sábado, 28 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 116 - Emanuel Lomelino

Há quem se queixe de, por mais que recomecem algo, o desfecho ser sempre igual.

Mas a questão é simples e sempre a mesma: presumir que os sinónimos representam, fielmente, a mesmíssima coisa, quando não é assim.

Mesmo parecendo terem significação igual, existe uma enorme diferença entre reiniciar e repetir.

Reiniciar é voltar ao início, mas isso não obriga, em momento algum, fazer-se tudo exactamente da mesma forma: isso, sim, seria repetir.

Ora, tendo presente essa pequena, mas essencial, nuance, não é difícil entender que cada regresso ao ponto de partida é uma possibilidade de mudança. Isso implica voltar à estaca zero, mas enveredar por outro caminho, outra via.

Só colocando em prática essa consciência é que o desfecho final poderá ter hipóteses de ser diferente.

Se reiniciar e repetir fossem exactamente o mesmo era impossível evoluir.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 115 - Emanuel Lomelino

Como tantas outras vezes, iniciei a jornada sem destino premeditado – de peito aberto, ao sabor da despreocupação e empurrado pela brisa de cada dia.

Mas, ao contrário de outras caminhadas, decidi arregaçar as mangas, debastar os matagais mais densos, retirar, à força de músculos, os basálticos obstáculos, sem recuar nos inúmeros momentos em que alguns estilhaços, mais afiados do que cutelo de talhante, rasgavam a pele.

Hoje, avaliando as viagens, vejo que todas elas, independentemente do meu grau de resiliência e sacrifício, apenas me fizeram gastar as solas e voltar à estaca zero. Desta vez sem possibilidade de recauchutar os sapatos.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 114 - Emanuel Lomelino

Interessante como nos tempos modernos ainda existe quem pense que fazer um livro é colocar uma capa em redor de um monte de textos dactilografados.

Impressionante como nos nossos dias ainda existe quem pense que espartilhar textos em versos, alguns de forma disforme, pode ser considerado poesia.

Invariavelmente, neste universo de consumismo, ainda existe quem acredite que escrever, tal qual se fala e vive, e sem pensamento crítico, é um contributo para o desenvolvimento cultural de um povo e sua língua.

Infelizmente, nesta era de avanços tecnológicos, ainda existe quem negue a pureza e a perfeição da escrita dos tempos analógicos, como se o acto de escrever tivesse nascido milénios depois da própria escrita.

Intrigante como neste nosso tempo, de suposta escassa literacia, ainda existe quem assuma que ler contamina a sua escrita e restringe a capacidade criativa.

Inquietante, como numa época de pluralidade, ainda existe quem queira que as palavras, tanto escritas como lidas, sejam privilégio de alguns e não direito de todos.

Incoerente como ainda existem iluminados que, não se sabendo quem lhes outorgou a tarefa, querem ditar novas regras para a escrita porque são contra todas as regras.

Imbecilmente, neste tempo de muitas liberdades adquiridas, ainda há quem sinta as suas mais legitimas que as dos outros.

Ironicamente, neste tempo que é nosso, ainda há quem não saiba interpretar cada inflexão deste texto deduzindo ainda menos do que, reduzidamente, aborda.

Inspiram-se sem pensar e depois chamam-se escritores.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 113 - Emanuel Lomelino

Ao longo da história da literatura foram escritas muitas fábulas em que os animais ganhavam características humanas, como a fala. Mas não é sobre isso que vou dissertar. No decorrer do mesmo espaço temporal, foram muitos os escritos sobre bestas mitológicas, mas também não me debruçarei sobre isso. Tampouco escreverei sobre a etimologia de “Zoológica”, pelo menos na verdadeira assunção da ciência que estuda a origem da palavra.

Vou ser mais terra-a-terra e entender “Zoológica” como a lógica do zoo, ou a lógica dos animais. E porque me predisponho fazê-lo? Pelo simples facto de continuar a ver antas confundir “à” com “há”; burros que insistem em escrever “saiem” como se a palavra derivasse do substantivo “saia” e não do verbo “sair”; asnos que não sabem a diferença entre os verbos “caiar” e “cair” e usam “caiem” em vez de “caem”; porcos que chafurdam a escrita com excesso de pontuação; preguiças que não usam pontuação alguma; abutres que preferem usar escritos alheios no lugar de criarem; pavões que exultam os seus escritos banais e parcos de criatividade, só porque tiveram duzentos “gosto” e sessenta comentários numa postagem; papagaios que falam de escrita sem saber a diferença entre redondilha menor e maior; enfim, poderia continuar a desfilar muitos outros animais que identificaria ursos, leões, elefantes, focas, camelos, etc, para compor este zoo.

Mas a culpa destas bestas existirem também é minha porque transformo-me num David Attenborough ou num Jacques-Yves Cousteau e escrevo sobre a existência destes animais.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 112 - Emanuel Lomelino

Na democracia de um mundo perfeito todos têm direitos e deveres, em igual medida.

Na democracia de um mundo perfeito todos têm direito a expressar as suas opiniões, independentemente das razões que os assistem, e todos têm o dever de respeitar todas as opiniões alheias, principalmente as que divergem das suas.

Na democracia de um mundo perfeito a lei permite a manifestação pública de todas as opiniões, desde que feitas ordeiramente, e impede as reacções contrárias ao direito de opinar e manifestar.

Mas o mundo perfeito só existiria se a humanidade também o fosse, e como a democracia é usufruída por humanos, para muitos ela é o seu direito de manifestar opiniões e tudo o resto é antidemocrático, inclusive as opiniões dos outros e as leis que impedem alguém de impor a sua opinião sobre as demais. A democracia perfeita é uma utopia porque será sempre aquilo que cada um entender, até que os outros se calem e submetam.

Resumindo: muitos aproveitam o espírito da democracia para dizerem e fazerem o que lhes aprouver sem darem conta de estarem a agir como verdadeiros ditadores.

E tudo isto faz-me acreditar, cada vez mais, que apenas as artes são verdadeiramente democráticas e são o único elo da humanidade com a perfeição.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 111 - Emanuel Lomelino

Os livros! Esses seres mascarados de inânimes que, quando são abertos, agrafam a nudez das suas letras aos nossos olhos, fazendo-nos perder a noção de tempo e espaço enquanto nos transportam nas asas do deslumbre.

Os livros! Esses malvados seres que enfeitiçam a mente, guiando-nos pelos labirintos da reflexão, semeando ideias, instigando pensamentos.

Os livros! Esses pérfidos apóstolos da sabedoria que lavram, nos âmagos menos ociosos, a terra da razão, como quem, com toda a naturalidade e experiência, coloca roupa a secar ao sol.

Os livros! Esses censores da ignorância; esses opositores do analfabetismo; esses legisladores de literacia; que não receiam infetar-nos com o vírus do conhecimento.

Os livros! Esses camuflados seres opiáceos que nos fazem vagabundear, de página em página, como toxicómanos literários.

Ah, os livros! Metadona do meu vício.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 110 - Emanuel Lomelino

Todos buscam, por vezes de forma desenfreada, contudo irrefletida, o conhecimento pessoal – vulgo autoconhecimento, ou autognose (sim, fui ver no dicionário).

Há quem dedique uma vida inteira nesse propósito sem encontrar resposta alguma. Outros há que estão sempre a encontrar respostas, mas sem conseguirem satisfazer-se com uma só.

Há quem alcance laivos de revelação nos momentos mais mundanos, porque vulgares (como numa roda de conversa) ou em níveis místicos, porque incorpóreos (como numa sessão espírita).

Já eu, encontro o maior conhecimento de mim quando estou a ler – independentemente do género. Embrenho-me nos textos e dou por mim e reagir, mentalmente, a cada personagem, a cada acção, a cada atitude, a cada frase. Descubro-me nos pensamentos que a leitura me provoca e, assim, vou-me definindo através de epifanias literárias.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Contos que nada contam 54 (Noite de luar) - Emanuel Lomelino

Noite de luar


Soltam-se as plumas da noite e a lua – porta-estandarte de todos os astros – deixa-se ver no máximo expoente das suas crateras, como quem exibe umbigos e brotos. E nem a obscuridade dos cúmulos noturnos lhe retira o brilho emprestado.

Na sua nudez aristocrática e presunçosa derrama uma áurea hipnótica, quase magnética, que cativa os uivos caninos, o trinar das guitarras e os apetites canalhas dos malandros mais ousados.

Também os gatos, felinos com refletores nos olhos, demonstram boémia ao luar e por isso fazem dos telhados os seus lugares de eleição para escrutinarem eventuais descuidos de roedores audazes, juntando-se, assim, às corujas de olho grande e aos morcegos acrobatas.

E quando os aspersores molham os jardins, a horas fora-de-horas, são mais os sonos consumados do que as insónias imprevistas ou propositadas, e os pirilampos – quais vigilantes de turno – iluminam os caminhos aos louva-deus e às formigas que perderam a noção do tempo, por terem preferido assistir ao concerto integral das cigarras vagabundas.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 109 - Emanuel Lomelino

Por mais idiota que pareça, começo a sentir as dores do envelhecimento. Não por, a cada dia que passa, aparecer mais um cabelo branco, tampouco por olhar no espelho e ver mais rugas no rosto, menos ainda por sentir que já não tenho a agilidade suficiente para retirar o dedo antes do impacto do martelo.

Estou a sentir as dores de ser quem sou, dentro de um corpo que envelhece, mas sem a capacidade de acompanhar, serenamente, o ritmo de todas as mudanças.

Sinto as dores de ter-me educado a pensar, a refletir, a ponderar, a analisar todos os ângulos de um problema, tentar arranjar as melhores soluções, aplicá-las e, caso seja necessário, retomar o processo e enveredar por alternativas.

Sinto as dores de não conseguir entender esta urgência modernista de catalogar os fracassos como sinais de caducidade, considerar o ontem obsoleto e não dar espaço ao pensamento livre.

Sinto as dores de não querer seguir em frente sem dar luta à vida. Sinto as dores de não ter a habilidade de simplesmente deixar-me ir na onda. Sinto as dores de não ser capaz de trilhar os caminhos mais fáceis – porque confortáveis.

Sinto todas as dores de envelhecimento porque, além de corpóreo, sou mental e, ao contrário das novas gerações, nunca me limitei a decorar os textos, prefiro compreendê-los e sujar as mãos - de lama ou sangue, não importa – porque, só assim, poderei sentir-me plenamente concretizado, mesmo nos falhanços.

Estou a envelhecer e a sentir todas as dores desta metamorfose. 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 108 - Emanuel Lomelino

Afasto-me na urgência imperativa de encontrar a distância certa para ficar fora de alcance.

Não quero os meus olhos infectados com o mais ténue vislumbre das falsas asas de borboleta, impregnadas com o visco dos adjectivos desvirtuados.

Distancio as narinas dos cárceres balsâmicos que exalam maresias de refluxo e invadem, como tsunamis camuflados, as praias da minha individualidade.

Não quero provar os banquetes requintados, com acepipes sabendo a almíscar, mas confecionados nas esconsas adegas das abadias sem fé outorgada.

Quero distância. Por isso afasto-me. Quero ficar longe, cada vez mais longe, dos embustes e emboscadas que rastreiam os meus sentidos. Preciso escapar deste turbilhão e encontrar a serenidade de outros horizontes.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 107 - Emanuel Lomelino

 

Um dos maiores flagelos da actualidade é a ignorância. Não no sentido ingénuo do termo, mas sim no mais arrogante - porque erradamente pretensioso.

São tantos os exemplos que seria exaustivo enumerá-los todos. Por isso, vou apenas cingir-me aos que ignoram, com consciência, a diferença que existe entre culto, erudito e inteligente.

Estes três adjectivos, que muitos consideram sinónimos, são três níveis distintos de intelectualidade.

O culto é uma pessoa instruída e informada, com conhecimento multitemático.

O erudito é aquele que conhece, em profundidade e detalhe, por via do estudo e leitura, uma miríade de assuntos.

O inteligente é aquele que entende e raciocina sobre os conhecimentos adquiridos, conseguindo encontrar-lhes utilidade e aplicação no exercício de outras actividades.

Para que entendam melhor as diferenças usarei como exemplo o mundo automóvel.

O culto conhece quase todas as marcas. Sabe distinguir as diferentes caraterísticas de cada veículo. Tem noções do funcionamento mecânico e as potencialidades de cada viatura.

O erudito já leu sobre todas as marcas ao ponto de conhecer a história de cada uma delas. Sabe diferenciar, em detalhe técnico, de manual, os diferentes componentes mecânicos e a lógica de funcionamento de cada porca e parafuso. Conhece, em pormenor, o processo de combustão, os circuitos eléctricos e de refrigeração, para que servem e como funcionam.

Inteligente é o mecânico, que na sua oficina consegue identificar, pelo som do motor, as deficiências mecânicas de um veículo; descobrir qual a válvula danificada; qual a porca mal apertada; aumentar a potência de um motor; etc.

Assim sendo, deixem de ser ignorantes e não menosprezem as capacidades daqueles que têm as mãos sujas de óleo. Esses serão sempre os mais inteligentes.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 106 - Emanuel Lomelino

O mundo está cada vez mais chato.

Está tão maçador que me fez recordar uma lengalenga do início da minha juventude (14/15 anos), que eu recitava quando estava a falar com um chato, e dizia assim:

“Um chato tem duas hipóteses: ou vai à tropa ou não vai. Se vai, está tudo bem; se não vai, tem duas hipóteses: ou casa ou não casa. Se não casa, está tudo bem; se casa, tem duas hipóteses: ou tem filhos ou não tem. Se não tem filhos, está tudo bem; se tem filhos, tem duas hipóteses: ou é uma menina ou um menino. Se é uma menina, está tudo bem; se é um menino, tem duas hipóteses: é, chato, ou não é, chato?…”

Alguns compreendiam as pontuações (entoações) finais, mas outros havia que faziam com que as reticências fossem substituídas pelo recomeço da lengalenga.

O mundo está tão chato que até exaspera e fico com saudades dos chatos da minha juventude.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 105 - Emanuel Lomelino

À medida que me embrenho na longitude da idade, reforço a certeza de ter sido integrado num tempo que jamais deveria pertencer-me.

Esta percepção – algo entre ingenuidade e sentimento de negação – fez-me acreditar, na juventude, que o meu carácter era inocente - por berço, natureza e fado.

Com os anos, esta leitura revelou-se-me, surpreendentemente sem espanto, na plenitude da sua erroneidade, permitindo-me identificar, como nunca antes vira, os pontos de união entre episódios isolados e o meu desenquadramento temporal.

Na ausência de via alternativa, procurei adaptar a minha essência à realidade, como um trapezista, em busca de equilíbrio entre dois mundos.

Esse processo de calibragem permitiu-me entender as motivações para a existência e aplicabilidade de inúmeros conceitos, que dariam para escrever mil ensaios e teses de comportamento humano. Quem sabe, um dia os farei.

Por agora limito-me a confirmar que vivo deslocado no tempo, num mundo que não é o meu e com o qual não me identifico.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 104 - Emanuel Lomelino

Naqueles dias em que esqueço de me equipar a rigor, fico suspenso nas escarpas íngremes da memória e os pensamentos nascem reféns pré-datados, como se a mente tivesse sido calibrada para uma só lembrança.

Por mais voltas que dê, por mais tentativas que faça, há sempre uma ou outra recordação a querer protagonismo, como quem procura ser reconhecido acima da sua própria importância.

Nesses momentos fico insuportavelmente incomodado com o desaforo do tempo, em querer ultrapassar a sua caducidade, porque sou apologista convicto, para não dizer radicalmente defensor, da máxima: “águas passadas não movem moinhos”.

Para além disso, é tedioso pensar em mono, ainda por cima, numa era em que a celeridade dos avanços tecnológicos é maior do que um piscar de olhos e, apesar de ser da velha escola, já me habituei às multiplataformas.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 103 - Emanuel Lomelino

As pessoas têm um medo insano do silêncio que as leva a urrar as maiores atrocidades, como quem faz piruetas sempre que a luz dos holofotes incide sobre si.

São poucos aqueles que sabem valorizar a solidão consciente e reconhecer o silêncio como um lugar privilegiado onde ninguém, para além do próprio, deve ingressar.

Um espaço, bem no âmago, onde a consciência consegue respirar livremente e restabelecer-se num ambiente de intimidade e conforto, em que o vazio total é sinónimo de paz.

Infelizmente, há quem desconheça o carácter paliativo do silêncio e o confunda com solidão emocional, e por essa razão usam todos os artifícios para jamais ficarem fora do alcance dos olhares alheios. Esses, pobres vítimas do engodo, nunca serão capazes de compreender o quão falaciosa pode ser uma multidão e como é um engano pensar que caminhando em grupo se ludibria a solidão nefasta.

Mas o pior é não entenderem que existe quem faça do silêncio um porto de abrigo e reflexão, opte por trajectos alternativos, longe das ribaltas e sem grandes alardes, porque é dentro de nós que nos encontramos verdadeiramente.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 102 - Emanuel Lomelino

A vida tem-me escamado os sentidos como se a minha existência fosse um cúmulo de estações que se repetem ciclicamente.

Sinto-me um objecto renascentista, nas mãos do destino, quando os dias revelam ser dejá vu em looping, uma e outra e outra e outra vez.

A aspereza vulcânica, que pensava ter exterminado e dera lugar ao reinado de uma gentil suavidade, nascida de uma necessária e útil cordialidade, e que me impedia de reagir em impulsos nefastos, regressou ainda mais explosiva, como quem retorna ao ponto de partida após uma ausência consciente, deliberada e com horas contadas.

A tolerância escoa-se em animalescas correntezas de impaciência, tal como o rio mais feroz e indomável.

Conclusão… por mais que embelezemos os cenários a essência jamais se altera porque as pedras serão sempre pedras, por mais que alisemos as rudes arestas pontiagudas.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 101 - Emanuel Lomelino

Imagem istockphoto

Existem livros que nos permitem reencontrar a chama de vida que o tempo, inclemente, procura extinguir.

São páginas de sabedoria que enchem o âmago e conseguem entranhar-se no canto mais íntimo de nós, ressuscitando a vontade de sorrir para a lua e abraçar as estrelas.

Existem livros que nos falam as palavras certas, no momento mais necessário, como uma poção de energia rejuvenescedora.

São páginas paliativas que reforçam a nossa imunidade às maleitas desta era de inversão, de radicalismos fúteis e bacocos, de pragas analfabetas e desinteligência nata.

Existem livros que são portas e janelas abertas para mundos de ideias, pensamentos e raciocínios, cada vez mais escassos, e que provocam as nossas próprias reflexões, fazendo-nos exemplos perfeitos da máxima de Descartes “Cogito ergo sum”.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 100 - Emanuel Lomelino

Conheço-me por inteiro, de polo a polo, em todas as coordenadas e pontos cardeais. Sei os meus atalhos, desvios e encruzilhadas. Domino a minha geografia, até de olhos fechados, de trás para a frente e em linha recta. Vejo-me na plenitude do ser (pensante e corpóreo) e sinto-me na totalidade das fracções que me compõem.

Sou antropólogo, matemático e historiador da minha essência – para o bem e para o mal – ciente das multifacetadas circunstâncias e vicissitudes que me moldaram e, porque sou obra em permanente construção, continuarão a esculpir-me nos dias por vir.

Sou o mais feroz crítico dos meus defeitos e impetuoso defensor das limitadas virtudes que exalo, sem alarde, com plena noção de quão ténue é a linha que as separa da evitável soberba.

Sou como sou, na consciência dos actos e na legitimação de existir do meu jeito.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 99 - Emanuel Lomelino

Lancei, ao vento, um papagaio de papel, com o formato de diamante e frases que voam alto. Daquelas que nos levam a acreditar que as palavras fazem eco nos corações, mesmo os mais empedernidos.

A brisa acariciou cada letra, como quem beija o mais sagrado dos cálices divinos, e o ar ficou prenhe de plumas celestiais a oscilar como flocos de neve.

O céu chorou sete lágrimas pingentes, uma por cada cor do arco-íris que, sorridente, agraciou o mundo com a sua benevolência graciosa.

Duas cotovias ladearam o papagaio de papel, qual escolta imperial, numa sincronia notável. Ora para a esquerda, ora para a direita, ora planando, ora subindo, ora descendo, num voo perfeito de tão belo.

Rompi o fio, como quem corta o cordão umbilical, e deixei o papagaio de papel ganhar vida e escrever, nos céus, o seu próprio destino.

Ainda hoje escuto, nos murmúrios das aragens vespertinas, a sinfonia das palavras que escrevi no papagaio de papel. E sinto-me tão livre quanto ele. Só não tenho as cotovias ao meu lado.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 98 - Emanuel Lomelino

Muitas vezes, antes de dar asas ao cumprimento do meu ofício de lazer, revejo as primeiras páginas deste compêndio de exercícios e nasce em mim uma frustrante revolta pela pobreza franciscana que tenho derramado.

Apesar do número de fiéis leitores, sempre generosos no acompanhamento, os textos soam-me tão insonsos quanto miseráveis e dificilmente me satisfazem. Há sempre algo que, na hora da concepção, passa despercebido, mas na releitura ganha destaque como estivesse manchado de fluorescência.

Admito que o meu sentido de autocrítica ultrapassa, amiúde, os níveis de razoabilidade, mesmo na avaliação de meros exercícios sem pretensões literárias, porém, sem ele a minha escrita estagnaria.

E, convenhamos, os maus textos não só aborrecem como também emburrecem.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Contos que nada contam 53 (À beira do lago) - Emanuel Lomelino

À beira do lago


As gaivotas estão alinhadas no pontão, à espera do momento certo para agitarem as asas, enquanto os cágados sobem aos solários para aquecerem as carapaças e os patolas dividem pasto com os pombos – oportunistas-mor do parque.

Na outra margem do lago, a avó delicia-se com o espanto infantil que a netinha demonstra ao ver o aspersor regar a relva luxuriosamente verde.

Os bancos de jardim começam a ficar ocupados por gente sem horário, viciados em ecrãs táteis, novos românticos e apreciadores de solidão ao ar livre.

Num canto resguardado, o PT da moda dá instruções gímnicas ao escanzelado que, banhado pelo esforço, tenta transparecer atleticismo para impressionar as loiras saradas que usam o trilho próximo.

Joggers, runners, ciclistas e trotineteiros cruzam-se invisíveis, na pista de alcatrão laranja, com a voluptuosa patinadora quase desnuda, cuja movimentação acelerada provoca alvoroço no pontão. Uma a uma, as gaivotas abrem as asas, levantam voo e grasnam à sua passagem. Os cágados mergulham para arrefecer as carapaças, os patolas refugiam-se sob a água aspergida e só os oportunistas-mor continuam, impávidos e serenos, entregues à rapinagem, numa indiferença pombalina.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 97 - Emanuel Lomelino

Gosto de abrir os livros às vozes do passado e deixar-me envolver pelos trâmites de outrora.

Passeio nas diligências do saber pretérito, percorro trilhos e veredas, pernoito em albergues e estalagens, atravesso aldeias e lugarejos, escuto as modinhas camponesas, os fandangos ciganos, as valsas aristocratas.

Navego em caravelas, trirremes, faluas e outros batéis, lado a lado com marujos e outros navegantes.

Monto dromedários nos desertos, iaques himalaias, jumentos bérberes, cavalos mongóis, elefantes asiáticos, licórnios e outras mitologias.

Embrenho-me em jardins sumptuosos, bosques, florestas, searas, prados, castelos, palácios, cárceres, coliseus, fóruns, becos e tabernas.

Escuto filosofias e saberes milenares, observo comportamentos seculares, respiro superstições e crenças intemporais, bebo conhecimento universal, entro em estreito contacto com culturas eternas.

Depois fecho os livros e pondero no que aprendi sem acreditar na remissão da humanidade nem na absolvição dos desvios da modernidade.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 96 - Emanuel Lomelino

A necessidade de trabalhar nas palavras é, mais que um dever imperativo, a solução para desanuviar a mente depois das escoriações provocadas pela dureza de um dia interminável.

Há uma urgência de reflexão que lateja no âmago até roçar o desespero e o corpo exige uma pausa restauradora, só atingida num estágio de solidão física e na ausência de lucidez da dor.

Respiro fundo. Fecho os olhos. Abstraio os sentidos. Sacudo os incómodos. Abraço o silêncio. Entro no universo do vazio. Nada.

Inspiro lentamente, como quem absorve o tempo a conta gotas. Olho a folha branca que espera, pacientemente, o primeiro beijo de tinta. Expiro como quem dá o tiro de partida, deixo que as palavras fluam a seu bel-prazer e abracem, com serenidade, a paz instalada.

Com elas surge a libertação suprema. Através delas instala-se uma harmoniosa conciliação com o mundo; com a vida; comigo.

Escopros, ponteiros, macetas, hematomas, esfoladelas, sangue, suor, cansaço (não necessariamente por esta ordem) deixam de significar penosa realidade e, aqui, regressam à sua condição de meros vocábulos.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 95 - Emanuel Lomelino

Em criança, logo, numa fase prematura e ingénua da minha existência, comecei a acumular alguns sonhos, como tesouros preciosos que defenderia com a própria vida.

O tempo encarregou-se de concretizar uns, eliminar outros, substituir alguns e frustrar a maioria.

Os anos passaram, comecei a ver o mundo com outras cores e aprendi a delinear os objectivos com outra precisão, porque a experiência assim o exigia, mas sempre sem deixar de sonhar grande.

Durante a caminhada foram muitas as adversidades impossíveis de contornar que me obrigaram a fazer escolhas e a ser mais criterioso. Então deixei de ser um acumulador de sonhos para me transformar em coleccionador de projectos por realizar.

À falta de oportunidade, ou capacidade, para levar tudo a bom porto, apertei mais a malha da exigência e segui na luta escolhendo as batalhas a travar.

Porém, porque a vida apresenta muitas encruzilhadas e o cansaço dos desaires não mata, mas mói, fui deixando cair grande parte da bagagem sonhada para dar algum alívio às costas.

Foi nesse momento que percebi que o meu sonho maior, que apenas vagueava no meu inconsciente, foi o único que sobreviveu à caminhada, resistindo a todos os meus tropeços, enganos e quedas.

Feitas as contas, não fui eu que concretizei este sonho. Foi ele que me filtrou.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 94 - Emanuel Lomelino

Não sei se alguém já escreveu uma tese de doutoramento, sobre genética, abordando a possibilidade do ADN humano conter um gene oleiro. Acredito que, estudando o assunto de forma aprofundada, há grandes probabilidades de ser um ótimo tema para dissertação, uma vez que podemos encontrar inúmeras provas que nos levam a considerar como possível a existência desse gene.

Nos primeiros anos de vida, todos nós, sem excepção, somos moldados pelos país e professores. Este processo, chamado educação, é socialmente aceite, por se tratar de simples transmissão de conhecimento.

No entanto, depois de ultrapassada essa fase de aculturamento natural, em muitos momentos da nossa vida, encontramos muita gente com a pretensão de nos moldar segundo os seus critérios, procurando adequar a nossa forma de agir e pensar, não ao que mais nos convém, mas sim ao que melhor serve os seus interesses.

Outros há que nos querem “embelezar” dentro dos seus próprios padrões estéticos, sempre em mutação, como se estivéssemos numa linha de montagem para produção em série e permanente reciclagem.

O maior problema desta realidade é que o hábito de produzir clones, culturais ou plásticos, já está tão enraizada nas sociedades modernas que, pasmem-se os incrédulos, até os próprios clonados são responsáveis pelas novas clonagens.

E são tantas as pessoas com essa tendência ceramista que não é difícil acreditar na existência de um gene específico. Falta só aparecer a tal tese de doutoramento.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 93 - Emanuel Lomelino

Imagem retirada da internet

Dei-me a liberdade de ignorar o tempo, e o clima, e iniciei a caminhada sem destino premeditado.

Deixei-me guiar pelo instinto e permiti-me mergulhar nos pensamentos de forma deliberada.

Pesei, na balança da consciência, os prós e contras de todas as possíveis decisões para a resolução das minhas dúvidas mais prementes.

Cirandei, pelas ruas da cidade que me enche as medidas, mesmo não sendo minha, quase em piloto automático. Apenas andando de mãos dadas com as reflexões.

Nesta deambulação, dei por mim a entrar na livraria por impulso, como se aquela porta fosse apenas mais uma esquina contornada, parei diante de um livro de capa preta, peguei-o, girei-o noventa graus, juro que sorri, levei-o à caixa, paguei, sai.

Fiz a caminhada de regresso, já sem pensar na vida. Apenas me indaguei sobre a razão de ter entrado naquela livraria, pela primeira vez em trinta anos, pegado no primeiro livro que cruzou o meu olhar e sentir que a caminhada, supostamente feita ao acaso, afinal, estava previamente destinada – por vontade de Nietzsche.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 92 - Emanuel Lomelino

Abram as portas do fórum e permitam que todas as testemunhas dissertem como lhes aprouver. Escutem as versões de cada uma delas, como quem escuta um hino – em reflexão silenciosa e contemplativa.

Anotem todas as denúncias, cismas, queixas, dúvidas, melindres, temores, desconfianças, suspeitas e imputações. Deixem-nas fazer todas as acusações. Anotem tudo. Deliberem na independência do vosso juízo e sentenciem - se tiverem de o fazer.

Eu, na qualidade de réu assumido, limitar-me-ei a escutar todos os relatos, como quem se delicia ao ouvir os contos mais fantasiosos, plenos de drama e repletos de “achismos”.

Seja qual for o desenlace, seja qual for o entendimento deste tribunal, nascido da vontade protagonista e alavancada em propósitos coscuvilheiros, receberei os autos de pronunciamento como quem anseia ler o argumento adaptado, para cinema, de uma ficção sensaborona.

Por mais que tentem, nunca conseguirão biografar o meu trajecto, a minha caminhada, os meus conceitos, as minhas decisões, sendo fiéis aos acontecimentos, sem que eu decida favorecê-los com a única verdade que me define – a minha.

Até lá, e para não caírem no ridículo, sugiro que no final da vossa colectânea de adivinhação coloquem a frase: “toda e qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência”.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 91 - Emanuel Lomelino

Quando visto o uniforme para garimpar o que sou, olho-me ao espelho e louvo os traços que o tempo vincou no meu rosto, com a maestria que só ele possui.

Vejo minuciosamente, de lupa em riste, e não detecto ruga mal colocada, ou nascida sem razão. Todas se explicam, e aplicam, na minha essência, como um traje feito à medida, por encomenda.

Na aspereza natural da derme curtida, destacam-se algumas cicatrizes merecidas, outras tantas por negligência, mais algumas que, embora saradas, ainda tem memória dolorida.

Então, tento lembrar-me das minhas feições imberbes, como quem se entrega à tarefa de descobrir as diferenças, porque todas as fotos deixaram de estar em exposição quando foram colocadas nos álbuns do esquecimento. Nenhuma escapou à crueldade do engavetamento, não fosse alguma lembrar-se de ganhar vida e azucrinar, com feitio igual ao meu, o dia-a-dia de alguém.

E assim, quase sem traços visíveis da aparência anterior, mas honrado pelo desenho do tempo, caminho de cabeça erguida mostrando ao mundo a prata que a vida me vem outorgando.