certame, pretende-se celebrar as alcoviteiras do Jardim Constantino, os cangalheiros da praia de Carcavelos, as divas de São Sebastião, os ciciosos de Mata-Cães e as jovens promessas do núcleo de perfumistas azeiteiros da Abóbada Celeste.

A todos os participantes serão entregues certificados de presença e mérito, além de coroas de louro, personalizadas, e um porta-chaves alusivo à efeméride.

Se sobrar dinheiro, contamos requisitar os serviços dos gaiteiros de Milfontes que, caso aceitem, brindarão todos os presentes com uma sinfonia de acordes à moda de Viena ou, em alternativa, um fandango albicastrense.

A todos os convidados será solicitado traje de gala, que pode ser adquirido nas nossas instalações até dois dias antes do evento. O uso de chapéu é facultativo e os sapatos não podem ser rasos.

Este será o primeiro de muitos encontros previstos. A seu tempo honraremos os percursos dos gagos assobiadores de andaime, as costureiras de corta casaca à tesourada e os arquivistas de manuscritos da Biblioteca que vai ser construída nos antigos terrenos da Feira Popular.

Informamos que o acesso pode ser feito através de qualquer meio de transporte, com excepção dos aéreos porque é muito difícil encontrar um espaço com heliporto.

domingo, 11 de janeiro de 2026

No fundo do baú 74 Emanuel Lomelino

Há quem acredite no altruísmo das palavras, mas só um incauto pode perspectivar bondade numa conjugação verbal que impõe em vez de sugerir ou, quanto muito, ordena no lugar de colocar à consideração.

Até as pedras, sejam de calcário ou basalto, conseguem transmitir mais leveza do que os discursos militarizados, mesmo ao som de polcas e corridinhos, feitos à medida dos substitutos dos tubos catódicos.

Deixou de existir temperança e vergonha nas faces artificialmente bronzeadas porque o Zé do Manguito continua a preferir sopas e descanso em vez que tirar os suspensórios e mostrar o Judas arranhado.

Havendo música, couratos assados e uma reles esferográfica timbrada, aparecem logo magotes de desocupados intelectuais predispostos a agitarem bandeiras e bandeirolas ao vento carvoeiro, enquanto os copos não secam a cevada quente.

O despertar vem depois, quando os mesmos fidalgos movidos a rancho folclórico, descobrem que, afinal, a caridade é um caça-níqueis faminto e sem escrúpulos, e resolvem lançar outras bandeiras ao vento, soltar verbos pedintes e arrastar as carcaças pálidas no meio da urbe de cintos apertados, como fossem todos sócios-fundadores da liga dos revoltados surpreendidos, mas sem cotas pagas e com o tempo caducado.

sábado, 10 de janeiro de 2026

No fundo do baú 73 - Emanuel Lomelino

Não existe melhor forma de exercer a individualidade plena, sem cair no descrédito de confundir o seu significado, do que a arte de pensar, e desta premissa nasceram todas as preciosas definições de liberdade, mas também alguns enganos – porque nem todos os filhos do pensamento são sensatos.

Há aqueles que renegam, mais de três vezes, a equidade e preferem as pirâmides (mesmo invertidas) em detrimento de linhas rectas (mesmo paralelas).

Esses podem ser identificados pelo som elevado das suas vozes argumentativas, pois, acreditam na imposição e nos dogmas, e desconhecem o que significa pluralidade e livre-arbítrio.

Depois temos os que desconhecem que os pensamentos podem ser como o ferro forjado e que, quando nas mãos de um bom artesão, podem transformar-se em autênticas preciosidades, mas, quando molhados pela ignorância ou preguiça, também enferrujam. E um pensamento enferrujado, por mais forte que pareça, facilmente é quebrado.