terça-feira, 12 de novembro de 2013

NATÁLIA CORREIA

Mulher açoreana, pêlo na venta
poetisas como tu já não fazem
nem sei como a poesia aguenta
quando os melhores já jazem.

Guerreira de milhentas batalhas
foste mais audaz qu'os audazes
este país hoje está de cangalhas
nem sabes a falta que nos fazes.

Lutadora sem pápas na língua
p'ra casa não levavas desaforo
o nosso idioma anda à míngua
de nada serve o pranto e choro.

Tua voz de tom satírico, mordaz
nunca se deveria ter despedido
o pessoal anda em marcha-atrás
porque esta vida perdeu sentido.

Levaste as tuas armas contigo
quem te admira ficou indefeso
os políticos só olham o umbigo
e o povo, bem, esse anda teso.

Sem ti, Portugal não tem nexo
nunca antes tal por aqui se viu
o povo fodido tem menos sexo
e a taxa de natalidade diminuiu.

Poema extraído do meu livro POETAS QUE SOU - Lua de Marfim - 2013



terça-feira, 22 de outubro de 2013

NATÉRCIA FREIRE

Quando chegar a hora do anoitecer
e os postigos dos olhos relaxarem
tenho a certeza que vou adormecer
abraçado ao crepúsculo do crer
mesmo depois de me encerrarem.

Visitarei o porto da minha descrença
ao barqueiro Caronte pedirei licença
mas recusar-me-ei embarcar
se a travessia for tumultuosa
a barca ser distante de luxuosa
e não ouvir os querubins a cantar.

Pela viagem não pagarei um tusto
a mim não se aplicará cobrança
não atravessarei a qualquer custo
para arrelia já bastou o susto
de jamais viver em abastança.

E se Caronte insistir no pagamento
direi que verdadeiramente lamento
mas nem obrigado irei pagar
só embarcarei estando tudo a gosto
eu nunca fiz o que me foi imposto
não pisarei a barca para lhe agradar.

E se no limbo que não acredito
eu tiver de permanecer eternamente
não darei o dito pelo não dito
mesmo que me chamem impertinente.

Poema extraído do meu livro POETAS QUE SOU - Lua de Marfim - 2013


terça-feira, 15 de outubro de 2013

JOAQUIM PESSOA


Poeta de cantigas e canções
estrofes e refrões
escrivão de melodias.
És génese de recordações
de várias estações
escritas em poesias.

Poeta de verbo sentido
de ti poema parido
com doces palavras de mel.
Diz-me agora
quem é que tu amas
de todas as mulheres
que tiveste na cama.

Falas de dor e ciúme
amor que é lume
coração que é fogueira
Dizes paixão é o cume
sentimento qu'une
para a vida inteira.

Poema extraído do meu livro POETAS QUE SOU - Lua de Marfim - 2013

sábado, 12 de outubro de 2013

CASIMIRO DE BRITO

Através das grades dos teus olhos
vislumbras metade do que sou
já de mim um ser incompleto.
Decepas as palavras que te dou
torces os sentidos da razão
celebras os anúncios alheios
como se a única verdade
fosse exclusiva de outras bocas.
No fundo desconheces as sombras
e os escombros de onde ressurgi
e ignoras as penas dos meus pecados.
Existe guerra no teu coração
porque do pouco que vês
formas duas ideias contraditórias
sou feroz aliado e inimigo fiel.

Poema extraído do meu livro POETAS QUE SOU - Lua de Marfim - 2013

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

ANTÓNIO RAMOS ROSA

As palavras também têm infância
nascem e crescem e inventam-se
ganhando corpo numa frase
e alma nas estrofes do poema.
As palavras jovens não temem o mundo
nem receiam a vida por serem imortais.
Adultas, são sérias e dignas
e juntam-se aos seus pares
em livros que pretendem ser memória.
Por mais que custe ao poeta
todas as palavras mesmo rasuradas
sobreviverão ao seu parteiro
e atravessarão a eternidade.
As palavras não são naturezas mortas
nem mesmo quando queimadas.


Poema extraído do meu livro POETAS QUE SOU - Lua de Marfim - 2013

Neste dia triste para o universo das letras portuguesas, quero deixar a minha solidariedade e sentidas condolências aos familiares e amigos do grande poeta que hoje nos deixou. Até sempre mestre!