Fui pintado
com cores que não são minhas
o meu brilho foi adulterado.
Fosse eu outro
e ter-me-ia ofuscado
na minha própria luz.
Coloriram-me cintilante
numa luminosidade atroz
que não me convém.
Os tons de que me visto
são do meu catálogo particular.
Tintas fabricadas por mim
que só em mim caem bem.
Acalentaram em mim
um incêndio que desconheço
com lenha bravia
ceifada de bosques inóspitos.
O lume que de mim irradia
tem calor próprio
é puro e natural.
A chama soprada do meu interior
provém da fogueira que ateei
e o fogo que sai de mim
só eu o posso alimentar
ou extinguir.
Cristalizaram a fonte
de onde jorra a minha seiva
e deram-lhe a pureza que não tem.
Incentivaram novas correntes e marés
ao sabor de tempestades que não são minhas.
O sangue que me corre nas veias
flui ao ritmo da minha vida
na cadência que melhor me serve
em harmonia com o meu sentir.
Por mais ondas de cores quentes
que queiram impor no meu oceano
só eu tenho acesso à torneira
que rega o meu Ser.
Por mais vagas de claridade
que queiram impingir no meu mundo
só eu consigo ligar
o interruptor que me dá luz.
Por mais labaredas vivas
que me tentem acender
só eu posso inflamar
a salamandra que me aquece.