terça-feira, 31 de março de 2026

No fundo do baú 147 - Emanuel Lomelino

Por mais habituado que esteja ao modo como sou visto e entendido, por quem, sabendo da minha existência, não interage comigo, continuo a esboçar sorrisos internos quando as percepções caem por terra e são verbalizadas manifestações de surpresa.

Há uma imagem que me tem acompanhado toda a vida, muito por minha culpa, confesso, e que induz em erro aqueles que só me conhecem das redes sociais ou do “ouvir falar”.

Quanto à primeira, nada pode ser feito porque, há muitos anos, só uso as redes sociais para trabalho de divulgação.

Em relação à segunda, que apenas merece uma reflexão mais aprofundada para efeito deste exercício de escrita, sobressaem duas ideias.

1 – Há quem se dê ao trabalho de incluir o meu nome em conversas com terceiros, dando-me uma importância que não reconheço nem almejo. E nada mais tenho a dizer sobre isto porque o que falam de mim não me diz respeito.

2 – Há quem faça deduções de carácter, apenas pelo que escuta. Esta constatação sugere-me alguns pensamentos.

a) há quem viva mais na ficção e no achismo do que com a realidade.

b) há quem prefira o rumor à verdade.

c) há quem dedique mais atenção à vida alheia do que à própria.

d) é mais confortável ver nódoas na toalha do outro.

e) quem fala dos ausentes também tem costas.

segunda-feira, 30 de março de 2026

No fundo do baú 146 - Emanuel Lomelino

O substantivo que melhor define as sociedades modernas é “preguiça”.

Nestas duas primeiras décadas do século XXI, ela disseminou-se, qual vírus contagioso, tornando-se quase uma característica genética da humanidade.

Podemos observá-la desde as pequenas coisas da vida – usar o carro para ir ao café, no fundo da rua; deitar lixo no chão havendo um caixote no outro lado da estrada – até às de maior impacto – resolver burocracias no final dos prazos; deixar para o dia seguinte a conclusão de um trabalho, que demoraria cinco/dez minutos, porque o patrão não paga horas extra.

Depois há a preguiça intelectual, que tem sido estimulada por aqueles que compreendem o fenómeno do seguidismo e sabem dissimular ideias e conceitos em actos e discursos tão cativantes que parecem dogmas infalíveis, sem pontas soltas, logo, sem necessidade de reflexão, mas fazendo crer, aos enfermos da preguiça, que são livres-pensadores e que a ideia original foi fruto do seu próprio pensamento (que nunca teve).

Dessa percepção de indiscutibilidade cria-se a apologia do não-pensamento, ou a sensação de que pensar é prescindível.

Assim nascem os rebanhos, educados a aceitar sem contestar e sem compreenderem que estão a ser formatados por pensamentos induzidos e a perder a capacidade de pensar pela própria cabeça.

domingo, 29 de março de 2026

No fundo do baú 145 - Emanuel Lomelino

O momento mais angustiante na vida de um autor não é o fracasso das suas criações, tampouco o sumiço repentino do estro. A angústia maior, que trespassa a alma vezes sem conta e dilacera cada átomo, acontece quando as palavras atraiçoam e esgravatam o íntimo como punhais rombos, sem um pingo de compaixão nem misericórdia.

Para os mais desprevenidos, cada traição é recebida no limite do despreparo e, por isso, sentida no extremo da dor – lancinante, feroz, inclemente.

Os mais calejados, não sendo imunes às estucadas e sofrendo em igual medida, conseguem, apesar das lágrimas de desilusão, ultrapassar o desconforto com maior celeridade, cicatrizar as feridas, e retornar ao ofício mais fortes.

Depois há os outros. Aqueles que, por nunca terem estado seriamente empenhados na escrita e, por essa razão, não terem ganhado consciência de autor, ignoram quão ténue é a linha que separa a traição das palavras e a arte escriba.

sábado, 28 de março de 2026

No fundo do baú 144 - Emanuel Lomelino

Entre muitos paradoxos que enfermam a humanidade, um dos mais óbvios, mas que foge à reflexão, é o dogma da perfeição.

Todos alardeamos que a perfeição não existe e, consequentemente, admitimos a nossa imperfeição natural. Estas afirmações acabam por ser taxativas e complementares, mas quase sempre colocadas de lado, dependendo das situações, sendo usada a versão mais cómoda ao interesse de cada um, ou o(s) seu(s) contrário(s), como quem escolhe que roupa usar em determinado dia da semana. Senão vejamos.

Não existindo a perfeição, por que raio todo o mundo anda em busca dela, em todos os momentos da vida? Por que se exigem relacionamentos perfeitos? Por que se exigem, ou recriminam, comportamentos e prestações, em nome da perfeição? Por que razão as pessoas sentem necessidade de qualificar toda e qualquer coisa que veem, ou tudo o que leem, como sendo “perfeito”? Por que carga de água se voltam as costas aos demais por falta de perfeição, ou pelas imperfeições? Por acaso a imperfeição só existe na primeira pessoa do singular, no presente do indicativo, em circunstâncias especiais, sendo que noutras é alimentada na segunda pessoa do singular ou plural? Será que o conceito de imperfeição tem restrições aplicativas? Será que estamos, também neste quesito, a perder a noção da realidade e a deixar-nos levar pelo politicamente correcto por conta da sensibilidade de um punhado de “cabeças-ocas”?

sexta-feira, 27 de março de 2026

No fundo do baú 143 - Emanuel Lomelino

Sempre que me preparo para mergulhar num novo livro, visto o meu escafandro de gala e lá vou eu, contra todas as fobias, em genuína apneia.

As primeiras páginas podem revelar-se irrespiráveis, mas a falta de ar oxigenado, em vez de afligir-me, tem o condão de despertar o meu autocontrolo e elevar os sentidos no máximo das suas capacidades, obrigando-me a dar corda às barbatanas e ir ainda mais longe e fundo. E quanto maior for a dificuldade para manter a respiração regular, mais embrenhado fico e mais adentro nos textos.

Garanto-vos, com o testemunho de mil e uma experiências, que todos os bons livros conseguem fazer-nos viver para lá de uma síncope respiratória, e trazer-nos de volta, sãos e salvos, mas enriquecidos, à superficialidade fatal do mundo a que pertencemos.

quinta-feira, 26 de março de 2026

No fundo do baú 142 - Emanuel Lomelino

Sem tirar a importância a outras grandes preocupações das sociedades modernas, um dos maiores flagelos actuais é o sumiço, que está a ser permitido acontecer, de inúmeros locais de culto – as livrarias tradicionais.

Sobre esta triste realidade estão a ser usados argumentos que só convencem os cabeças-ocas que falam de clássicos, mas só leem livros de autoajuda, comprados em supermercados.

Os livros que valem a pena serem lidos raramente os encontramos nas grandes superfícies, porque nunca serão os de vendas mais expressivas.

Livros que fazem pensar, ou melhor, que obrigam a pensar, são incompatíveis com o negócio de consumismo imediato, porque, neste nosso tempo, o acto de pensar está a roçar a extinção.

Os verdadeiros leitores, aqueles que conhecem as diferenças entre as grandes obras da literatura e os manuais de formatação, optam por pensar e sabem que só é possível encontrar bons livros nas livrarias tradicionais.

Infelizmente, esses espécimes raros têm uma capacidade financeira reduzida e isso reflete-se no desaparecimento de espaços icónicos.

A manter-se este círculo vicioso, corremos o risco de necessitar ir ao supermercado mais próximo para encontrarmos um manual prático, que nos ajude a descobrir uma forma de fugirmos à estupidificação que está a instalar-se, e reaprender a pensar.

quarta-feira, 25 de março de 2026

No fundo do baú 141 - Emanuel Lomelino

Pensar dói. Ou melhor… dá dores de cabeça. Ok. Nem sempre. Há pensamentos que conseguem passar sem deixar vestígios, mas, quando assim é, isso significa que não tinham significado algum.

Aqueles que magoam são os pensamentos que vêm atrelados a outros pensamentos, como um comboio-bala interminável, cuja locomotiva é uma ideia simples que não gosta de andar sozinha nas trilhas da mente e, por isso, arranja sempre uma forma ardilosa de dar boleia a mais e mais ideias, cada vez mais complexas.

A dor de cabeça aparece nesse momento. Na altura em que as carruagens mais simples – porque leves – dão lugar às mais robustas – porque pesadas – e, como num passe de mágica, cada uma delas (ideias) se transforma numa nova locomotiva, dando origem a mais comboios. Tantos que a mente fica preenchida de carris, que entroncam, uns nos outros, de modo tão vertiginoso que, nasce a sensação, a qualquer instante haverá um descarrilamento ou um choque entre composições.

Se isto não fosse uma analogia eu estaria milionário só na venda de bilhetes, tantos são os pensamentos que viajam na minha mente.

terça-feira, 24 de março de 2026

No fundo do baú 140 - Emanuel Lomelino

Os livros, tal como as conversas e as cerejas, estão sempre colados a outros. Descobri isto ao olhar atentamente para a minha biblioteca e ter visto Puchkin e Gogol em animada tertúlia com Camus e Pessoa. Noutra prateleira, Brecht e Celan concentravam olhares em Virgínia, Agustina, e nas irmãs Brontë.

Num canto mais resguardado, Proust, Benjamin e Todorov sussurravam críticas, como quem conspira literatura. Mais adiante, Almada Negreiros, de braço dado a Ramos Rosa e Torga, dissertava sobre poesia, como quem não sabe mais nada além de versos.

Wilde, com todo o vigor da sua juventude reciclada, olhava Botto com interesse redobrado, enquanto Ovídio, Plutarco, Horácio e Calvino tentavam descobrir as diferenças entre Vergílio e Virgílio.

Poe e Stevenson elogiavam Márai e Saramago, bem perto de Göethe e Nietzsche, que desafiavam Schopenhauer e Steinbeck, para deleite de Kant. Também vislumbrei o grupo de Tolstoi, Gorki, Nabokov e Dostoievski, a debater com Kundera, Marquez, Neruda e Natália.

Camilo, Dinis, Amado, Assis e Eça trocavam experiências, enquanto Vinícius e Ary ofereciam canções a Cecília, Sophia, Florbela e Natércia, que retribuíam com palavras meigas.

Cervantes, Dante, Shakespeare e Camões faziam vénias aos aplausos de Junqueira, Bocage, Drummond e O’Neill. Enquanto Baudelaire, Apollinaire, e outros franceses, viam peças de Gil Vicente e Pascoaes.

E mais não vou enumerar porque já ultrapassei o limite deste texto.

segunda-feira, 23 de março de 2026

No fundo do baú 139 - Emanuel Lomelino

Depois de ter navegado tantas marés e enfrentado os seus diferentes humores, o sal impregnou-se na pele tão intensamente que os golfinhos e as gaivotas deixaram de ser novidade. A ferocidade dos ventos, que no início era sentida como chibatadas, agora é apenas afago. Içar e recolher velas passaram a ser tarefas executadas no automático.

Já me haviam alertado para a falta de atenção que tenho prestado ao meu entorno. Não tinha dado muita importância a esse reparo, no entanto, a bem da verdade, há algum tempo deixei de demonstrar interesse nas coisas irrelevantes porque serviam apenas como motivos de distração, para ajudar a passar o tempo nas viagens entre portos.

No entanto, hoje, ao embarcar para mais uma odisseia laboral, embrulhado na minha farda de profissional camuflado e com a máscara de marujo satisfeito no rosto, decidi voltar a dar uso à minha vertente observadora e pude constatar que o céu azul continua a ser riscado pelos aviões, a espuma das ondas permanece branca e, tirando os pinguins e albatrozes, os únicos seres que continuam a destoar são os corvos, que agora são mais urbanos litorais e não se emocionam ao ver espantalhos de camisa aos quadrados que, tal como eu, andam na faina para colocar bacalhau no prato.

domingo, 22 de março de 2026

No fundo do baú 138 - Emanuel Lomelino

As questões são pertinentes. Por que diabos procuro adquirir o maior número possível de livros clássicos? Por que razão tenho um fascínio tão grande por obras intemporais? Para quê gastar tempo e dinheiro em literatura? Qual o propósito de reunir tantos, e tão díspares autores, géneros, temáticas, abordagens?

Poderia dar uso a mil e um argumentos, cada um mais válido que o anterior, mas temo que nenhum deles seja inteiramente esclarecedor sem o complemento dos restantes.

Fazê-lo pela metade seria dizer meias-verdades e omitir factos. Enumerar todas as razões revelar-se-ia uma tarefa hercúlea - porque demorada, mas, sobretudo, por ser demasiado fastidiosa para satisfazer a curiosidade alheia.

Assim sendo, e sem o mínimo de temor pelos julgamentos que esta obsessão pode suscitar, deixo ao critério de cada um a avaliação da esquizofrenia que me move.

sábado, 21 de março de 2026

No fundo do baú 137 - Emanuel Lomelino

Imagem pinterest

Sempre fui apologista das discussões literárias – tertúlias (que não devem ser confundidas com “saraus” porque são eventos distintos) – pela possibilidade que dão para debater conceitos, tanto de criação como de leitura.

Infelizmente, esse género de encontros é cada vez mais raro, para não dizer inexistente, porque as artes deixaram de estar associadas a conceitos filosóficos claros, e os artífices nem sequer sabem definir as suas criações. Tudo é feito pelo simples acto de fazer.

Por outro lado, quando temos a sorte de assistir a uma tertúlia, ficamos com um tremendo amargo de boca pela enxurrada de argumentos vagos, que são proferidos com a maior das convicções, mas sem conteúdo aproveitável ou isento de lacunas.

É triste verificar que, para além do vazio intelectual dos criadores, os consumidores deixaram de ser exigentes e aceitam qualquer coisa. Já não há critério. Já não existe contraponto. Já não há opinião. Já não existe crítica. Só dogmas. Alguém diz que é arte e todos aplaudem, sem hesitar, sem contestar, sem questionar.

Para ser assim mais vale não haver tertúlias. Ou então acabe-se com a arte.

sexta-feira, 20 de março de 2026

No fundo do baú 136 - Emanuel Lomelino

Quando surgem aqueles dias em que só queremos deitar o esqueleto e simplesmente abraçar a inércia, é necessário um esforço sobre-humano para nos obrigar a cumprir algumas tarefas que, não sendo essenciais, nos propomos executar.

Hoje é um desses dias. Depois de um retemperador banho quente, o corpo começou a insinuar a vontade de ficar estático, imóvel, quieto, estatelado sobre a cama, e não fazer coisa alguma. Creio que ainda houve um momento de hesitação, da minha parte, mas o que tem de ser tem muita força e não posso abrir um precedente porque quando se facilita uma vez…

Para se atingir esta capacidade de não embalar na preguiça é fundamental ter-se um elevado grau de disciplina mental que, no meu caso, acaba por auxiliar bastante, quase como factor determinante para que não haja um só dia sem que eu faça, entre algumas outras coisas, pelo menos, um exercício de escrita.

quinta-feira, 19 de março de 2026

No fundo do baú 135 - Emanuel Lomelino

Os dias cozinham-se iguais, numa mesmice tão sórdida quanto submissa, sem ensejos nem revoltas.

Lábios gretados, frieiras nas mãos, escaras soltas, narinas empoeiradas, vontade que se esvai, conformismo que se instala.

O cansaço apodera-se, sem tréguas nem piedade. Reavivam-se vis emoções, já sentidas na plenitude da miserabilidade. Também aquela inércia tão lancinante como grilhetas carcerárias.

Mas nem tudo é ácido porque, no final de cada dia, chega sempre o silêncio crepuscular, com livros debaixo dos braços e a habilidade de teletransportar a mente para mundos que anestesiam até que a realidade regresse no buzinar do despertador.

quarta-feira, 18 de março de 2026

No fundo do baú 134 - Emanuel Lomelino


 Não foi sem assombro que descobri a existência de niilismo na minha personalidade.

Apesar do termo não me ser estranho, por razão do meu interesse artístico-literário, e até conhecer um pouco desta corrente filosófica, nunca deduzi que uma parte de mim pudesse ser influenciada, mesmo que ligeiramente, por esta doutrina.

A verdade é que, em relação à percepção que tenho da vida, com todas as minhas dúvidas e questionamentos, nunca me considerei mais do que céptico, pela simples razão de não conseguir vislumbrar, com carácter decisivo, uma razão válida que justifique a existência de um propósito, ou sentido, pré-definido.

Eis senão quando, nesta fase adiantada da minha existência física, descubro que a descrença num sentido para a vida, tal como ela se revela para mim, é considerado niilismo existencial. Só não sou completamente niilista porque não vejo a humanidade, como um todo, insignificante.

terça-feira, 17 de março de 2026

No fundo do baú 133 - Emanuel Lomelino

Há uma máxima da antropologia que nos diz que para conseguirmos entender melhor outras civilizações temos de colocar de parte tudo o que aprendemos sobre o nosso entorno.

Porque nunca conseguirei ler todos os livros essenciais, não sei se alguém escreveu sobre a aplicabilidade desta ideia em formatos mais reduzidos.

Seja como for, tenho usado esse conceito no intuito de compreender os comportamentos que me cercam e tem dado certo. Pelo menos não fica tão confuso entender as razões que dão origem a atitudes que me são estranhas.

No entanto, a posteriori, levantam-se-me outras questões antropológicas porque, apesar de ter controlo sobre as minhas faculdades, tenho uma mente inquisitiva que recusa viver com dúvidas e não se inibe de colocar novas perguntas, a cada resposta encontrada.

Feito este parêntese, depois de entender os motivos que originam determinada acção, fico a pensar como é possível que, no seio de uma mesma civilização, possam existir comportamentos tão distintos e valores tão díspares.

Entre as várias hipóteses que considerei, só uma consegue apaziguar o turbilhão mental em que, sistematicamente, embarco: o objecto de estudo é o humano, logo, pelas suas características natas, e embora possamos encontrar uma linha condutora, é possível coexistirem incontáveis faces na mesma moeda.

segunda-feira, 16 de março de 2026

No fundo do baú 132 - Emanuel Lomelino

Por mais que pense, não consigo encontrar uma razão inequívoca e definitiva que justifique o medo que a generalidade das pessoas tem de estar sozinha, como se ficar ou estar só fosse o tormento mais nefasto que alguém pode experimentar.

Mais incompreensível é o descrédito dado ao isolamento, enquanto fonte de ignição para o raciocínio pacífico, que é o único caminho estável para que exista clareza de ideias e o pensamento não se revelar contaminado pelo entorno.

Creio que a génese desta aversão global é fruto de uma conotação, errada, entre quietude e solidão. Uma não origina nem é, obrigatoriamente, consequência da outra.

O silêncio é a casa da reflexão mais séria e íntegra, logo é benéfica para quem dele usufrui.

domingo, 15 de março de 2026

No fundo do baú 131 - Emanuel Lomelino

A vida dedilha-se ao ritmo das horas e, mesmo nas pausas inoportunas, tudo soa a orquestração eterna.

Há um género de maestro invisível – tempo – que cadencia cada passo, como estivéssemos, desde o berço, sujeitos a rigor e disciplina harmónica.

Quando sou assaltado por este pensamento absurdo emerge em mim uma tremenda e imperativa vontade de fazer um improviso jazzístico e deixar-me levar numa pauta em contramão.

Talvez seja o meu lado irreverente a querer demonstrar-me que não se esgotou e ainda tem muitos acordes para tocar e, assim, preencher com novas melodias o grande concerto que tem sido a minha vida. 

sábado, 14 de março de 2026

No fundo do baú 130 - Emanuel Lomelino

Recuando alguns anos, o processo mais simples de quantificar o grau de inteligência de alguém era o teste de QI, com vinte e dois desafios às aptidões cognitivas.

Criando um segmento de recta, entre a estupidez e a inteligência, algures encontrava-se um ponto intermédio equidistante.

Através desse método científico conseguia-se aferir o valor médio de inteligência de uma sociedade, um país, uma cidade, um bairro, uma escola. E com os resultados obtidos delineavam-se estratégias para colmatar os pontos fracos do conhecimento humano. Isto é, lutava-se contra a burrice, com inteligência e bom senso.

Escrevi os dois primeiros parágrafos no pretérito porque, por tudo aquilo que podemos observar nas sociedades modernas, os testes devem ter sido descontinuados.

Não há outra forma de compreender como é que, de um momento para o outro, a estupidez passou a ser a doutrina dominante. Tanto que, hoje, o bom senso morreu e a voz dos inteligentes é censurada para não ofender a sensibilidade dermatológica dos estúpidos.

sexta-feira, 13 de março de 2026

No fundo do baú 129 - Emanuel Lomelino

Ler, por si só, já é um vício. Mas a coisa ganha contornos de dependência quando, por exemplo, nos embrenhamos na leitura sobre metafísica.

Para compreendermos esta “filosofia primeira” começamos por ler Aristóteles. Absorvemos conceitos, definições e logo queremos mais. Então passamos para Kant e a coisa adensa-se de tal forma que não temos outro remédio que não passe por lermos Heidegger e Leibniz.

Quando nos apercebemos da tremenda ressaca mental em que nos enfiámos, já não conseguimos passar sem aprofundar o conhecimento e passamos a ler, também, os críticos da metafísica, como Comte e Nietzsche, e os que, não sendo críticos desta ciência filosófica, foram severos opositores da sua vertente racionalista, como Schopenhauer.

O pior é quando começamos a ler referências a outros filósofos, cujas obras são mais difíceis de encontrar, e damos por nós a vasculhar as prateleiras das livrarias na ilusão de encontrar alguma dessas relíquias. Quando isso acontece é sinal que entrámos na fase mais complicada da adição literária: a obsessão.

quinta-feira, 12 de março de 2026

No fundo do baú 128 - Emanuel Lomelino

Volta e meia desincorporo-me e, afastando-me um pouco, fico a olhar-me na tentativa de perceber o que continua a mover-me.

Faço isto porque, há muito, deixei de encontrar respostas no meu interior, agora vazio e abandonado de estímulos.

Longe vão os tempos de grandes reflexões, maiores projectos, gigantescas demandas. Todo eu era um contentor de ambições, ideais e proactividade.

Hoje, pairando sobre mim, deixei de identificar aquele olhar decidido e resoluto – quase intrépido – que me fazia encarar todos os desafios da vida com a cabeça bem erguida, numa postura natural de confiança absoluta.

Os valores continuam presentes, as certezas permanecem seguras, as intenções estão imutáveis, as convicções bem enraizadas, contudo, o vigor vem-se esfumando, a energia esgota-se a cada expiração, a vontade esbate-se a cada passo, a importância das coisas tem diminuído a olhos vistos.

Vejo-me à distância e só reconheço a voragem de querer saber mais, de pensar com mais critério e melhorar valências. Mas já não vislumbro a sede de partilhar nem a urgência de me explicar – nem mesmo a mim próprio.

quarta-feira, 11 de março de 2026

No fundo do baú 127 - Emanuel Lomelino

Apesar de já ter idade para ser considerado “velho do Restelo”, não tenho, por vocação, o hábito de fazer apologias do passado para contrapor ao presente. As coisas são como são, o mundo evolui e só temos de nos adaptar, o melhor que conseguirmos.

No entanto, por vezes, dou por mim a pensar na diferença que existe entre a vida quotidiana e o meu tempo de adolescente. Ainda não fui capaz de encontrar uma resposta definitiva que explique a razão de, hoje, com todos os avanços tecnológicos e a informação disponível num piscar de olhos, estarmos sempre sem tempo, enquanto, lá atrás, tínhamos uma vida agitada e ainda sobrava tempo.

Dizem-me que hoje tudo depende e acontece no expoente máximo da celeridade e isso é o motivo principal para o tempo ser gerido de forma diferente. Não sei como contestar esta visão porque, bem vistas as coisas, é possível nomear inúmeras situações que atestam essa realidade.

Antigamente remendavam-se as peças de roupa rombas. Fazia-se mais um furo no cinto. Compravam-se botões para substituir os que se perdiam. As calças velhas viravam calções. As toalhas e lençóis eram transformados em panos de limpeza.  Punha-se um calço na perna bamba da mesa. Hoje deita-se tudo fora e compra-se novo porque é mais fácil e rápido.

E esta nova forma de agir abrange também as interacções humanas. Ninguém tem tempo para encontrar soluções e resolver os problemas do dia-a-dia. Simplesmente vira-se a página porque tudo ficou sujeito a prazo de validade e nada, nem ninguém, consegue escapar à condição de descartável.

terça-feira, 10 de março de 2026

No fundo do baú 126 - Emanuel Lomelino

Há dias, como hoje, em que os dedos não se cansam de transpor, para as páginas digitais, a efervescência incontrolável desta minha mente hiperativa (tivesse eu nascido em tempos mais recentes e estaria agora encharcado de Ritalina).

A verdade é que este transtorno que me domina é um ingrediente essencial nos desafios que me proponho e, sem os quais, teria muito mais dificuldade em aceitar viver num tempo (este) que não deveria ser o meu.

Mas é aqui e agora que existo – consciente do meu desenquadramento temporal – e, por isso, permito-me à extravagância de coexistir em dois tempos, sem benefício de um em detrimento de outro.

Neste plano de existência, deambulo entre a esquizofrenia pontual e o paradoxismo permanente, com a maior das naturalidades e sem complexos doentios ou desviantes porque me compreendo, aceito e cumpro.

E assim será até ao fim.

segunda-feira, 9 de março de 2026

No fundo do baú 125 - Emanuel Lomelino

No conforto almofadado da minha trincheira de estudo e criação, deixo-me bombardear pelas ogivas de palavras dos pensadores de outrora.

Agasalho-me nas frases mais eloquentes e solto a esquizofrenia que me assiste, em diálogos mudos com todos eles – um por vez – até que a comichão me nasça nos dedos para que a coce numa folha de papel ou no ecrã do computador, como quem expõe um trauma de guerra.

Na maioria das vezes tudo ganha forma através de um conceito elaborado ou de uma ideia esparsa, mas com a força vulcânica de uma conversa interessante. Contudo, em alguns momentos, basta uma simples palavra para que surja um texto, sem outro propósito além da utilização dessa mesma palavra.

Depois entra em acção este meu lado de cientista experimentalista – a esquizofrenia sempre presente – para explorar diferentes abordagens e observar a aplicabilidade do termo em contextos distintos, nos quais, por norma, não caberia. Como neste texto que, sendo apenas um dos muitos exercícios de escrita que me proponho, é uma cócega nascida de uma conversa com Freud sobre os traumas que as trincheiras deixaram em muitos dos que por lá passaram.

domingo, 8 de março de 2026

No fundo do baú 124 - Emanuel Lomelino

A força irreverente, do passado longínquo que quase se apagou da memória, foi gasta em ímpetos esperançosos que se revelaram infrutíferos, tamanha foi a resistência das mentes obtusas alimentadas de falsas crenças.

As tentativas de manter vivos alguns conceitos-base para alargar horizontes e elevar o nível criativo, caíram em saco tão roto que nem mil costureiras, e seus pontos-cruz, conseguiriam remendá-lo.

O desgaste foi apocalíptico a ponto de já não restar o mínimo de vontade em recordar, de viva-voz e com toda a paciência necessária, os ensinamentos que, sendo conhecimento geral, deixaram de ter importância junto daqueles – muitos – que apregoam sabedoria e erudição, mas não sabem, sequer, explicar o que escrevem.

A literatura entrou num vácuo conceptual, por imposição colectiva de uma corja que se apresenta como sendo o expoente máximo de intelectualidade e conseguiu, nos últimos quinze/vinte anos, insuflar o vazio de ideias nos cérebros preguiçosos dos aspirantes a prémios, comendas e certificados.

A idade esvaziou-me o ímpeto necessário para continuar a lutar contra os falsos cânones da modernidade. O desgaste faz-se sentir nas pregas da voz e o vigor da garganta esgotou-se.

Contudo, a razão não me permite desistir. Chegou a hora de diminuir os esforços, proteger as cordas vocais e enveredar por outras vias que não me suguem mais sangue e suor. Porque as palavras não precisam ser gritadas para se fazerem ouvir.

sábado, 7 de março de 2026

No fundo do baú 123 - Emanuel Lomelino

O universo literário sempre me fascinou, ao ponto de levar-me a querer obter o máximo de conhecimento possível.

Sabendo, de antemão, que dificilmente teria acesso a tudo aquilo que vale a pena ler, fui construindo a minha biblioteca de acordo com as possibilidades, tentando abastecê-la com a maior diversidade de géneros e conteúdos.

Com este propósito, para além de muitos clássicos da literatura, de diferentes épocas, origens e correntes literárias, também procurei adquirir ensaios relevantes, de pensadores portugueses.

O problema que tenho enfrentado, nos últimos tempos, é a escassez, cada vez mais evidente, de pensadores lusos contemporâneos.

Depois de Agostinho da Silva e Eduardo Lourenço, parece que se abriu um fosso na intelectualidade porque já quase ninguém quer dissertar sobre o pensamento português.

Tendo refletido no assunto, e conhecendo os diferentes ambientes literários nacionais, cheguei à conclusão de que este vazio deve-se, em grande medida, ao facto de estarmos a viver num tempo em que a maioria das criações literárias carece de consciência autoral e, por essa razão, não resultar de um pensamento crítico e coerente, mas sim de imediatismo sensaborão sem qualquer dose de filosofia associada.

Até pode ser que me engane, mas não creio que nos tempos mais próximos possamos assistir ao aparecimento de algum nome importante nesta área, tal a preguiça de pensamento que grassa nas letras lusitanas.

sexta-feira, 6 de março de 2026

No fundo do baú 122 - Emanuel Lomelino

Esta coisa de ser metido comigo mesmo, não dar bola a qualquer um e preferir o sossego da minha individualidade em detrimento da interacção sem motivo, tem o seu lado bom, mas também pode provocar lutas internas difíceis de administrar. Principalmente quando sinto a necessidade de demonstrar empatia ou solidariedade com alguém, em momentos complicados.

Esta minha forma de estar no mundo, talvez demasiado autocentrada, é vista por muitos como um afastamento deliberado tendo por base o completo desinteresse nos outros. Embora essa leitura seja errada, compreendo que pensem assim porque, a bem da verdade, raramente demonstrei o contrário e nunca combati essa percepção.

O problema é que depois, quando fico a saber que alguém, que respeito, admiro ou estimo, está a atravessar um momento complicado, quero dar o meu ombro, mas a falta de interacção anterior inibe-me. Fico na dúvida entre agir ou ficar quieto. Fico sem saber se as minhas palavras vão ser entendidas na verdadeira dimensão do meu cuidado ou como intromissão indevida e despropositada.

Então, na incerteza, fico no meu canto a torcer à distância, para que as coisas melhorem e a recriminar-me por continuar a passar uma imagem que não reflete, nem pouco, mais ou menos, a minha humanidade.

quinta-feira, 5 de março de 2026

No fundo do baú 121 - Emanuel Lomelino

Na íngreme e inclemente escalada da vida, sempre repleta de obstáculos expectantes e retardadores, não existem degraus baixos nem patamares lisos onde seja permitido cauterizar as mazelas e recuperar o fôlego, sem que a urgência do tempo não se faça sentir. Todas as decisões estão prenhes de imediatismo e há pouco espaço para hesitar. E tudo pesa mais a cada grão que se move na ampulheta.

Neste esforço continuado, sem pausas nem sossego, pode-se ganhar resiliência e robustez, mas perde-se vigor e agilidade.

Sendo certo que o mais importante é a satisfação do caminho feito, também não deixa de ser verdadeiro que as únicas medalhas conquistadas são adquiridas na dor, no sangramento, nas lágrimas, nas contrariedades, e isso é tudo menos justo ou animador porque as memórias de uma caminhada não deveriam ser apenas de sofrimento, mercurocromo e pensos-rápidos.

quarta-feira, 4 de março de 2026

No fundo do baú 120 - Emanuel Lomelino

Percebo as preocupações gerais associadas à inteligência artificial, mas não entro na histeria colectiva dos argumentos baseados no prejuízo pessoal. Discutir os prós e contras numa visão intimista é reduzir a análise ao egoísmo.

Parto do princípio que a IA é apenas consequência lógica do progresso humano, (tal como a revolução industrial) com todas as qualidades e defeitos adjacentes.

Por ser uma questão da humanidade, este tema nunca obterá consenso porque, como prova a história, o progresso colectivo sempre aconteceu com o sacrifício de alguém. Uns beneficiam, outros são marginalizados.

Para não estender muito esta dissertação, e cingindo-a apenas a um aspecto do mundo da escrita (o meu mundo) entendo esta “ferramenta” como um divisor de águas dual. Por um lado, aumentará o número de autores que não são responsáveis pelas criações que assinam (esses existem desde sempre), por outro lado, acentuar-se-á o maior flagelo da humanidade – a preguiça.

Quanto ao benefício… deixarão de existir erros ortográficos… e sacrificam-se os revisores de texto.

terça-feira, 3 de março de 2026

No fundo do baú 119 - Emanuel Lomelino

Ah, meus pobres olhos! Na ânsia de tatuar o meu nome nas pautas do mundo, deixei de vos alimentar com os melhores néctares literários e agora, que a cinza toma conta das vossas íris, temo não ser capaz de vos devolver o brilho.

Ah, meus infelizes neurónios! Na intenção de gravar em mim o máximo de saber, semeei demasiadas sementes estéreis e agora, que o tempo é a preciosidade mais rara, receio não ter habilidade para vos restituir a clarividência.

Ah, meus miseráveis ombros! Na ambição de prolongar ao máximo a minha irreverência juvenil, suportei o peso de múltiplas existências, tal qual Atlas, e agora, que os músculos atrofiam e as forças se esvaem, suspeito que a energia que me sobra é insuficiente para vos revigorar.

Ah, malditos genes que possuo! A sequência dos vossos comandos biológicos guiou-me nos trilhos de uma esperança vã e o tempo, que me pertencia, foi desbaratado na ignorância do seu valor. Agora, no ocaso dos dias, a sapiência dos ventos e das marés não serve para nada - é somente cultura geral.

segunda-feira, 2 de março de 2026

No fundo do baú 118 - Emanuel Lomelino

O próximo objectivo literário passa por encontrar obras de Séneca e descobrir se ele realmente dividiu os homens em duas categorias: os que caminham em frente enquanto fazem alguma coisa e os que vão atrás só a criticar.

Caso a atribuição se confirme, terei de discordar, em parte, e dizer-lhe que se esqueceu daqueles que, deambulam entre as duas facções.

Sim, existem os proactivos. Os que traçam os seus próprios caminhos e vão construindo, pedra por pedra, o destino que melhor lhes convém. Seguem as suas convicções e assumem os riscos do erro.

Atrás vêm sempre os visionários de obra feita, com as línguas afiadas e prontos a apontar, efusivamente e de dedo em riste, todos os percalços, todos os equívocos, enfim, tudo e mais alguma coisa, sem sequer saberem do que estão a falar.

Entre uns e outros estão aqueles que, sabendo identificar possíveis vantagens ou inconvenientes, ora fazem caminhos paralelos aos primeiros, ora juntam as suas vozes sussurradas aos segundos.

Esses, chamemos-lhes dissimulados, camuflam as suas acções em trajectos marginais para fugirem aos olhos dos censores e murmuram opiniões para não serem escutados pelos empreendedores.

Se Séneca dividiu os homens em duas categorias, fica aqui o reparo ao seu pensamento. Caso não tenha sido ele, fico já com a dissertação feita e só tenho de alterar o destinatário.

domingo, 1 de março de 2026

No fundo do baú 117 - Emanuel Lomelino

A loucura das horas furtivas – aquelas que envelhecem corpo e espírito – tem o condão de entorpecer as ideias impedindo a clarividência.

Quando não é combatida atempadamente, transforma-se numa vertiginosa sequência de delírios que tomam de assalto, de unhas e dentes, as vontades básicas, substituindo-as pelas mais insanas, como quem se omite das responsabilidades e transfere o poder de decisão ao subconsciente doentio.

Por isso, sempre que se encerra mais um dia, para não me deixar aprisionar nas teias desconfortáveis do aparvalhamento e aliviar a mente das toneladas de entulho acumulado, entro de cabeça num processo de elasticidade cerebral procurando, assim, reencontrar uma réstia de sanidade. Como? Entregando-me doidamente à leitura de uma obra clássica da literatura universal.

Abençoado terapeuta Celan!