Atravessei o vale da noite
Com a alma pendurada no olhar
O sorriso amarrado à cintura
Nas pernas o tombo do cansaço
De quem bebia à volta do prato
E picava as migalhas
Sob um convite lunar
Quando os cabrões me deixaram
Os restos mortos de um planeta
Meditei-me na intensa escuridão
Sobre o sossego espaçado
Da quinta fase da lua
Insanidade profetizada
A erigir bandeiras
De palavras prostitutas
Isenta de afectos
Reapareci-me
Nessa quinta fase
De uma lua ignorada
Efeitos colaterais
De Lugares Santos.
Naveguei nos trilhos do crepúsculo
Mordendo o pó dos caminhos proibidos
Sorvendo das pedras o desejo estéril
Alimento para as almas refugiadas.
Sob o brilho da lua pagã
Abracei-me ao pensamento
No breu do Nirvana
No desapego do afecto inteligente
Furtei as raízes do sentimento
Usurpei a consciência do espaço.
Num estupro de palavras
Alucinei a razão do sentir
E morri-me em gritos surdos
No frágil tempo nocturno
De um terreno fértil de loucura.
Vazio de crença
Transformei-me
Numa esfíngica construção
Temperada no fogo
Da quinta fase da lua
Qual Fénix renascida.
Dueto extraído do meu livro LICENÇA POÉTICA [duetos lomelinos] sob chancela LUA DE MARFIM - 2011
Há coisas que não se devem dizer?
E por que havemos de ficar calados
Quando nos querem ver embuchados
C’os sapos que não devemos comer?
Não me criem limites p’rá liberdade
Não vos admito tamanha intromissão
Mesmo se do meu lado não há razão
Tenho direito à minha expressividade
Já lá vai o tempo, o tempo da censura
E na carne, nossos pais sofreram isso
Mas nos dias d’hoje já demos sumiço
E na democracia não existe ditadura
A todos os velhos do Restelo, atenção
Não abdico da liberdade d’expressão
Ai que vontade!
De te sussurrar montes e vales
numa promessa de tempo
deitados num mar de golfinhos.
Ai que vontade!
De te falar das minhas fases de lua
e ouvir os teus cantos de céu
nas vozes trémulas dos anjos.
Ai que vontade!
De perder toda a consciência
no leito macio de um bosque
e aí depositar um beijo quente.
Ai que vontade!
De me fundir em ti num abraço eterno.
Percorrer as estradas do teu corpo
como um vagabundo sem mapa.
Ai que vontade!
De deitar a cabeça na fonte do teu ventre
deixar-me afogar na tua seiva
e respirar a vida pela primeira vez.
Da tua boca quero um beijo, estou sedento
não existe sede que eu mais queira saciar
dos teus lábios, amor, sorvo o meu alento
e o alento dos teus beijos só tu podes dar
Da tua boca não vem nada, como lamento
que triste é, os teus lábios, eu jamais tocar
feliz seria eu se viesse esse feliz momento
e teus lábios a minha boca viessem beijar
mas a tua boca anda bem longe da minha
e em outra boca tem depositado os beijos
que esta minha boca tanto anseia e deseja
Por isso a minha boca aos poucos definha
e dela apenas se podem ver meros bocejos
como é triste ter uma boca que não beija
Um dia, quando despertares da letargia do sono
e te lembrares da poesia que respirámos juntos
recorda com saudade o meu acordar rubro
e a minha resistência em ser poeta pela manhã.
Um dia, quando te libertares da felicidade do sonho
procura no azul-celeste da tua memória viva
os versos doces que quis escrever no teu corpo
e sente o sal que os meus olhos derramaram
sobre as imaculadas folhas de papel virgem.
Um dia, quando sentires a dureza dos caminhos
e quiseres sarar as cicatrizes da tua existência
reaviva os verdes momentos de esperança
daquelas palavras escritas que um dia te dei.
Um dia, quando confessares a tua essência
e essa verdade que sempre viveu em ti
podes enfantizar as qualidades da poesia
que pensei mas sempre resisti em escrever.
Um dia, depois de ouvires os sinos da partida
e descobrires a cegueira dos meus olhos meigos
aplaude a minha falta de originalidade criativa
e enaltece a forma como lomelinizei a vida.